[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 49 - O Fim de uma Perversão


Capítulo 49 – O Fim de uma Perversão

Os perversos, enquanto não são descobertos, usam do poder de despertar o medo para assolar suas vítimas, intimidá-las, colocá-las em posição de extrema imobilidade, vulneráveis a seus atos nojentos e impiedosos. Os perversos, enquanto não são descobertos, empanturram-se com a arrogância que os governa, consideram-se como invencíveis, como fortes o bastante para instaurar o terror.
Toda essa grandeza só existe enquanto não são descobertos.
Mas chega o momento das cortinas se rasgarem, dos panos voarem e a verdade resplandecer, é quanto são cobrados pela petulância de seus gestos, é quanto são surpreendidos por uma certeza: há outros mais fortes, mais valentes e mais nobres do que eles.

Algumas horas depois do almoço, entediado pela falta de distração, cansado de apenas supervisionar os escravos trabalhando tendo em mãos o chicote para despertar a quem chamava de preguiçoso, Sebastião flagrou Adelaide colhendo frutas, cumprindo com sua obrigação. Não hesitou em se aproximar. Montado no cavalo que aos berros comandava, o capanga de Frederico se colocou ao lado da mulher.
— Dizem que em dias mais fri0s não há nada melhor do que aquecer nossos corpos com o calor humano... — mordiscando o capim entre os dentes, soou sua voz —. Aposto que sinta saudades de Joaquim quando o inverno se aproxima...
Sim, ela sempre soube que nos dias gelados não existia nada melhor do que buscar calor naquele que se ama, ela sentia a falta do esposo, do homem que a escravidão tirou de seu presente, levou-o embora de sua presença, mas não pôde forjá-lo de sua mente, arrancá-lo de seu coração. Todos os dias sentia a sua falta, não precisava esperar pelo vazio do inverno, em todos os momentos se recordava do quanto era feliz estando ao seu lado.
Mas não respondeu à ironia do mau sujeito.
Prosseguiu na colheita.
— Está um frio danado, não acha? — insistindo no diálogo que não chegaria a lugar algum, Sebastião olhava ao redor, certificava-se de que naquele pomar só estavam ele e sua vítima —. Tenho certeza de que precisa de alguém para aquecê-la! — pulou do cavalo, achegou-se à escrava exalando o cheiro que em muito a desagradava —. O que foi? — questionou o recuo de Adelaide quanto tentou tocá-la —. Algum problema? — cuspiu o capim todo mordido.
— Não quero que me importune, preciso terminar o meu trabalho! — foi firme perante o algoz, estava farta de seus humilhantes ataques.
— Prometo que não vou demorar, só depende de você.
Sebastião, como em tantas vezes, tentou agarrar a mulher desprotegida, sempre sozinha, sem a quem pudesse suplicar ajuda. Mas daquela vez Adelaide correu, fugiu, não queria experimentar a dor que diariamente lhe era ofertada. Entretanto o violento homem não se deu por satisfeito, perseguiu a pobre escrava, pôde alcançá-la quanto esta tropeçou e ficou agarrada ao chão.
— Até quando precisarei lembrá-la do nosso acordo? — subindo sobre Adelaide, Sebastião tentava imobilizar seus gestos desesperados, movimentos que ansiavam pela fuga —. Ou será que adoraria ver seu filho morto?!
— Você é um monstro! — a mulher chorava, não aguentava mais tão sórdido desprazer.
— Calada! — conseguiu privar a escrava de se mexer, encostou em seu pescoço a barba incômoda, levou os lábios impuros aos ouvidos daquela que, ainda que muda, implorava por misericórdia em seus intentos —. Precisa aprender que se relutar será pior! — abaixou a saia sem qualquer pudor, como se em suas mãos estivesse um mísero objeto —. Já deveria ter entendido!
Mas daquela vez o perverso foi interrompido em sua covardia.
Artur, que a sós passava pelo lugar, sentiu o coração arder quando viu a mãe correr desesperada e às suas costas um desgraçado ordinário tentar alcança-la, sentiu o sangue ferver nas veias ao ver aquela que amava em posição de desprestígio, completamente entregue à malícia de um monstro.
Avançou contra o capanga.
Afastou-o de Adelaide agarrando-o pelo pescoço.
Lançou o inimigo ao chão.
Descontrolado, irado pelo que presenciava, pela horrenda visão que passaria diante os seus olhos por muitos dias, Artur cerrou o punho, agredia a face do opressor, tinha as mãos sujas de sangue, vigava-se por todas as vontades que se lembrava, por algum momento desejou matá-lo, mandá-lo ao inferno, se não fosse pela mãe suplicar por sobriedade era o que teria feito.
Atordoado, o jovem escravo se levantou, aos seus pés o inimigo agonizava, de seu corpo escorria o suor da raiva, era consumido pelo calor da fúria. Seus olhos marejados estavam dispersos, denunciavam o turbilhão que assolava sua mente. Adelaide precisou pousar as duas mãos sobre o rosto do filho fazendo com que os olhares se cruzassem.
— Artur, precisa se acalmar! — não foi um pedido sutil, foi uma ordem desesperada —. O que faria se eu não o impedisse? Mataria um homem? Transformar-se-ia num assassino? Ficaria igual a esses desalmados que dia e noite nos sufocam? Você é mais do que isso, você é muito mais do que toda essa perversão!
— Mãe... — as lágrimas rolaram sobre a face do rapaz que, feito um menino apavorado, abraçou a mulher que o trouxera ao mundo, a mulher que sempre esteve à sua dianteira lutando pelo seu bem —. O que ele ia fazer? — chorava sobre o ombro da mãe —. Não tem perdão para algo tão degradante! Não há justificativa! — estava inconformado, irado.
— Mas não pode matá-lo... — falou com calma —. Não pode sujar suas mãos com qualquer porcaria!
— Mas também não vou agir com piedade — afastou-se da mulher que incondicionalmente o amava, que lhe dirigiu o semblante assustado —. Isso não ficará impune! — lançou Sebastião ao lombo do cavalo —. Ele terá o que merece! — ignorando os pedidos de Adelaide, Artur prosseguiu em seus passos, pouco se importou se o veriam, se seria flagrado, queria apenas uma coisa: usar as próprias mãos na prática da justiça.

