[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 55 - Certezas


Capítulo 55 – Certezas

Há dias sem receber o menor sinal de Sebastião, muito confuso com o inesperado e desavisado sumiço de seu mais confiável serviçal, Frederico exigiu que Bruno fosse colocado em sua presença, pressionaria o jovem rapaz a fim de encontrar pistas.
— Confiei a ele o seu recrutamento, foi quem lhe ensinou as regras e o que deveria fazer, não acha suspeito que ele tenha desaparecido sem que ninguém esperasse? — o barão indagou.
— É verdade, passamos alguns dias juntos, mas ele nunca deixou transparecer que tiraria alguma folga, que pensava em se ausentar por tanto tempo. Sei tanto quanto o senhor... — cauteloso nas palavras, temendo que suas hipóteses fossem confirmadas e aquela conversa não passasse de um teste para que falasse mais do que devia, Bruno procurou esconder a ansiedade incômoda que sentia encarando o severo olhar de um homem que não respeitava os limites quando irado, quando descobria traições.
— Já interroguei aqueles vagabundos inúteis, ninguém deu uma resposta aceitável, todos negam saber qual é seu paradeiro — Frederico lançou as costas sobre o encosto da poltrona, não desviou a atenção do soldado —. Não quero pensar nisso, não sei o que seria capaz de fazer, mas você não acha que eles podem tê-lo matado?
— Seria uma atitude inconsequente, eles não seriam capazes de tal afronta — o rapaz respondeu com firmeza, queria convencer seu interrogador —. Talvez Sebastião estivesse entediado pelo trabalho e, com vergonha de chegar até o senhor com alguma reclamação, resolveu partir.
— É pouco provável, sempre teve liberdade para conversar comigo, ele sabe... Mas tudo bem, já que você não pode me ajudar muito nesse problema tenho certeza de que poderá ajuda em outro — colocou na cabeça o chapéu que repousava sobre a mesa —. Ocupe o lugar vago — levantou-se estendendo a chibata ao moço —. Fiscalize os escravos, veja se estão cumprindo com suas obrigações e, se necessário for, desperte qualquer preguiçoso com chicotada no lombo. Se alguém confrontá-lo não hesite em amarrar no tronco!
O barão ficou com a mão estendida.
Bruno encarava como se não soubesse qual reação demonstrar.
— Eu sei que pode parecer assustador a ideia de ocupar o espaço de um homem que impunha respeito e temor, eu sei que para alguém como você, tão novo e inexperiente, pode ser assombroso a ideia de precisar levantar o braço contra algum motim — pegou a mão do rapaz, colocou nela o chicote que a tantos fez gritar —. Mas você dará conta. Eu confio na sua lealdade — indicou à porta mostrando que o diálogo se encerrava, ele também precisava sair, tinha negócios a resolver na cidade.
Incrédulo quanto ao que escutara, quanto à ordem que lhe deram, Bruno seguiu seu destino semeando nobre convicção: facilitaria os dias dos escravos o quanto conseguisse, tinha a chance de levar dignidade a quem merecia.

