[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 67 - Perversa Satisfação


Capítulo 67 – Perversa Satisfação

Contra mentes inescrupulosas não possuímos outro armamento se não a inteligência, a habilidade em fingir contentamento quando na verdade ansiamos por uma fuga, tudo para enganar o adversário, para que ele relaxe suas tensões e não perceba quais planos levantamos às suas costas.
Apesar dos corações apreensivos pela incerteza do porvir, seus rostos esbanjavam alegria, pareciam se entender, ou melhor ainda, aos olhos do barão pareciam conformados com a ordem que inicialmente sofreu com relutâncias, mas que agora se aproximava da consumação. Ana e Pedro pareciam bastante à vontade na presença um do outro, davam risadas, distraíam-se, transmitiam a ideia de que aprenderam a conviver, mas a verdade era outra, sentiam a liberdade mais perto do que nunca.
— Que noite agradável tivemos! — exaltado pelos goles de vinho que consumira, Frederico conversava com Egídio e seu filho antes de cada um seguir seu próprio rumo —. Não fui poupado de elogios, Ana e Pedro formam um casal invejável, esse casamento promete ser inesquecível!
— E teria como ser diferente? — o rapaz, assumindo a personagem que encobria suas verdadeiras ideias, segurava a mão da donzela, garantia ao cenário construído maior credibilidade —. Sua filha é uma bela dama, sinto-me lisonjeado pela companhia!
— Deixe de galanteios, também possui os seus dotes e começo a me acostumar com a ideia de acordar todas as manhãs ao lado de um cobiçado cavalheiro — as palavras não foram dirigidas a quem de fato deveriam, mas Ana precisava fazer parte da cena fantasiosa, precisava acalmar o perverso e desconfiado sujeito.
— Não imaginam o quanto me regozijo por ouvir tais declarações, ainda temos pessoas sensatas nesse mundo, que sabem compreender o que é melhor para suas vidas! — o barão exibia o sorriso aberto, acreditava naquela farsa, acreditava por muito querer que vivessem sua egoísta verdade —. Por esse motivo, por essa alegria que a mim garantem, anuncio que atenderei ao rogo de Ana, darei uma festa na fazenda, comemoraremos em grande estilo o noivado do casal que mais tem chamado a atenção em São Pedro!
Embriagado pelo vinho e dominado pela satisfação de perceber que seguiam suas regras, o barão surpreendeu a todos, autorizava que fizessem o baile, autorizava que seus adversários dessem um importante passo contra a sua tirania.
Alguém se aproximou do grupo que conversava debaixo das estrelas.
Pediu espaço e sussurrou ao ouvido de Frederico que, levando o olhar malicioso à esposa, sorriu perversamente. Adorava saber que seus planos malignos alcançavam sucesso.

¤

A verdade é que os de cruel espírito esperam que seus opositores estejam vulneráveis para que possam atacá-los covarde e sorrateiramente, para que possam partir para o confronto dotados de injusta vantagem, para que consigam usufruir de uma vitória conquistada indevidamente.
Heitor, após o longo dia de trabalho na mercearia que abastecia as muitas famílias da região, fechou o estabelecimento sussurrando uma música antiga que aprendera com o pai quando este o levara para conhecer os negócios. Cuidava da mercearia como um bem precioso, afinal, além de ser o meio pelo qual obtinha o próprio sustento, era também a lembrança do homem que muito amara.
Vestindo o pesado casado que afastava o frio, o comerciante vagueou pelas ruas que rotineiramente transitava, era o caminho de volta para casa, o caminho que tantas que tantas vezes fizera com o pai recebendo seus sábios conselhos.
Mas algo que nunca acontecera em tantos anos aconteceria naquela noite.
Algo terrível.
A passos tranquilos, Heitor avistou na esquina da rua onde morava um homem que mantinha a cabeça baixa, os braços cruzados, uma perna em contato com o chão e a outra encostada sobre o muro da residência às suas costas. Passou pelo sujeito esquisito. Desejou boa noite como fazia ao cruzar com alguém. Mas não pôde prosseguir.
— Para mim, com certeza — o sujeito mudou a postura, encarou o comerciante, a aba do chapéu em sua cabeça impedia que seus olhos fossem vistos —. Receber a visita do barão não foi o suficiente? Precisa mesmo bancar o machão destemido? — caminhava em direção à provável vítima —. Onde estava com a cabeça quando insistiu em desafiar a ira de Frederico? Se Deus não o punirá por seus atos pecaminosos, das mãos do pior inimigo que poderia conquistar você não passa!
Era um ataque, Heitor entendeu que se deparava com um dos inimigos que tinha espalhados pelos arredores, todos com um gesto comum, obedeciam cegamente às instruções do perverso homem.
O comerciante sentiu aproximações às suas costas.
Antes que pudesse atacar ou correr os homens o pegaram pelos braços, um de cada lado, pressionando-o sem quaisquer sutilezas.
— Foi avisado — o capanga de chapéu interrompeu os próprios passos —, uma pena ter sido tão ingênuo.
Lançaram o amante de Laís ao chão.
Deram início às covardes agressões.