Ao longo da mata que Artur tão bem conhecia existia uma caverna, lugar sombrio, abandonado, esquecido por muitos e desconhecido por tantos, o lugar perfeito para fazer prisioneiros, desprezá-los à própria sorte, deixá-los apenas com a própria companhia para que pudessem refletir sobre suas ações.
Foi onde o rapaz trancafiou Sebastião.
Sem qualquer receio, sem imaginar as consequências que poderiam se levantar caso o cativo conseguisse escapar, o jovem escravo amarrou o capanga inconsciente sobre a cadeira, imobilizou seus pés e suas mãos, circundou sua cintura com a corda bem amarrada, fez o possível para que até o movimento da respiração enfrentasse limitações.
Certificou-se de que não havia meios para o sujeito que odiava escapar.
Verificou a resistência da tranca que fechava o portão metálico e impedia que alguém entrasse ou saísse da caverna.
Retornou à fazenda como se nada estivesse ocorrendo, sem nem à mãe declarar o que havia feito.

— Posso mesmo confiar em sua amizade? — abordou o soldado Bruno, usou de discrição.
— Mas é claro. Nessa guerra estamos do mesmo lado — não imaginava em qual ponto aquela guerra entrava.

— Sebastião ficará sumido por alguns dias, invente desculpas a quem perguntar, despiste todas as desconfianças que se levantarem. Trancafiei aquele ordinário em uma caverna no meio do mato, ele está vivo, mas tão logo acorde desejará profundamente para ter sido morto! — nunca aceitaria que ofertassem o mal a quem amava, muito menos à própria mãe.


##
No próximo capítulo:

Sem que ninguém o visse ou perseguisse, Artur se enfiou na mata, avançou por entre as árvores tomando o cuidado necessário para que não ser surpreendido por animais peçonhentos. Chegou à caverna, encontrou seu prisioneiro acordado, completamente vulnerável.
— É mesmo muita sorte que tenha sobrevivido — tirou da cintura de Sebastião o chicote que a muitos açoitara —. Só não sei se ela é sua ou toda minha! — chicoteou a parede, seus olhos ferviam de raiva.

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