[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 56 - Propriedade


Capítulo 56 – Propriedade

A praça estava rodeada de gente, todos impressionados, grandemente admirados pelo talentoso músico que se apresentava aos olhos de uma sociedade cheia de conceitos intolerantes, mas que precisou se curvar aos encantos de Felipe quando posicionou o violino sobre o ombro e do atrito entre o arco e as cordas produziu uma música capaz de amolecer corações e tocar as almas.
O jovem adolescente, usando as mesmas vestimentas de quando se apresentou no tão aguardado sarau, mantinha o simpático sorriso no rosto enquanto sentia a apreciação do grupo à sua volta. O chapéu repousado ao seu lado se enchia de moedas. Começava a ganhar o próprio dinheiro a partir do direito lhe concedido: a liberdade de exercer o que amava.
Frederico, estando a negócios na cidade, atraiu-se pela aglomeração presente na praça, acompanhado de seus homens aproximou-se das pessoas, estava curioso quanto ao que poderia ser tão prazeroso de assistir, espantou-se ao flagrar o garoto que semanas atrás cobiçara, tentara levar para casa, mas fora inesperadamente contrariado.
Olhou com atenção, percebeu que o dono do aparente escravo não se fazia presente, era a oportunidade perfeita para levá-lo à força, alegaria que estava abandonado, sem proprietário, esperando para ser carregado.
Avançou entre o grupo.
Colocou-se diante o violinista.
Foi responsável pela interrupção da música.
— Onde está o seu senhor? — o barão interrogou.
O passado sempre nos atormentará quando seus vestígios respingarem sobre o nosso presente. Queria ter esquecido aquela voz, esquecido aquele rosto, queria ter esquecido a própria história, mas não, sendo encarado pelos intimidadores olhos de Frederico teve a certeza de que as dores dos anos passados jamais cicatrizariam.
Não respondeu.
Apenas olhava o barão implorando para que não fosse reconhecido.
— Eu fiz uma pergunta — insatisfeito, Frederico insistiu na indagação —. Onde está o seu senhor?
Sara, acompanhando o bom amigo na apresentação que fazia, saiu do aglomerado de espectadores que, antes apreciando o músico, agora aguardavam pelo quê o poderoso homem faria. Foi atrás de Victor. Sabia onde encontrá-lo.
Conhecedor sobre como o barão reagia quando era confrontado pelo silêncio, Felipe olhou ao redor sentindo as pernas fraquejarem, sentindo o coração palpitar, tendo o corpo dominado pelo assombro que o sujeito à sua frente era capaz de proporcionar.
— Por aqui — respondeu por fim.
— Por aqui? — Frederico repetiu em tom irritado —. Por aqui não existe, imprestável — subiu no palanque improvisado, aproximou-se do adolescente tendo consigo a companhia das aflições que representava —. Se por aqui não existe então ele não está em nenhum lugar — pegou Felipe pelo braço —. E se ele não está em nenhum lugar acabo de ganhar um negrinho! — forçou-o a andar.
— O que está fazendo? — afobado, apreensivo pelo que fora avisado e estar acontecendo, Victor surgiu no meio das pessoas que a tudo assistiam, seus olhos encontraram os daquele que considerava subversivo —. Esse escravo é meu! Não pode colocar a mão no que não pertence a você! — enfrentou.
— Ele é seu? — Frederico ironizou —. Não é mais! Deveria cuidar melhor das coisas que possui.
— Você não pode fazer isso, seria um roubo! — Sara, temendo que o querido companheiro fosse levado de volta à realidade de tormenta, colocou-se perante a figura perversa, acusou-a de se comportar como um bandido.
— Como é que é? — à fala nervosa, os homens do barão cercaram a garota destemida, um deles a segurou, não deixaria que escapasse —. Sabe o que faço com rebeldes, não sabe? — não era exatamente uma simples pergunta, era a ameaça do que poderia fazer.
— Deixe-a em paz! — usando de valentia, Felipe ergueu a voz e se soltou do homem que incontestavelmente odiava. Afastou-se dele.
— Minha autoridade está sendo contestada? — incrédulo à maneira como era tratado, Frederico encarava seus opositores, precisava se mostrar forte ou perderiam o temor sobre o seu nome.
— Sua autoridade não diz respeito aos meus negócios — Victor, tendo às suas costas o adolescente que protegia, encarou o sujeito detentor de invejáveis riquezas, preocupava-se agora em recuperar Sara —. Não pode aparecer quando bem entender e colocar as mãos em propriedade alheia, a menos que queira se igualar aos criminosos que tanto diz repudiar — provocou.
— Eu sou o barão!
— Disse bem, não é o imperador!
E mais uma vez, diante do mesmo homem, Frederico sofria uma assistida derrota. Mas não sairia sem antes demonstrar o medo que provocava.
— Vamos embora e levem a menina — ordenou aos capangas —. Não admito rebeldes como essa daí, terá a punição que merece — antes que pudesse ser contrariado, dirigiu-se ao Protetor —. Só a libertarei se os pais forem me procurar, não adianta espernear, ela não é sua propriedade! — partiu.
Aquele homem era impiedoso em seus castigos.
Felipe bem sabia.
— Victor? — levou os olhos assustados àquele que o acolhera.
— Vá para casa! Espere por notícias. Eu a trarei de volta!

