[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 51 - "Eu o sentencio a morte!"


Capítulo 51 – “Eu o sentencio à morte!”

Dizem que a vingança é um prato suicida, que se vingar não é uma nobre atitude, que tal gesto iguala a vítima ao seu opressor. Poucos enxergam assim. Até mesmo aqueles que pregam contra a vingança se sentem tentados a retribuir o mal que receberam. A vingança é sedutora. É atrativa. Para muitos é a única opção para que haja justiça.
Artur estava face a face ao inimigo.
Pronto para sua vingança.
A luz do dia, sempre tão potente, sempre invadindo a mais discreta das frestas para fazer notar seu brilho, entrava na caverna pelos buracos que existiam no teto, permitia que seus visitantes observassem cada canto, fitassem-se e tentassem desvendar o que se passava em cada mente.
— Nem preciso dizer que está cometendo uma loucura, você sabe disso, sabe que é um grave erro se levantar contra mim — Sebastião, vestindo um semblante debochado, procurou mexer no íntimo do jovem escravo, despertar nele dúvidas e receios.
— Erro seria vê-lo humilhando uma pessoa tão importante para mim e ficar de braços cruzados, nunca me prestaria à covardia que impera sobre homens como você, dignos de serem mortos! — o tom de voz era cercado por raiva, Artur nunca soube como reagiria quanto tivesse o inimigo nas mãos, sentia medo pelo que era capaz de fazer.
— Uma pessoa importante para você? — amarrado na cadeira, o capanga soltou uma gargalhada —. Se fosse realmente importante não acho que estaria se deleitando com a filha do barão, conhece as regras, sabe o que pode acontecer não apenas a você como àqueles que o encobertam!
— Do que está falando? — talvez fosse apenas uma estratégia, não acreditou imediatamente que o rival conhecesse seu segredo, decidiu não entregar o jogo tão facilmente.
— Artur, você é muito mais do que isso, não se ofereça ao papel de idiota. Eu sei de tudo. Eu os vi juntos! — revelou o que tanto tentaram evitar que fosse descoberto —. Vejo frustração em seus olhos, jovem rapaz, achou mesmo que nunca seriam flagrados?
— De que importa o que você sabe? — o rapaz voltou a controlar as próprias expressões, não poderia se mostrar intimidado ao astuto adversário —. Acha que vai sair daqui?
— Importa que o sofrimento de sua mãe foi causado por sua causa, você me deu essa arma e eu não poderia ignorá-la — falava com perversão, com a malícia de tantos momentos —. Confrontei Adelaide, descobri que ela já sabia e ordenei que passasse a atender aos meus desejos em troca do silêncio que, se extinto, acabaria com a vida miserável que você tem! — seus olhos eram severos, seus lábios se endureciam —. A culpa é sua, Artur, aposto que enquanto padecia nas minhas mãos, Adelaide pensava em você e no que estava sendo capaz de suportar para protegê-lo. Somos iguais. Somos egoístas!
— Cala a boca! — furioso, Artur esbravejou, lançou o chicote em direção à face do algoz, mas a chicotada foi contra a parede, o estalo ardente denunciou a força do escravo, uma força acrescida pelo desejo de vingança —. Acha que pode invadir a minha mente? Acha que pode me fazer culpado pelas suas nojentas ações? — fitava o inimigo em seus olhos, os rostos estavam mais próximos do que nunca —. Se tenho algum pecado é o de amar alguém que não deveria e ser amado por essa mesma pessoa, se cometo algum crime é o de desejar todos os dias por sentir o calor da mulher que me acorrentou, mas você não, você é um ser humano podre, desprezível, que mata inocentes, tortura crianças e humilha mulheres! — afastou-se um pouco, mas não desviou o olhar daquele que começou a entender o tamanho de sua ira —. Seu pecado é o de ser um demônio, seu crime é o de ser um assassino covarde e seu julgamento está em minhas mãos! — tornou a se aproximar, fez a voz soar mais grave que o normal, mais firme que o habitual —. Eu o sentencio à morte!
Foi possível ouvir Sebastião engolir a própria saliva.
Artur não estava brincando de justiceiro.
Queria ser o próprio justiceiro.

