[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 76 - Fogo que arde sem se ver
Capítulo 76 – Fogo que arde sem se ver
O amor é grandioso, em muito poderoso, tem o poder
de criar universos, escrever histórias e impressionar aqueles que menos se
afetam. Impressiona pela ousadia de sua existência, impressiona pela cura que
proporciona, impressiona pela sua grandeza que nada consegue ocultar por muito
tempo. O amor impressiona por ser imbatível, invencível e indestrutível.
O amor continuará impressionando.
Que dia fora aquele? Que alegria imensa sentira?
Quão bom foi experimentar a liberdade para amar. Encarando as estrelas, sendo
levada por pensamentos sublimes, Ana tentava compreender o que sentia seu
coração apaixonado, tentava encontrar palavras que expressassem a sensação de
pertencer a outro mundo.
Quando acreditou que por algum momento esqueceria da
tristeza a qual estava aprisionado? Quando confiou plenamente no amor que
diziam ser seu libertador? Que surpresa agradável a vida lhe concedera! Estava
casado, estava agora unido à mulher que fazia seus sonhos serem inesquecíveis e
ninguém mudaria isso. Observando o céu estrelado, Artur mal compreendia as
próprias emoções.
Amava Artur, amava tanto que chegava a doer em seu
corpo, uma dor que nascia na alma privada de sentimentos dos quais sentia
insaciável sede. Mas agora a dor se convertia em desfrute, estava casada, era a
esposa do mais belo dos rapazes, do mais valoroso dos homens, estava fadada
àquela felicidade. Queria tê-lo ao seu lado naquela noite tão especial, aliás,
queria eternamente contar com a sua companhia. O eternamente talvez devesse
esperar, mas o presente se apresentava para ser experimentado.
Era apaixonado por Ana, mas antes de ser apaixonado
era um formidável amante, o homem que só se sentia completo quando a outra
metade do seu corpo era preenchida por aquela que para sempre moraria em seu
coração. Se antes a liberdade era desejada, agora seria perseguida
acirradamente na intenção de ao seu lado ter a mulher amada até os últimos dias
da velhice. Mas enquanto esses dias não chegassem, Artur se conformaria com as
circunstâncias do agora, seu melhor momento.
O cavalheiro subiu pela sacada de Ana.
Beijou sua donzela cheio de doçura a conceder.
— Enfim, casados! — debaixo da lua, tendo as
estrelas como testemunhas, Ana falou sorridente. As testas se tocavam. Os
corpos transmitiam calor. Os corações se agitavam —. Certo é que precisaremos
de discrição por alguns dias, mas na terrível investida do inimigo teremos com
o que nos defender.
— Nem parece realidade de tanto que sonhei com esse
dia — Artur, exibindo o sorriso que fazia de sua admiradora ainda mais apaixonada,
acariciou a face que imaginava para sempre ter o direito de tocar —. Ninguém
pode contra o que sentimos, Ana, ninguém é capaz de parar o amor por mais forte
que pense ser. Nós vencemos uma batalha, venceremos a guerra!
A paixão que os consumia avassaladoramente lançou-os
ao beijo sedutor que precisavam saborear, deram alguns passos, deixaram as
estrelas e o luar para adentrarem o quarto de Ana e repousarem os corpos
mutuamente atraídos sobre os lençóis que seriam agora as testemunhas do fogo que
ardia em seus intentos, o fogo da paixão, o fogo do amor, aquele que, como
recitou o poeta, arde sem se ver.
Amaram-se.
Como para sempre se amariam.
Adormecerem por algumas horas. Ana sentia-se
confortável repousada sobre o corpo de Artur e segura sendo envolvida por seus
braços que prometiam jamais soltá-la. Artur sentia-se realizado por ter sobre
si a amada mulher, rendida à sua proteção, despreocupadamente entregue ao
abraço que jurava defendê-la e acolhê-la sempre que necessário.
No meio da madrugada despertaram ao soar de passos
tropeços.
Assustaram-se com o vulto na cortina.
Sem pestanejar, destemido, o jovem escravo avançou
até a sacada, sentiu o impacto do frio afastando o calor que até então recebera
da esposa. Olhou ao redor, nada encontrou, considerou que tiveram algum
presságio, embora casados ainda se preocupavam com um fato: Frederico era
imprevisível.
— Não queria que fosse... — sentindo o incômodo do
separar-se de quem se ama, a jovem mulher anunciou seu desejo.
— Chegará o dia que não precisaremos mais nos
afastar — sempre tão gentil, sentado na confortável cama encarando as íris
douradas, o jovem cavalheiro envolveu as mãos delicadas, beijou-as sereno,
tornou a encarar os olhos que refletiam o singelo brilho do luar que iluminava
o quarto —. Mas enquanto esse dia não chega fique com isso — estendeu a camisa
que usava, onde estava o seu cheiro —, sentir-se-á mais próxima a mim! — beijou
a donzela romanticamente, um beijo que precisou ser interrompido antes que se
rendessem uma vez mais à paixão que fervia —. Eu te amo.