¤

Aproveitando que o pai saíra e demoraria a voltar, sabendo que Sebastião já não poderia importuná-la, Ana pediu que mandassem um recado ao amado, queria vê-lo, precisava compartilhar uma ideia que nascera em seus intentos, um plano de casamento e fuga.
Ainda com certa distância, a poucos metros daquela que lhe arrancara suspiros, Artur se recostou sobre uma avolumada árvore, ficou observando a amada balançar as pernas sobre as águas que fluíam, confessou o quanto era atraído por sua beleza, reafirmou o quanto a achava linda e o quanto a tinha por especial. Precisou abrir um sorriso quando os olhos da moça se viraram para ele.
— Há quanto tempo está aí?
— O suficiente para ter certezas ainda maiores — com as mãos para trás, caminhou a passos serenos em direção àquela que estimava até mais do que a própria vida —. Às vezes nos perguntamos sobre tantas coisas, se o que fazemos é mesmo o certo e, então, nos momentos de silêncio, quando podemos ficar a sós com os nossos pensamentos, chegamos à conclusão de que sim, o que fazemos é o certo — perto o bastante para sentir o doce perfume da namorada, Artur revelou as mãos que estavam escondidas, entre os dedos segurava uma linda e formosa rosa, seu presente para um alguém excepcional —. Você é a coisa mais certa que posso querer!
— Assim ficarei a cada dia mais mimada... — sorridente, encantada pelas belas palavras do deleitoso amante, Ana se levantou, ao pegar a rosa lhe ofertada tocou os dedos do amado, de quem nunca se cansava de declarar amar, de quem nunca se cansaria de prometer amor. Sentiu o aroma da flor, o cheiro do amor —. Você também é a minha única certeza — tocou o rosto que desde a adolescência passara a tocar com um carinho diferente, que passara a encarar com sentimentos diferentes, que passara a fazer parte de sonhos cada vez mais românticos —. Não sei como será o futuro, não posso saber qual será o meu último dia nesse mundo, não tenho nenhuma outra certeza se não a de que o amo indefectivelmente, de que apenas você traz sentido ao meu caminhar. Posso chorar, passar por dores, mas se estiver ao meu lado em cada um desses momentos jamais deixarei de sorrir e acreditar que as tempestades passarão...
— E eu prometo que ao seu lado sempre estarei...
Rodeados pelo vento gelado que anunciava a aproximação do inverno, o casal apaixonado se beijou perante o rio que uma vez mais testemunhava juras de amor, assistia ao que de melhor existia entre dois seres humanos dispostos a derramarem sangue em nome do que sentiam.
Sentados na beira do rio, com os pés dançando ao gosto das águas mais frias que o habitual e recostados um no outro, os amantes entrelaçaram os dedos, apreciavam a companhia que tinham naquele dia tão belo e especial.
— Preciso falar uma coisa — Ana afastou o silêncio.
— Estou aqui.
— Lembro-me que me contou que estão ensaiando a luta como se fossem passos de dança, acha que já estão bem?
— Com alguns dias a mais de treino todos estarão preparados.
— Isso é muito bom. Vou pedir ao meu pai que deixe acontecer um baile de máscaras na fazenda, seria o meu último desejo como mulher solteira e ele não se recusaria a isso. Nesse dia seu povo poderá fugir, a distração será grande, teremos uma grande chance.
— Você viria comigo?
— Se tudo der certo, sim — encarou os olhos surpresos, tinha mais a dizer, o plano não acabava ali —. Seu desejo é que a sociedade nos veja juntos, não é? Se não podemos fazer isso com o rosto limpo, ao menos poderemos se ninguém souber que somos nós. Aceitaria dançar comigo?
— Dançar? — a ideia parecia inviável, constrangia o jovem rapaz.
— Eu estarei com você — a moça prometeu.
— Como poderia negar?
— Será o mais talentoso dos parceiros! — assegurou —. Mas antes do baile, sem que ninguém saiba ou possa nos impedir, tenho outro plano, esse é infalível, meu pai perderá qualquer poder sobre essa questão, não pode ir contra Deus.
— O que quer dizer?
— Eu conheço as suas crenças e as respeito da mesma forma que respeita a mim, mas o meu pai não, ele despreza a sua religiosidade, mas não se oporia ao que a grande parte da sociedade diz praticar e determinou que se praticasse eternamente. O padre Miguel pode nos casar, ficaremos unidos para sempre, ninguém poderá nos separar! — disse com entusiasmo, com satisfação, acreditando no plano que criara.
Artur, desde cedo tão apaixonado, desde cedo rendido aos encantos de Ana, foi também desde cedo que sonhou com o futuro, quando se casaria com a amada, quando ao lado dela formaria uma família e viveria a realização de um sonho. Não soube o que pensar naquele momento, qual longo discurso professar.
— Estou sendo pedido em casamento? — perguntou surpreso.
— Acho que sim — Ana respondeu divertida.
Ao invés de dar a resposta, Artur se ajoelhou sobre o pó da terra, colheu a mão delicada cujo toque garantia sossego, encarou as íris douradas, íris que disputavam brilho contra o sol.
— Desde muito cedo a certeza pulsou aqui dentro, desde muito cedo percebi que não queria apenas a sua amizade, meu desejo ia além disso, eu queria o seu amor. E fui atendido. Tenho o seu amor, o seu apreço, recebo afetos que nenhuma outra pessoa no mundo poderia doar, afetos que apenas você com sua graciosidade pode conceder. Quero para sempre ser agraciado por esses afetos. Quero acordar de manhã e continuar com a certeza de que tenho nos braços o amor da minha vida. Quero que seja a minha esposa. Você me aceita?

Emocionada, Ana levantou o nobre cavalheiro, com os olhos marejados e os lábios desenhando largo sorriso. encarou-o com ternura, com afinco, com todo o romantismo que viviam. Sua resposta não veio através das palavras. Foi dada pelo beijo de paixão, beijo que neutralizou a frieza do vento e garantiu calor aos corações.


##
No próximo capítulo:

— Realmente — sacando o próprio armamento, Frederico mirou contra aquele que o humilhara segunda vez —, nunca mais nos veremos! — disparou torcendo para que atingisse o coração do sujeito lendário.
Victor e Sara ouviram o disparo.
O Protetor sentiu a dor.

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