[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 77 - Aceitação
Capítulo 77 – Aceitação
É comum nos sentirmos inseguros frente às novidades
da vida, diante das transformações as quais somos empurrados quando o novo
floresce e muda nossa visão, altera nossa percepção, faz-nos perceber que nada
é inteiramente estável, tudo pode se modificar e nós precisamos aprender a nos
adaptarmos.
Sara, indecisa quanto ao que fazer, procurou uma
hospedagem em São Pedro onde se alojaria pelo menos enquanto o dinheiro
durasse, quando precisaria sair à procura de algum trabalho. Mas não estava
sozinha, embora achasse que as coisas na sua vida assumiam ser grandes ilusões,
a jovem garota não perdeu a companhia do leal Felipe que durante aqueles três
dias que se passaram, em todas as manhãs, fazia uma visita.
Mas naquele dia o encontro não se deu como o
esperado.
Sara estava sentada na poltrona de seu quarto com um
aspecto fragilizado, seu corpo suava e seus olhos pareciam longínquos. Felipe
teve certeza de que a namorada não estava bem.
— Sara? — aproximou-se da garota sendo acompanhado
pelo seu olhar —. O que aconteceu?
— Eu não sei — embora suado, o corpo da adolescente
tremia, a vez tremulava —. Quando acordei não estava me sentindo disposta —
fechou os olhos sentindo o corpo dolorido —, acabei piorando...
Atencioso, o jovem adolescente encostou a mão sobre
a testa de Sara, não teve mais dúvidas, ela ardia em febre.
— Você precisa de ajuda — anunciou.
— Chame pelo doutro Carlos, é quem cuida de mim —
sonolenta, a moça recomendou.
— Não, Sara, não conheço nenhum doutor Carlos, se
souber o nome de cinco pessoas dessa cidade já considero muito, vou atrás de
Rute, é dela que precisa.
— Você não pode fazer isso! — protestou contendo
Felipe pelo braço —. Estava lá quando a verdade apareceu, ouviu o mesmo que eu,
sabe o quando tudo aquilo foi difícil de entender...
— Você precisa ser um pouco compreensível. É verdade
que ouvi o mesmo que você, mas consegui ouvir um pouco além — encarava os olhos
azulados, olhos que naquela manhã se ofuscaram —. Ouvi o desabafo de uma mãe
arrependida, uma mãe que fez o que fez não por egoísmo ou orgulho, mas por
amor!
— Quem ama luta até o fim! Não foi isso que seu
irmão fez? Não é isso que aquele comerciante tem feito? Quem realmente ama se
desvia dos próprios medos e persiste!
— Já parou para pensar que se lutasse dessa maneira
Rute não passaria de uma egoísta? Ela poderia se levantar contra o pai,
insistir em ter uma vida normal de mãe, mas sabe-se lá o que poderia ter
acontecido a você, ou morreria ou seria levada para outro lugar, tudo o que
Rute fez foi protegê-la e garantir que não teriam o direito de tirá-la do seu
lado! — com persuasão, proferiu o que pensava, o que conseguiu entender —.
Agora finalmente vocês têm a chance de viver como mãe e filha, terão a
liberdade de andarem pelas ruas demonstrando a ligação que possuem, eu seria capaz
de muitas coisas para ter essa mesma liberdade com a minha família — beijou a
face da namorada —. Não fique chateada, mas dessa vez não poderei atender ao
seu pedido porque te amo e quero vê-la feliz!
¤
Logo pela manhã, depois de uma longa noite de
viagem, Frederico estava de volta em suas terras trazendo consigo novos acordos
que o enriqueceriam e garantiriam trabalho ainda mais pesado aos escravos.
Atarefado, parou em frente ao escritório do casarão, tentando destravar a
fechadura percebeu que já o tinham feito. Cauteloso, empurrou a porta de
madeira que gemeu lentamente, atencioso, deu o primeiro passo, e o segundo, no
terceiro alguém o empurrou pelas vestimentas para dentro do cômodo e trancou a
porta atrás de si.
— Mas que droga é essa?! — surpreso, Frederico
exclamou ao contemplar a face do inesperado visitante.
— Droga? Milagres acontecem, meu caro! Para muitos o
meu retorno será como os de que voltam do mundo dos mortos! — descontraído,
Sebastião se apresentou.
— Eu sabia que não estava morto, precisariam de
muita coragem para matá-lo, como precisaram ser muitos frios para deixarem-no
escapar. Sente-se — indicou a cadeira que ficava de frente para sua poltrona —.
Conte-me as boas novas!
— Seu império está ruindo, Frederico, será que não
consegue ouvir? — alarmou.
¤
Depois dos três dias de afastamento, Rute finalmente
dividia o mesmo teto que a filha. Preocupada, examinou aquela que bem conhecia,
constatou o estado febril, talvez fosse o começo de uma gripe em virtude do
frio das últimas semanas. Prestativa, mas sem declarar palavra alguma, a mulher
ofereceu os medicamentos que sabia serem necessários. Esperou a garota tomá-los
e sugeriu que descansasse.
Mas Sara não queria descansar.
As palavras de Felipe, principalmente as que
revelaram o seu desejo por ter a liberdade de viver com sua família, tocaram o
coração revoltado da jovem moça, alguém que procurava se entender,
descobrir-se, encontrar o seu lugar no mundo.