Ágil, deixou a amada, escalou a parede, deu às
costas à varanda que tantas noites deixara de dormir para ficar vigiando. Antes
que Artur fosse tragado pela escuridão, Ana o chamou, lançou a ele o lenço que
usava, lenço que possuía seu perfume, lenço que seria secretamente guardado
pelo homem apaixonado.
Extasiada pelo amor, Ana se deitou em seus
aposentos, dessa vez sem contar com o afago do eterno amante. Tão logo as
lágrimas de saudade brotaram abraçou a camisa que fora deixada, farejou-a na
busca pelo cheiro que acalmaria seu ser, ao encontrá-lo abriu um doce sorriso,
sentiu-se perto de quem muito estimava.
Envolvido pela vasta afeição que sentia por Ana,
Artur deitou-se sozinho na esteira que repousava sobre o chão frio da senzala,
desejou estar com a amada, sendo aquecido pela sua companhia, sendo agasalhado
pela ternura que compartilhavam. Não tendo essa chance, o jovem rapaz levou o
lenço ao olfato, encontrou nele conforto para seu peito.
O vulto não fora fruto do medo ou da preocupação em
ser descoberto, o vulto fora a manifestação da malquista realidade que se
aproximava para trazer inquietude.
O vulto era de Sebastião, o sujeito encapuzado que,
vagueando pela fazenda, decidiu que era chegada a hora de fazer notar a sua presença.
Conseguiu entrar no casarão com facilidade, havia contado com a fidelidade de
alguns poucos guardas aos quais se revelara e pedira para que mantivessem
segredo. Adentrou o escritório de Frederico no meio da madrugada.
— De volta ao meu lugar de direito! — caminhou pelo
espaço enquanto sorria —. Estão convictos de que vencerão, estão tão certos
disso que se rendem à luxúria de seus desejos carnais — sentou-se na poltrona
do barão de São Pedro —. Que continuem assim, a cada dia mais fracos, propensos
ao que não se preocupam em imaginar que está prestes a acontecer!
¤
Naquela mesma noite que a uns garantia alívio e a
outros afligia impiedosamente, Rute se preocupava com a filha que precisou evitar
assim chamar, preocupava-se em como ela estava, inquietava-se tentando
encontrar maneiras de alcançar perdão.
Antes da meia-noite alguém bateu à porta.
Correu atender na esperança de contemplar a face de
Sara.
Mas foi Victor quem encontrara, aos braços de quem
se rendera para que o pranto se aliviasse.
— Ela não voltou... — abatida, a mascarada lamentou
—. Sei nem se algum dia voltará, se será capaz de me entender e me perdoar...
— Acalme-se... — ajudando a amada a se sentar no
sofá que ornamentava a sala, o Protetor ofereceu suas tênues palavras —. Ela é
sua filha, mas também uma jovem garota atribulada por essa fase da existência,
levará um tempo até que consiga entender os seus motivos, que perceba que no
fundo sempre teve uma mãe ao lado e, então, concederá o perdão que deseja.
— Diz isso com tanta confiança... — os olhos estavam
baixos, reflexo da falta de esperança.
— Acha mesmo que Sara a deixará? Ela é uma garota
especial, cheia de bons sentimentos, precisa acreditar no melhor — ergueu a
face abatida, fez com que os olhos se ligassem —. Eu sei que é difícil para
você acreditar em finais felizes, que é difícil ter esperança com tantas
lembranças de decepção — limpou a lágrima que corria —, mas sua vida tem
mudado, não percebe? As coisas se transformaram e isso quer dizer que os finais
não serão os mesmos — motivou o tímido sorriso na face mascarada —. Isso, é
assim que quero vê-la, é assim que fica ainda mais bela...
Na intenção de proporcionar descanso, o português
beijou aquela que em muito prezava, mas ao unir aos lábios os corações
balançaram e o que era para ser sutil tornou-se intenso e promoveu carícias que
um ofertava ao outro.
Afastaram-se ofegantes.
Encaram-se a poucos centímetros.
Rute, rendida à ligação que possuía com aquele
homem, pegou em sua mão, levou-o ao seu quarto, onde se entregaria de maneira
íntima ao cortês galanteador. Mas Victor, interrompendo os beijos que se
esforçou para conter, sentiu desejo em tirar a máscara que cobria parte do
rosto convidativo ao toque, à resistência da mulher persistiu em sua investida
alcançando êxito.
Não havia cicatrizes salientes.
Apenas uma marca escura.
Acariciando a região como se tocasse em frágeis
pétalas, Victor se aproximou do ouvido de Rute, juntou as mãos e declarou a sua
verdade:
— Por não saberem como amá-la marcaram sua pele, mas
eu juro que o meu amor marcará o seu coração...
Amaram-se naquela noite de amor.
O amor que para o poeta é um fogo, fogo que arde sem
se ver.
##
No próximo capítulo:
Agora
finalmente vocês têm a chance de viver como mãe e filha, terão a liberdade de
andarem pelas ruas demonstrando a ligação que possuem, eu seria capaz de muitas
coisas para ter essa mesma liberdade com a minha família — beijou a face da
namorada —. Não fique chateada, mas dessa vez não poderei atender ao seu pedido
porque te amo e quero vê-la feliz!
De segunda a sexta, aqui no blog!
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pela companhia, um forte abraço e até logo!

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