[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 61 - Soberba


Capítulo 61 – Soberba

Chovia em toda a São Pedro, inclusive na fazenda de Frederico que, jamais aceitando quaisquer justificativas, exigia que os escravos trabalhassem enquanto seus corpos eram açoitados por ventos fortes e gotas avantajadas que caíam sem cessar do céu fechado, repleto de nuvens escuras que afastaram a luz do entardecer. A frente fria que chegara à região garantiria dias de extremo inverno.
Dizer não à ordem do sujeito vingativo? Contrapor-se à decisão do sujeito que não media forças na hora de castigar? A melhor opção que restara aos escravos era trabalhar sobre quaisquer condições a fim de garantir mais um dia de vida, garantir a continuidade de um sonho altamente cobiçado, de um desejo velado como rico tesouro, garantir a permanência sobre a ideia de liberdade.
Artur, tendo as vestimentas encharcadas, os cabelos molhados caídos sobre a testa e o corpo trêmulo pelo frio que a tempestade trouxera, não reclamara, não mais, aquela condição, vivida tantas vezes, apenas acrescia a coragem por lutar, a valentia em seguir no plano contra forças opressoras e conquistar alívio para o espírito frustrado e para a carne exaurida. De que adiantaria reclamar? Em que suas reclamações resolveriam? Tudo o que importava era lutar de punhos fechados, era reconquistar a dignidade feito um guerreiro.
De seu quarto, agasalhada em virtude da friagem que invadira a casa grande, Ana se colocou na varanda do cômodo, observou com pesar os seres humanos que eram forçados ao trabalho explorador, que em troca de mais um dia de vida aceitavam as mais indignas situações. Sentiu vergonha da própria espécie. Sentiu raiva contra a própria espécie ao ver seu amado entre os demais homens, raiva que perfurou seu íntimo, raiva que arrancou lágrimas de seus olhos.
— Algum problema? — passando pelo corredor, curioso por saber o que a filha fazia parada na varanda, Frederico adentrou o quarto da moça, percebeu o gesto de quando se procura esconder o choro, não deixou de notar o nariz fungando —. Sei que me contempla como um monstro por inúmeras razões, mas jamais hesitaria antes de colocar as mãos em quem ferir o seu coração — suas palavras soavam mentirosas aos ouvidos de Ana —. Quem foi o insolente?
A jovem mulher, condoída pela cruel realidade que assistia sem nada conseguir fazer, virou-se ao homem que se colocou à sua direita, encarou-o com o olhar abatido, atentou-se a ele com o coração quebrantado.
— Quem foi o insolente? — repetiu a indagação do pai —. Se descobrisse ficaria enlouquecido por saber o quão próximo ele está, o quão cruel tem sido com a sua filha sem que seus olhos o percebessem.
— Não me venha com falsas acusações contra Pedro, ele é um grande rapaz!
— Sim, ele é um bom homem, possui pensamentos humanizados, mas não é ele o causador de minhas angústias. Você, você é o meu opressor, você é o que chamou de insolente, você é quem fere os meus sentimentos a todo o instante. Pode colocar as mãos em si mesmo?
O barão, vestindo o rosto zombeteiro, soltou uma risada de desprezo, encontrou o íntimo dos olhos da filha, jamais se sentiria culpado por, em sua concepção, tratá-la como merecia.
— Hoje está faltando com o respeito, mas amanhã me agradecerá por ter escolhido Pedro como seu esposo. Sua vida de luxos e conforto se sustentará pela eternidade. Não percebe minha preocupação por você?
— Não queira se mostrar dócil enquanto pratica impiedades — a moça tornou a encarar a paisagem nebulosa, cinzenta, tomada por águas nervosas que despencavam do céu —. Enquanto diz se preocupar comigo assola essas pessoas, obriga-as a trabalhar em condições tão deploráveis e inaceitáveis, ameaça-as dizendo que possui o poder da morte, mas quer saber de uma coisa? — voltou a encarar o pai, dessa vez com provocação —. A morte não está em suas mãos, ao contrário, ela o vitimará e quando esse dia chegar irá perceber o equívoco que cometeu durante uma vida inteira, verá que ser prepotente não o livrará de ser devorado por vermes!
Frederico, sempre no pedestal de sua soberba, ficou sem palavras perante o argumento que deixou à mostra a fragilidade de sua vida, a insignificância de sua existência, a pequenez de seu tamanho. Mas um coração arrogante nunca se permite ao abalo de consciência, à reconsideração de valores, ao contrário, ensoberbece-se ainda mais a fim de se manter na inútil valentia.
— Não fale bobagens ao querer defender esses imprestáveis — rebateu —. Vou morrer um dia, é verdade, todos precisamos nos acostumar com a finitude das coisas, mas a diferença é que me diverti, senti prazeres, deleitei-me em satisfações, vivi! Já eles, condenados ao propósito de servir, partirão como uns fracassados! — partiu deixando revolta e indignação.

