[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 65 - Amando outra vez...


Capítulo 65 – Amando outra vez...

As surpresas da vida acontecem quando menos esperamos, quando nada planejamos, até mesmo quando de tudo já desistimos, afinal, se assim não fosse, não haveria sentido chamar de surpresa o que é esperado. Fato é que as boas surpresas trazem consigo o sol, a crença no futuro, a esperança de que dias melhores estão prestes a chegar.
Feliz é aquele que sabe apreciar as surpresas da vida.
Felizes eram Victor e Rute que, a partir de pontos críticos em suas histórias foram predestinados ao melhor encontro de suas vidas e sabiam desfrutar da agradável surpresa.
Como dois adolescentes que aprendem sobre o mistério do amar, o casal andava pelas colinas de São Pedro naquela tarde de inverno, o sol os acompanhava naquele passeio, faziam os olhos castanhos adquirirem o atraente dourado, mas não os aquecia, se quisessem calor precisavam se aproximar como o  fizeram.
Ele era maior. Ela se alinhou em seu pescoço. Sentados sobre a relva descolorida observavam a paisagem que encantava os seus olhos enquanto eram tocados pelo vento frio que tornava indesejável o afastamento entre os corpos. Pouco se importavam se não lhes era permitido demonstrar afeto, passaram tempo demais sem o conforto do amor.
— Às vezes não entendemos as circunstâncias que se apresentam no nosso caminho, mas o futuro chega e com ele as respostas para antigas perguntas — com os dedos entrelaçados, tocando suavemente uns aos outros, Victor dissipou o silêncio, deu notoriedade à reflexão que fazia —. Se não fosse a tragédia com minha família talvez hoje não estivéssemos aqui, sempre acreditei que as dores um dia são aliviadas, só não sabia que o remédio era tão bom.
— Tem razão, é incrível como a vida nos dirige nesse mundo, como nos surpreende de tantas formas, começo a acreditar que nunca é tarde para ser recompensado — Rute, carregando uma árdua história, concordou com o pensamento do homem que surgira de repente em seu caminho e que do mesmo modo a conquistara —. Nesses últimos dias vi sentido no sofrimento passado, nas lágrimas que derramei, tudo isso precisou acontecer para que na hora certa eu tivesse um encontro com o homem certo — levou o doce olhar ao sujeito que lhe devolvera o prazer de se sentir amada, aceita e acolhida.
— Quer dizer que me considera o homem certo? — galanteador, desenhando na face o sorriso que o deixava mais sedutor à mulher que o admirava, Victor tocou sua face, encarou-a no profundo de seu olhar.
— Não sei porque não cruzou o meu caminho antes... — deliciando-se com o retorno das emoções que durante a juventude descobriu, a mulher mascarada fechou os olhos, cobriu a mão que repousava sobre seu rosto, finalmente sentia-se livre e segura para viver aquilo que de melhor pode nos ser ofertado: um amor de verdade.
A cada dia mais fascinado pela mulher que adoraria ter conhecido muito antes do atual momento, o nobre homem não pôde conter seus impulsos e beijou a amada garantindo calor aos corações que se amarravam, que eram confortados pelos anos de lutas intensas.
Junto ao retorno da crença no amor, Rute teve de volta a capacidade de confiar em alguém, de depositar seus maiores medos sobre mãos que, tinha certeza, nunca se voltariam contra ela. Tornando a se recostar sobre o corpo do amado e devolvendo aos olhos a bela paisagem produzida pela natureza, a mulher deu voz ao espírito conturbado por segredos grandiosos:
— Quando confiou a mim e aos outros o seu segredo senti vontade de fazer o mesmo, de dividir um peso que tem se tornado difícil demais para carregar sem auxílio, algo que envolve outras vidas... — fez uma pausa, conferiu em seu ser se aquele era um gesto sóbrio, encontrou em si mesma uma clara resposta: amar envolve confiar —. Meu pai me enviou para cá porque não suportaria ver o meu rosto todos os dias e se lembrar do pecado que conviveria consigo, ele jamais aceitaria uma condição que julgava abominável. Cegada de amor, rendida aos encantos do sujeito errado, acabei engravidando, precisei vir embora a fim de manter a honra da família, precisei vestir uma personagem para que falatórios fossem coibidos e tive que renunciar minha maior alegria para que não importunasse aqueles que se consideram incorruptíveis e condenam os que não conseguiram resistir às próprias paixões... Fui obrigada a renunciar a maternidade mesmo tendo minha filha todos os dias ao meu lado, Sara não é uma garota que caridosamente decidi acolher, ela é sangue do meu sangue, ela é minha filha...
Amar também é compreender.
Atento a cada palavra proferida, contente por despertar confiança naquela que de tantas maneiras fora ferida em seu viver, Victor se condoeu pela revelação, não era capaz de sentir a dor que uma mãe impedida de abraçar sua filha poderia experimentar, mas era capaz de compreender o tamanho do sofrimento.
— Tenho certeza de que ao seu modo, como lhe foi permitido, cuidou de Sara como uma grande mãe, não abandonou a garota como outros fariam, não desistiu dela.
— Mas isso não me satisfaz — tornou a encarar o semblante de seu ouvinte, dessa vez transmitindo preocupação na forma como o olhava —. Ela vive confusa, enganada, contenta-se com minhas explicações superficiais sobre o seu passado, mas sei que gostaria de saber mais e sei também o quão injusto é ser privado da própria história...
— Se isso a aflige, por que não conta a verdade? Por que não coloca um ponto final nos capítulos tristes de sua história?
— Não sei qual seria a sua reação, se entregar-se-ia à revolta ou se seria compreensiva, apenas sei que não suportaria ser odiada por aquela que gerei mesmo sabendo que será seu direito me rejeitar, ter a mim como uma medrosa, uma mentirosa...
— Sara é uma garota especial, madura, merece a verdade como você merece se libertar desses pesos que carrega. Se é o que seu coração determina, siga-o sem receios, não estará sozinha, a partir do momento que me aceitou como seu companheiro conquistou também o meu apoio, nunca mais precisará experimentar a aflição da solidão...