— Por que fez isso? — a pergunta não permitiu que
Rute partisse.
— Eu contei tudo o que poderia, não há mais o que
dizer. Você é teimosa, tanto quanto o seu avô, se não foi suficiente aquela
conversa nenhuma outra será — tentando sorrir, mas sendo impedida pelo coração
abalado, Rute respondeu.
— Não me refiro às mentiras — Sara se mantinha séria
—. Por que cuidou de mim mesmo imaginando quais são os meus sentimentos?
— Porque você é minha filha. Por mais que não
entenda, ou não possa entender, durante esses anos cuidei de você, do meu
jeito, da forma como era possível, agi como uma mãe. É verdade que lhe dei o
título de criada, mas nunca a vi dessa maneira, precisa saber que em silêncio,
através dos meus discretos gestos, eu a chamava de filha.
Recordando-se de tantos momentos, de quando Rute lhe
dava dinheiro para que comprasse vestidos novos, ou quando ela mesma ia até a
cozinha e preparava algo para ambos, das vezes nas quais Rute se recusara ser
acompanhada até a cama para colocá-la para dormir e desejava um querido “boa
noite”. Sara compreendeu que de uma maneira silenciosa e velada sempre teve uma
mãe, mas nunca teve a sorte de perceber.
— Quero que saiba que não posso perdoá-la — a
declaração atingiu Rute e espantou Felipe, precocemente, ainda não acabara —.
Não posso perdoá-la por ter recusado ao egoísmo, renegado à própria vontade de
ser mãe a fim de me proteger, a fim de poupar que outros finais, trágicos
talvez, fossem escritos para mim. Ainda acho que poderia ter confiado em mim,
acho também que agora precisamos recuperar o tempo perdido — aliviou as
tensões, propiciou ao amor que se fizesse presente naquele ambiente.
— Isso quer dizer que voltará para casa? — animada,
Rute perguntou.
— Se puder me aceitar...
O abraço entre mãe e filha extinguiu as distâncias e
anunciou a chegada de um novo e agradável presente. A página virou.
¤
— O que quer dizer com ruindo? — o barão não
entendeu o enigma, queria respostas mais claras.
— Você vai entender — Sebastião prosseguiu —. Mas
antes precisa saber que Artur, aquele negrinho insuportável que deveria ter
abatido há muito tempo, além de ter sido o causador do meu sumiço é também um
predador insaciável: delicia-se com as nossas mulheres, vira os olhinhos com a
sua filha!
— Não, não faça isso, não desrespeite a minha casa!
— irado, Frederico socou a mesa.
— Pode se acalmar ou será que prefere que nos
descubram antes do tempo? — nervoso, o capanga sussurrou —. Pode ser doloroso
de ouvir, em muito irritante, entenderei sua fúria, mas peço para que a
contenha. Eles se casaram aqui na fazenda, ontem mesmo, o padre Miguel
oficializou o matrimônio.
— Desgraçados! — o homem de extremos poderes mordeu
os próprios lábios.
— Temos traidores no nosso meio, meu amigo —
Sebastião continuou —. Além de ajudar Artur no meu sumiço e de participar do
casamento, desde que assumira o meu lugar Bruno tem oferecido alívio aos
imprestáveis... Mas não para por aqui, ele e aquele franzino que escolheu como
genro tiveram um encontro bastante curioso, se é que me entende...
— Não é possível — Frederico levou as mãos ao rosto,
preocupava-se com tais descobertas —. Como sabe de tudo isso? — confrontou o
informante —. Como conseguiu saber de tudo isso sem ser descoberto?
— Pensaram que eu estava morto, joguei-me no
precipício diante os olhos de Artur, mas o babaca não esperava que eu pudesse
ser mais audacioso do que ele que faz do leito de sua filha um átrio de
lascívia — sabia como aumentar a ira no barão, era de seu interesse.
— Para de falar... Para de falar! — era demais para
o homem que acreditava ser imbatível, mas que via o quanto era feito de
insignificante.
— O que vai fazer?
— Matar todos! — respondeu impulsivo.
— Não, Frederico, use a cabeça! Fiquei sabendo sobre
o baile de máscaras que dará, nesse dia estarão ainda mais menos preocupados,
será nesse dia que ressurgirei e comigo trarei a verdade que tentam encobertar.
Precisamos ser sorrateiros tanto quanto eles. Além disso, matar é uma solução
simples demais, cada um deles merece ser torturado por suas perversões!
##
No próximo capítulo:
É chegada a
hora do opressor ser oprimido pelos próprios fantasmas e do oprimido alcançar a
luz que tanto almejou, a luz do novo horizonte uma bela paisagem que os
engolirá para a eternidade. Sinto que a
vida fará justiça, os injustos serão cobrados e os injustiçados serão
recompensados por cada lágrima derramada, pelo sangue perdido. Se a humanidade
se valesse da própria inteligência a libertação não viria através de uma guerra
sanguinária, infelizmente não há opções, sinto que a luta será grandiosa,
avassaladora, libertária!
De segunda a sexta, aqui no blog!
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pela companhia, um forte abraço e até logo!

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