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Algumas pessoas prezam tanto o julgamento alheio que paralisam no caminhar, ficam imobilizadas na vida, sentem medo de ousar ao próximo passo e não corresponder às expectativas à sua volta, preocupam-se tanto com a opinião de terceiros que querem comandar até mesmo aqueles que moram debaixo do mesmo teto.
Egídio, embora não declarasse em alto som temendo a verdade que não suportaria, sempre achou estranho o abismo que o filho colocava entre eles e as moças que, obviamente, o tinham como um bom pretendente. Queria compreender as razões para tal comportamento, razões que o esquivavam do que ele sabia ser a verdade, a verdade que despertaria falatórios escandalizados, que atrairia olhares que não queria enfrentar.
Embora o desabafo fosse nítido, preferiu acreditar em ilusões.
— Com tantas belas moças que cairiam de joelhos perante a sua presença, tendo a chance de se casar com uma das mais belas damas da região, não me diga que se apaixonou por uma escrava! — aquilo também era ruim para a mente intolerante, não mais que a outra hipótese que ganhava volume.
Pedro, cansado de dedicar energia a um segredo que o sufocava sem sutilezas, encarou o pai com seriedade, sua face não era de diversão, descontração, o que declarava naquele escritório era a mais séria certeza, queria acabar logo com aquilo.
— O senhor entendeu o que quis dizer, sei que entendeu, não queira simplesmente ignorar ou me coagir a ignorar o que sinto, o que sou. Essa é a verdade. A que sempre soube que o assombraria — tocou as mãos do pai no gesto que clamava por auxílio e compreensão —. Espero poder contar com o amigo que minha mãe disse que teria.
— É com absoluta convicção que pensou que ao se comportar como um impuro encontraria em mim um amigo? — com repugnância, afastou as mãos do filho, dirigiu-lhe o olhar de desprezo e rejeição —. Não me conhece o bastante para saber que jamais aceitaria um pecador? Que isso vai contra a minha índole?
— Contra a sua índole ou contra o seu orgulho? — sentindo a dor da falta de tolerância e amor daquele que tanto admirou e estimou, Pedro não pôde evitar as lágrimas que se juntaram sobre as pálpebras —. Nunca confessei a verdade por saber que para o senhor mais importante do que a felicidade do seu filho é a opinião das outras pessoas, é o que essa sociedade hipócrita pensa ou deixa de pensar!
Ignorando os argumentos daquele que possuía o seu próprio sangue, Egídio se levantou da escrivaninha, caminhou até a porta e a abriu.
— Se quiser continuar nessa casa, se quiser permanecer como meu filho, repense suas decisões, repense quais pecados quer ter. Se escolher permanecer nesse pensamento doentio é bom que desapareça antes que o mate!
Ser ameaçado de morte por alguém que amava fez o mundo cair sobre as costas do rapaz que sentiu como se a tempestade que ruía lá fora passasse a balançar as estruturas de sua alma. Com lágrimas rolando pelo rosto caminhou até o pai, encarou-o em uma última tentativa.
— Você prometeu... — remeteu-se ao passado, ao dia da despedida de sua mãe.
Sem paciência, Egídio cerrou o punho, golpeou a face de Pedro, causou o desequilíbrio das pernas e a queda do corpo.

— Prometi amar um filho, não um demônio!


##
No próximo capítulo:

Cambaleando, apalpando as árvores a fim de equilibrar o próprio corpo e não se render ao chão, Artur surgiu para a alegria daquela que o amava, mas seu sorriso estava forçado, seus olhos se afadigavam por se manterem abertos, ao ver Ana não resistiu ao enfado, sentou-se ofegante sobre as folhas molhadas.

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