Antes mesmo que Sara fosse colocada na carruagem do sujeito sem escrúpulos, Victor saiu em disparada, enfiou-se na mata que cercava a cidade, ao som de seu assobio o cavalo preto apareceu, com sorte abordaria o barão ainda na estrada.

Injustamente dominada por homens soberbos, a garota procurava acalmar os próprios pensamentos e acreditar que tudo ficaria bem, mas o pavor não tardou em afastar seu otimismo, o receio falou mais alto, mesmo que Rute se apresentasse como sua ama já teria sofrido os horrores que o perverso ser humano, se é que assim poderia ser chamado, concedia aos opositores. Não ousou pronunciar nenhuma palavra. Manteve-se em silêncio enquanto a carruagem levantava poeira.

Estrategicamente escondido, atrás de uma respeitável árvore, deixando seu companheiro de luta distante da visão do algoz, o Protetor esperou paciente que a carruagem se aproximasse, espreitou-a cauteloso, quando diante os seus olhos o veículo passou, pediu perdão aos céus e jogou o robusto galho contra a roda que, tão logo sofreu o impacto, desparafusou-se e não pôde evitar o tombo da carroceria.
Susto.
Espanto.
Perante os olhos furiosos estava o tormento dos fazendeiros, o amigo dos injustiçados.
— Mas não é possível! — erguendo-se do pó da terra, sentindo o corpo doer por ter amortecido a queda do capanga que caiu sobre si, Frederico encarou o mascarado, mas precisou se desviar da arrogância, uma arma era apontada contra sua cabeça.
— Deixe a garota em paz! — aquele que por muitos era considerado um herói deu o ultimato, usou de frieza na voz, não estava disposto a perder tempo com relutâncias, pelo menos era o que aparentava.
Levando os olhos à adolescente assustada, o barão gesticulou para que fosse. Mais do que depressa, Sara se colocou ao lado do Protetor.
Mas a obediência não diminuiu o desejo de Victor em matar o homem desprezível.
Disparou.
Frederico suspirou ao perceber que o coração continuava batendo.
— Se cruzar o meu caminho outra vez não haverá mais uma chance! — o Protetor prometeu —. Estamos entendidos?! — vociferou.
Vestido por uma humildade que assustou os dois capangas que o acompanhavam, o barão assentiu.
— Ótimo — assobiou —. Quero crer que nunca mais nos veremos — subiu no animal depois de ajeitar Sara, deu às costas ao inimigo.
— Realmente — sacando o próprio armamento, Frederico mirou contra aquele que o humilhara segunda vez —, nunca mais nos veremos! — disparou torcendo para que atingisse o coração do sujeito lendário.
Victor e Sara ouviram o disparo.
O Protetor sentiu a dor.


                                                   Continua...

##
No próximo capítulo:

Ao receber a notícia, Rute não tardou em se colocar a caminho, esqueceu-se de tudo o que acontecera, ignorou os muitos pensamentos que a mantiveram afastada daquele a quem queria se entregar. Lamentou-se pela demora de tal valentia, imaginou que pudesse perder outra vez a chance de ser feliz vivendo um amor, arrependeu-se por alimentar tantas inseguranças.

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