¤

Uma guerra não é vencida por aquele que possui os melhores armamentos ou os mais fortes soldados, de nada adianta a força se o ingrediente principal faltar. Em uma guerra vence aquele que desenha as melhores estratégias, que executa as melhores ideias calculando os passos do inimigo sem chamar sua atenção, bombardeando-o por direções que não esperava.
Aliada à filha, Laís estava na presença do padre Miguel, ao seu lado estava aquele que nunca deixaria de amar, juntos montavam uma poderosa estratégia que lhes fazia acreditar que minariam as forças do barão de São Pedro.
— É muito simples. Se Ana e Artur estiverem casados o que ele poderá fazer? Não preza pelas boas aparências? Não é um defensor assíduo dos bons costumes apesar de não segui-los? Só assim aqueles jovens alcançarão a realização de um sonho antigo — a baronesa procurava convencer o religioso a participar do plano audacioso.
— Vocês realmente acreditam nisso? Querem mesmo desafiar a insanidade de Frederico?
— Precisamos arriscar, agir de todas as formas possíveis, não podemos continuar passivos diante dos ataques que sofremos — Heitor argumentou.
— Cometi muitos erros nesses anos de religiosidade, o maior deles foi não ter lutado por um jovem casal que se amava mais que tudo e que não conseguiu conter esse amor, não vou repeti-lo, não vou me opor, ao menos rogo para que Deus nos abençoe...
Alcançado o objetivo, o casal se despediu.
Heitor foi o primeiro a deixar o templo sagrado.
Alguns minutos depois foi a vez de Laís.

Subestimaram o inimigo. Frederico esteve à espreita, blasfemou ao descobrir que ainda era humilhado.


##
No próximo capítulo:

— Condenar as pessoas porque elas amam de um jeito diferente do meu? — abraçou o estimado amigo —. Os verdadeiros abomináveis são aqueles que causam dores e não se cansam de chicotear a quem quer que seja, quanto aos que amam, que mal fazem?

De segunda a sexta, aqui no blog!


Livros gratuitos:

Encontre o blog pelas redes sociais:

Obrigado pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

[Conto] Vazias de Amor

[Conto] Homens de Paz

[Conto] Fascínio Coibido