Aos olhos de Laís, que aprendera a conhecer e desvendar cada gesto do homem ao qual foi condenada a servir como esposa, Frederico parecia ainda mais disposto depois que recebeu a misteriosa informação do sujeito que o abordara, sua satisfação despertava preocupações na mulher que conseguia ler no olhar do barão o teor sórdido de seu prazer.
— Ana está contente — trocando as vestimentas, preparando-se para dormir, a baronesa resolveu iniciar um diálogo, tentaria desvendar os segredos do marido —. Confesso que me surpreendi quando anunciou que permitirá que aconteça o baile.
— Posso surpreender de muitas maneiras, querida, tanto boas quanto más, isso quem decide são vocês — desabotoando com certa dificuldade os botões da camisa, lutando contra a turbidez das vistas, o barão respondeu —. Finalmente ela entendeu que as minhas ordens precisam ser respeitadas, isso evita tantos problemas, tantas dores... — tirou os sapatos lançando-os para o lado —, é uma pena que você, alguém mais velho e que deveria ser mais sensato, não tenha compreendido ainda — aproximou-se de Laís exalando o cheiro de vinho —. Acha mesmo que não descobriria a sua depravação? — com as costas da mão agrediu o rosto sereno, assumiu o semblante que retratava sua alma sombria, o semblante de ira —. Continuou a me desobedecer — puxou a baronesa contra o seu corpo, rasgou seus trajes —, continuou a ceder aos desejos impuros que possui — usando de força contra aquela que o repudiava, contra aquela que tentava se livrar de seus intentos lascivos, Frederico levou os lábios ferozes à pele que os detestava —. Mas agora precisará saciá-los apenas comigo! — descontrolado, molestava a esposa, feria mais uma vez a mulher que já não aguentava conviver com o monstro que lhe designaram por marido —. Seu amante está morto! — a noite de tormenta e pavor apenas começava.

Suados pelo calor da maldade, os homens sanguinários interromperam seus gestos nefastos ao perceberem que, ofegante, Heitor já não respondia aos açoites, apenas gemia numa busca desesperada por um pouco de ar.
— Não vamos adiantar as coisas — o de chapéu determinou —. Que sua morte seja lenta — partiram como vitoriosos, como vencedores, como verdadeiros abomináveis, seres que se desvestem da humanidade e assumem o vazio de suas almas apodrecidas.


Continua...


##
No próximo capítulo:

— Eu o amava! — sentada na cabeceira da cama, exibindo o pranto que não largaria sua alma tão brevemente, a baronesa confessou a grande verdade que por anos precisou esconder a fim de proteger um alguém especial, mas de que adiantou? De que adiantaria continuar escondendo? —. Ele foi o único homem que amei — levou o olhar irado àquele que desprezava —. O único homem que me teve como mulher! E isso você não pode mudar, Frederico, a história que eu vivi com ele bem debaixo do seu nariz você não pode apagar! — esbravejou dominada pela ira que descontrolou sua língua.

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