[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 64 - Amor Sofredor
Capítulo 64 – Amor Sofredor
O mal sempre existiu, sempre oprimiu, sempre causou
angústias e dores, sempre dominou o coração daqueles que, cegados por imensas
ignorâncias, usaram-se de prepotência e arrogância no trato com outras pessoas.
O mal é um vírus, uma doença, uma moléstia que degrada o sentimento humano e
faz de seres racionais os mais inconsequentes possíveis.
Em contraste, como tudo tem o seu lado oposto, o bem
sempre existiu para aliviar, para confortar, para libertar aqueles que são
feitos vítimas de uma maldade insana. O bem é um poderoso antídoto, aqueles que
o praticam não temem a dor, não sentem medo do choro, convencem-se de que a
mais árdua batalha é compensada se o seu resultado for o sorriso do outro, for
a salvação daqueles que tanto necessitam.
Apesar de estar rodeada por pensamentos perversos,
Ana não se contaminou pelos discursos desumanos, não permitiu que sua essência
se corrompesse e permaneceu na prática do bem, mais que isso, deu direitos ao
próprio coração e se rendeu a um amor que, sabia, era proibido e perigoso, mas
a bondade que reinava sobre o seu ser dissipou quaisquer temores, em nome do
bem cultivaria esperanças, semearia fé.
Esperou o anoitecer.
Quando no casarão todos adormeciam, a moça
apaixonada se revestiu de coragem e ousadia, andou pelos corredores com cuidado
para que seus passos não fossem percebidos, sentiu o impacto do frio ao pisar
na varanda, era uma madrugada gelada e deserta, o inverno enfim chegara.
— O que está fazendo? — antes que pudesse prosseguir
em seus passos rumo à senzala, Ana sentiu o frio percorrer sua espinha ao soar
da voz masculina, mas o susto passou, cedeu lugar ao alívio, era Bruno quem
surgira de repente.
— Não consigo me contentar em apenas receber
notícias, preciso eu mesmo ver como Artur está, preciso falar com ele, só assim
conseguirei paz... — falava baixo em tom de súplica, sua alma ardia em
preocupação, seus pensamentos ferviam ansiosos, havia combinado com o soldado
para que ele trouxesse informações, mas para seu coração apaixonado não era o
bastante, não o aliviava.
— O que posso dizer se não que compreendo as suas
angústias? — o rapaz sorriu compreensivo, sabia o que era sofrer por
simplesmente amar —. Vamos, sejamos rápidos, em noites como essas os capangas
de seu pai se esquivam do trabalho, mas nunca temos certeza...
Unidos, os jovens se dirigiram ao local onde os
escravos repousavam seus corpos, em poucas horas precisariam vencer a dor do
frio e voltar à exploração impiedosa.
Iluminando o ambiente com o lampião que levara
consigo, a filha do barão de São Pedro caminhou por entre os negros que adormeciam
profundamente, em seus rostos estava explícita a canseira que os consumia, a
exaustão que aos poucos os matava.
Seu coração pulsou mais forte ao encontrar dentre a
multidão a razão dos pensamentos amorosos que subiam à sua mente, o motivo das preocupações
que apertavam seu peito, aquele que dava significado para o seu existir.
Agachou-se perante o nobre rapaz, abriu os cobertores que levara e cobriu o
amado, beijou sua face derramando lágrimas de sofrimento, sofria por não ter o
poder de alterar a cruel realidade.
— Ana... — a voz do jovem escravo soou sonolenta,
porém mais firme de quando mais cedo, o suficiente para causar um pouco de
alívio àquela que em muito o estimava.
— Como você está? — a moça sussurrava, se dependesse
de sua discrição ninguém perceberia sua presença a não ser aquele que a atraiu
para ali.
— Trouxeram o médico como seu pai ordenou, ele me
medicou e já me sinto bem melhor, não precisava se incomodar com esse frio e
vir até aqui, garanto que ficará tudo bem e tornaremos aos nossos encontros
matinais... — lançou o singelo sorriso que, sempre que exposto, encantava sua
incansável admiradora.
— Não sei se ainda nos veremos pelas manhãs, você
nunca ficou assim antes, esses dias de trabalho pesado estão enfraquecendo o
seu corpo, não quero que o pior aconteça... — expôs o desassossego, o incômodo
que a perseguia.
