[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 48 - A Dor do Amor
Capítulo
48 – A Dor do Amor
Enquanto
para uns acreditar no amor é a mais fácil e prazerosa das tarefas, para outros
crer nesse sublime sentimento requer esforços árduos, empenhos trabalhosos,
requer vitória sobre a batalha contra um passado de tantas máculas, dias de
nuvens pesadas e tempestades estrondosas.
Enquanto
uns sorriem a toa por terem o privilégio de amar, outros choram solitários a
dor de não conseguirem se render abertamente ao nobre tesouro que ornamenta as
almas.
Rute,
sozinha em seu casarão, reclusa as quatro paredes do quarto onde tantas vezes
derramou o choro silencioso e se afogou em tantos pessimistas pensamentos, não
levantou o corpo da cama nem tirou de sobre si a coberta que a aquecia do frio
do outono, não tinha o poder, também, de apagar da mente o rosto de Victor,
esquecer a agradável voz do homem que a impressionara com um beijo inesperado,
um beijo prazeroso, o beijo que despertou o medo de amar.
Lágrimas
também corriam pelo rosto do nobre cavalheiro, um sujeito acostumado à solidão,
nunca antes surpreendido pela aparição do amor, pelo toque sutil que não foi
sentido apenas pela sua pele, foi provado pela alma. Nenhuma mulher o encantara
tanto quanto Rute o encantou desde o primeiro encontro, consequentemente nunca
foi rejeitado por querer amar, tal rejeição doía, ardia, como faria para
esquecer alguém que o perturbava até em sonhos?
Ela
ansiava por se livrar de sombras passadas, queria deixar para trás todas as
tristezas que precisou suportar, assolações causadas por um egoísmo disfarçado
de mútua paixão, por interesses carnais incentivados pela nobreza espiritual do
amor verdadeiro, aquele que a alma sente intimamente, que nos faz capazes de
entregarmos nossas próprias vidas por aquele amor. Ela queria se ver livre das
amarras, porém não possuía forças para soltá-las.
Ele
tentava compreender as razões para aquele confuso receio. Não pensou estar indo
longe demais, eram adultos, demonstravam que amizade era pouco, entre eles
havia algo muito maior, que traria novidades às suas vidas. Mas por que a
relutância? Por que a fuga? Seria algo que nele existia? Ou coisas do passado?
Mas que passado seria esse? Por que ao invés de fugir do que ele queria
ofertar, ela não desabafava, contava as ruínas que doíam e tivesse a certeza de
que com ele a história não se repetiria?
Mas
ela precisava de confiança, precisava ter a convicção de que Victor era confiável,
apesar de parecer um homem diferente, ela necessitava que isso fosse provado,
ficasse claro. Mesmo assim, mesmo querendo acreditar no melhor, dava ouvidos à
preocupação que gritava em sua alma, ao desespero de reviver os dias sombrios
que até o presente momento assolavam o seu caminhar, dificultavam a visão sobre
um futuro de luz. Sentia medo. O medo a imobilizava.
Ele
a amava. Sim, durante todos aqueles anos nunca teve a certeza que naquele
momento acelerava seu peito: ele a amava, era amor o que sentia, um amor que
tão bem guardara a fim de depositá-lo em mãos confiáveis. E por amá-la não
estava disposto a simplesmente aceitar o “não” e desistir daquilo que nunca
vivera, ao contrário, vestir-se-ia de paciência, respeitaria o tempo da mulher
que o enfeitiçara sem nem a intenção possuir, conquistá-la-ia para que jamais
precisassem se chamar de vizinhos, mas de amantes eternos, marido e mulher.
¤
Anos antes
Às escondidas, como sempre faziam
se quisessem passar algum tempo juntos, os jovens adolescentes contemplavam a
beleza do mar enquanto desfrutavam da agradável companhia. Estavam calados,
como se condenados ao silêncio, apreciavam a bela obra da natureza enquanto
experimentavam os deleites dos afetos que são sentidos na alma.
Mas a quietude se aplacou.
O silêncio se desfez.
E o amor soou.
— Por você seria capaz de desbravar
esse mar, vencer suas ondas, suportar as tempestades e conquistar um lugar que
fosse apenas nosso, onde seríamos livres para nos amarmos — Heitor, repleto de
sonhos juvenis, fortalecido pela juventude, encarava as águas agitadas enquanto
passeava os dedos sobre os fios castanhos da namorada que, deitada em seu colo,
desfrutava da descomunal paz que apenas ao lado do amado conseguia sentir.