¤

Dentro da igreja, onde deveriam estar protegidos de tantos males, protegidos de tantas invejas e soberbas, Ana e Heitor se sentaram num dos bancos, usavam de voz baixa, embora ninguém estivesse no templo precisavam ser cautelosos.
— Então você é o tão falado Heitor? — Ana se sentia contente por ter a chance de conhecer o homem que a mãe verdadeiramente amava, o homem que retribuía aquele amor de uma maneira intensa, garantindo sobrevivência àquela que dependia de seus afetos.
— Sim, sou eu — o comerciante respondeu —. Quanto a você nem preciso perguntar, se soubesse o quanto se parece com Laís quando mais jovem ficaria impressionada — não tinha como evitar, Heitor se lembrou da mulher amada e do quanto sofria por não ter a liberdade da sua companhia.
— Fico também lisonjeada, ela é uma das pessoas que mais admiro, alguém cujos passos sigo. Mas deve saber por que estou aqui, não seria por outro motivo.
— Eu imagino, mas precisa entender, precisa fazê-la entender que acabou, chegamos ao fim e não há nada que possamos fazer — não eram aquelas palavras que gostaria de dizer, mas eram as necessárias se quisesse sobreviver.
— Espera mesmo que eu acredite nisso? — intimou o ouvinte com seu olhar firme, o mesmo olhar que tantas vezes lhe foi dirigido por aquela que não deixava seus desejos, que nunca deixaria o seu caminho, mesmo que só a carregasse dentro do peito —. Dizem que os olhos são as janelas da alma e isso é verdade sua boca diz que acabou, mas sua alma grita para que continue, é o que os seus olhos proclamam quando fala de minha mãe, é o que sei que é verdade — tocou as mãos do homem que a ouvia —. Não minta para você mesmo, não se esconda por medo, a luta pelo amor sempre valerá a pena!
Aquilo era verdade. Embora agindo pela razão, sendo obediente a ordens ameaçadoras, Heitor conhecia as próprias emoções e tinha absoluta certeza de que o que sentia por Laís era imbatível, eterno.
— Medo? — e se aquela moça compreendesse os seus motivos? Por que o acusou de ter medo? Não poderia ser uma fala aleatória, sem fundamento, precisava saber o que ela sabia.
— Meu pai, o barão, é um homem ardiloso, estrategista, possui olhos espalhados por aí, tudo para que mantenha em mãos o obsessivo controle sobre as coisas. Sei que você e minha mãe se encontravam. Sei que não tiveram condições de vencer o amor que os une. Sei também que mau pai o ameaçou — na verdade imaginava, mas precisava convencer, só assim ajudaria aquela que sempre a ajudou.
Resistente, Heitor analisou os próprios pensamentos. Poderia ser perigoso a partir de uma simples compreensão revelar a verdade para si mesmo, assumir outra vez o amor que espremia seu peito na vontade de explodir para o mundo. Poderia ser arriscado, contudo ele se dispôs a correr esse risco.
— Você tem razão, Frederico sabe de tudo e me ameaçou, ou eu me afastava de Laís ou ela morreria — confessou —. Precisei ofendê-la, enquanto ansiava por abraçá-la e tocá-la, tive que magoá-la, ofendê-la com gestos grosseiros, machucá-la de uma forma impensável — olhou Ana como se precisasse que ela acreditasse em suas palavras —. Mas eu a amo. Descobri que não são os perigos dessa vida que farão esse amor diminuir. Posso morrer, mas se partir tendo a certeza de que sou amado por ela, partiria feliz.
— Não imagina o quanto ela tem sofrido nesses dias, talvez não faça ideia da imensidão do que ela sente por você, mas sabe que é tão verdadeiro quanto o que pulsa no seu peito, sabe que é inútil tentar diminuir esse sentimento se levantem as ameaças que foram. Coragem. Todos precisamos de coragem nessas horas difíceis.
— Pode me fazer um favor?
— Claro.

— Escreverei uma carta. Entregue nas mãos de Laís. Diga que rogo o seu perdão!


##
No próximo capítulo:

— Você está sozinho, não percebe? Ninguém aceitaria fazer parte nessa louca conspiração. Deu a sentença, mas quem a aplicará? — sorriu convencido —. Tem certeza de que terá as forças necessárias para tirar a vida de um homem? Para em suas mãos possuir o sangue de um semelhante? Será que dormiria à noite?
— Você não sabe do que eu sou capaz! — Artur resmungou.
— Sim, eu sei sim — Sebastião protestou —. Você se deitou com a filha do barão, seu olhar confirma que a ama, acha mesmo que seria capaz de pegar uma faca e cortar o meu pescoço vendo meus olhos se desesperarem à procura de fôlego e meu sangue jorrar na sua cara?!

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