— De que adiantará não nos vermos mais se
continuarei acordando antes do sol nascer faça frio ou calor? Não quero que
tenha essas preocupações, eu estou bem, asseguro que sou forte, isso foi apenas
uma falta de sorte — envolveu as mãos delicadas, trouxe-as para seu peito a fim
de aquecê-las, a fim de confortar uma alma inquieta —. Enquanto puder contar
com o seu amor não perderei minhas forças, estarei em pé, pronto para qualquer
luta!
— Não é tão simples quanto tenta transparecer, não imagina
o quanto sofro por cogitar o que a qualquer momento pode acontecer. Eu te amo,
Artur, e por isso é detestável vê-lo sofrer, sentir dor, passar por
desconfortos desumanos causados por mentes perversas... — tocou o semblante do
namorado, levou os dedos aos cachos agradáveis de tocar, não conseguiu esconder
o filete de lágrima que correu em seu rosto e reluziu pela luz do lampião —.
Sofro por amá-lo, é verdade, mas é um sofrimento justo, válido, sei que um dia
serei compensada pelas noites que fico sem dormir pensando no que fazer para
aplacar o tormento daquele que amo e daqueles que passam pelo mesmo martírio...
— O seu sofrimento é também o meu, mas não quero que
se condene dessa forma, que se machuque pelas consequências de ações que não
vieram de seus intentos, sei o quão belo é o seu coração, quais desejos o regem
e sei que um dia terá a chance de sarar as feridas daqueles que padecem... —
limpou a fina lágrima que caía do rosto suave ao toque, trouxe a amada para
mais perto, beijou-a como se anunciasse que tudo ficaria bem, que nada poderia
sacrificar aquele nobre amor que os envolvia, que os aquecia, que os fortalecia
—. Continue sendo minha inspiração, preciso apenas disso, que continua me
concedendo forças amando a mim e aos meus...
Ana assentiu. Não era missão impossível, continuaria
amando até o fim dos seus dias, até o último suspiro que, almejava ela,
demoraria muitos anos a acontecer.
¤
Pensei que
estava condenado à infelicidade, a uma vida que nunca cogitei, a uma realidade
que jamais seria minha e agi com desespero, querendo me livrar de egoísmos,
optei pela covardia, por algum momento considerei mais fácil me conformar e dar
as costas para a única coisa que me faria feliz, para a única pessoa que de
fato poderia amar.
Mas eu espero
que ela possa me perdoar...
Agora, recebendo
a compreensão daqueles que nunca pensei que pudessem me compreender, aliado a
quem nunca acreditei que lutaria do meu lado nessa guerra, entendo o quanto fui
mesquinho ao me esconder atrás de temores que poderia vencer, que por um
instante julguei intransponíveis, mas que agora percebo como vencíveis.
Desesperei-me e
por isso suplico o perdão da pessoa que magoei, que não valorizei, da qual
simplesmente me afastei, não porque o sentimento esfriou, isso é impossível, mas
por amá-la imensamente e por isso desejar vê-la feliz, mesmo que custasse a
minha infelicidade. Considerei-me um atraso, considerei-me um obstáculo àquela
que merece a liberdade, ser livre daquele sujeito inseguro que um dia fui.
Mas agora, cheio
de valentia e coragem, almejando ser feliz ao meu modo e não como os outros
ditam e determinam, rogo para que a pessoa que mais amo nesse mundo possa me
aceitar outra vez, que me dê uma nova chance para usufruir do prazer do viver,
um prazer que apenas ela pode me conceder”.
Sorrindo levemente, o autor dobrou o papel,
guardou-o no envelope, em poucos dias depositaria suas sinceras palavras nas
mãos que detinham algo muito maior do que elas, o seu coração.
##
No próximo capítulo:
— Às vezes não
entendemos as circunstâncias que se apresentam no nosso caminho, mas o futuro
chega e com ele as respostas para antigas perguntas — com os dedos
entrelaçados, tocando suavemente uns aos outros, Victor dissipou o silêncio,
deu notoriedade à reflexão que fazia —. Se não fosse a tragédia com minha
família talvez hoje não estivéssemos aqui, sempre acreditei que as dores um dia
são aliviadas, só não sabia que o remédio era tão bom.
De segunda a sexta, aqui no blog!
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