— Tem hora que me pergunto por que
precisa ser assim. Por que não podemos ter o direito de amar? Que pecado há
nisso? E, então, me recordo de que somos cercados por pessoas arrogantes,
sufocadas em tristezas das quais não querem se libertar, antes fazem mais e
mais prisioneiros — sentou-se a fim de melhor visualizar a imensidão do
horizonte, repousou a cabeça sobre o ombro do namorado que, sempre tão
romântico e protetor, passou o braço em torno de Laís —. Fugir seria uma opção
se não fosse impossível...
— Tantas vezes falei para que
fugíssemos, mas sempre nega, sempre se esquiva dessa possibilidade... Por que
prefere se manter nessa prisão?
— Não prefiro me manter nessa
prisão, apenas não quero ser colocada em uma pior... — levou os olhos que
remetiam ao mel à face de Heitor, precisava daquela conversa, precisava
esclarecer que seu amor era tão imenso ao ponto de despertar o medo de perdê-lo
—. Acha que não seríamos descobertos? Nossas famílias se odeiam e meu pai o
despreza, causaria a sua dor e, por fim, me levaria a lugar longínquo, de onde
nunca mais sairia, de modo que nunca mais contemplaria esses olhos que me
enchem de esperança — tocou a face que recebia a luz do sol, como o achava
belo, como se sentia sortuda por ter ao seu lado um sujeito tão elegante —.
Acha que sou capaz de ficar longe de você?
— Nem eu suportaria essa separação,
minha vida acabaria, deixaria de ter sentido, de ter razão... — cobriu a mão
que tocava seu rosto, encarou o semblante suave que nunca se cansava de
admirar, agradecia aos céus por ter sido presenteado com o mais belo dos anjos
—. Não sou capaz de viver sem esse amor que pelo que depender da minha vontade
será eterno... — beijou-a enquanto as gaivotas contavam contentes, enquanto as
ondas dançavam animadas e o sol regozijava por resplandecer a sua luz.
Naquele
tempo acreditar parecia simples, cultivar fé parecia suficiente, mas o tempo se
passou, os dias avançaram, os anos correram e o que restou ao coração de Laís
foi incerteza e questionamento. Não conseguia entender a forma rude com a qual
Heitor a tratara, não parecia o homem que aguardava ansioso pelas suas visitas,
muito menos o adolescente que um dia prometeu amor eterno. Seria aquele amor
ilusão? Estaria desgastado? Cansado da longa espera? Mas o que ela poderia
fazer? Estava aprisionada a uma dura sentença.
Mas
não. O amor não havia acabado, muito menos diminuído, ao contrário, a cada dia
ficava maior e mais irresistível, a cada dia se tornava perigoso, parecia
prestes a vencer os limites. Heitor sofreu pela maneira como precisou receber a
mulher acostumada com seu carinho, com a doçura de suas palavras, mas precisava
padecer aquela dor exatamente por amá-la e querer que continuasse viva.
Após o romântico beijo que
intensificou o sossego em suas almas, o casal apaixonado encarou-se sorridente,
mas a face de Laís cedeu lugar à preocupação, sua boca professou o medo.
— Sinto temor pelo que pode
acontecer se formos descobertos... Ao mesmo tempo que considero ser mais
prudente que sigamos caminhos diferentes, vejo que eles não existem, nossos
caminhos sempre serão os mesmos...
— Contra isso não há o que possamos
fazer... — Heitor colheu as delicadas mãos e fitou os olhos da amada —. Mas eu
prometo, meu amor, prometo que não permitirei que nenhum mal a alcance...
Heitor
sabia que prometera um amor eterno, mas também sabia da promessa de proteção
que firmara. E por amor a última promessa era mais importante, era a que
sustentaria a primeira mesmo que aquilo parecesse o contrário.
Ele
a amava. Por isso a protegeria.
Fosse
como fosse.
##
No próximo capítulo:
Sim, ela sempre soube que nos
dias gelados não existia nada melhor do que buscar calor naquele que se ama,
ela sentia a falta do esposo, do homem que a escravidão tirou de seu presente,
levou-o embora de sua presença, mas não pôde forjá-lo de sua mente, arrancá-lo
de seu coração. Todos os dias sentia a sua falta, não precisava esperar pelo
vazio do inverno, em todos os momentos se recordava do quanto era feliz estando
ao seu lado.
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