[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 70 - Embate


Capítulo 70 – Embate

Talvez, em muitos de seus sonhos utópicos, as pessoas pudessem desejar ardentemente para que o arrependimento corrigisse o passado e transformasse o presente, fruto das consequências de escolhas feitas e decisões tomadas. Quando nos deparamos com o arrependimento é também quando fazemos uma reflexão que há tempos deveríamos ter feito, é quando confessamos que agimos sem pensar na ânsia humana por alcançar objetivos e solucionar problemas.
Mas o arrependimento não é o bastante para que a realidade mude.
Nosso esforço pela mudança depende de nossa vontade.
O arrependimento não rasgaria o acordo firmado entre ele e o barão, mas Egídio estava disposto a corrigir o passado usando quaisquer recursos que fossem necessários e disponíveis.
— Está falando feito um rebelde?! — Frederico interrogou decepcionado —. Não é possível que esteja se contaminando com os discursos daqueles canalhas, consegue mensurar o tamanho do perigo no qual está se metendo? — seu olhar reprovador ao mesmo tempo em que intimidador fitou o comerciante que, após anos de ignorância, começava a compreender sobre o valor do ser humano.
— E se eles estiverem certos? E se toda essa arrogância estiver consumindo a nós e às nossas famílias? — Egídio se manteve em seu posicionamento, não agiria como um covarde, não permitiria que Frederico manipulasse seus pensamentos agora que se libertava das próprias amarras —. Veja só o que está fazendo com a mãe de sua filha, com a mulher que dedicou anos ao seu lado, não acha injusto causar dores insuportáveis?
— Injusto é ser profanado pela boca que come de sua comida! — o sujeito prepotente bradou contra aquele que, aos seus olhos, revelava-se um mesquinho traidor —. O acordo já está firmado, Egídio, já foi anunciado o casamento que acontecerá queira ou não. Não permitirei que continuem a me usar como um boneco para diversões, deverão pensar muito bem antes de ousarem em me afrontar!
— Todos os acordos podem ser desfeitos quando encontramos motivos plausíveis para isso. Conceder uma surra na própria esposa é motivo mais que suficiente para que eu me recuse a permitir que o meu filho seja parente de um sujeito inescrupuloso, covarde e egoísta! — ignorou o aviso, afrontou a figura irritada, alegrou os corações que desejavam estar em seu lugar.
O barão, sorrindo nervosamente, passando as mãos sobre o rosto na vã tentativa de se livrar da ira ardente que consumia todo o seu corpo, avançou contra o comerciante, agarrou-o no pescoço, vociferou descontrolado pela raiva que sentia por ser tão descaradamente confrontado:
— Esse casamento acontecerá nem que precise matá-lo!
Agindo instintivamente, Pedro investiu contra Frederico, forçou-o a tirar as mãos de seu pai, usando a força conseguiu a proeza de libertar das garras do homem possesso aquele que vinha se transformando em alguém ainda melhor.
Atordoado, percebendo o quanto perdiam o temor sobre sua tirania, o barão não se deu por vencido, agarrou o jovem rapaz pelo colarinho e o lançou ao pó da terra fazendo uso da força que o ódio garantia aos seus braços.
Prevendo a intenção de Frederico e tendo a certeza de que Pedro seria brutalmente atacado estando em vulnerabilidade, Bruno se colocou entre o rapaz pelo qual se afeiçoara e o sujeito que em todos despertava repulsa e nojo. Conteve o patrão seduzindo-o com suas palavras:
— Antes de agir pense no escândalo que promoverá — Bruno fitava os olhos avermelhados —. Quer que todos o vejam desconfigurado e saibam que a culpa foi sua? Eles terão os motivos que almejam para acabar com esse casamento! — era seu desejo, que o casamento não acontecesse, mas não encontrou forma melhor de interromper o sujeito descontrolado.
— De qualquer maneira esse matrimônio é enterrado aqui! — Egídio ajudou o filho a se levantar —. Você enlouqueceu! Saindo daqui o denunciarei, você representa ameaças aos que estão à sua volta!
— Acha mesmo que pode me vencer? — o barão jogaria sua última carta —. Eu sou o homem mais rico dessa região, governo sem ser chamado de político, seria ingenuidade sua acreditar que não tenho poder sobre a justiça. Eles não lhe dariam ouvidos, ao contrário, seriam pagos para que dessem um sumiço em você ou no seu filho querido, o que resta daquele amor inútil que diz ter vivido.
— Você é baixo! — avançou contra o mais novo inimigo, mas foi interrompido por Pedro.
— Ótimo! — mudando automaticamente de semblante, desvestindo-se da face irada e colocando o sorriso perverso no lugar, Frederico exclamou —. Que bom que estamos resolvidos. Espero ansiosamente pela vossa presença no baile que antecederá o casamento!
Contrariado, indignado por não obter êxito naquilo que se propôs a fazer, Egídio deu às costas ao poderoso fazendeiro, seguiu rumo à carruagem. Imitando os passos do pai, Pedro não deixou de lançar o último olhar àquele com quem queria conversar, com quem queria romper a distância e matar a saudade, um olhar de agradecimento, de pedido de desculpas, pedido por uma nova chance, olhar retribuído por um sutil aceno com a cabeça, gesto que anunciava a existência do possível futuro.

— Adelaide! — Frederico bradou sendo prontamente atendido —. Sabe o que deve fazer. Não quero olhar na face dessa desprezível enquanto não estiver lúcida outra vez, dessa vez eu quase matei, da próxima eu mato — virou para a filha —. Vá para casa, Ana! — antes que a moça pudesse retrucar, o barão a agarrou pelo braço. Percebendo o primeiro passo espontâneo de Artur, Bruno se aproximou do tirano aconselhando para que tivesse paciência —. Se quer se misturar aos porcos fique à vontade! — dirigiu-se ao soldado largando a moça —. Ela ficará sob sua responsabilidade, quero que volte para casa antes do almoço! — partiu deixando as ordens.

Retribuindo todo o carinho e cuidado que recebera da baronesa desde que esta se casara com alguém que não merecia, Adelaide tirou Laís do símbolo de tortura e angústia, de onde muitos agonizaram até que o espírito se retirasse do corpo embora, em um gesto maníaco, os açoites continuassem sobre a carne inanimada. Sendo auxiliada por Bruno e Artur, a escrava levou a mulher à senzala, suplicava por misericórdia aos seus deuses, para que eles aliviassem o ardor da crueldade. Repousando Laís sobre a esteira de palha, Adelaide despejou óleo sobre as costas machucadas, óleo que diminuiria as dores, que ajudaria na cicatrização.
A baronesa não respondia a nenhum estímulo. Não encontrava forças nem vontade para fazê-lo, a vida parecia ter acabado embora ainda respirasse.
— Ficará assim por quanto tempo? — condoído pela situação da mulher que o aconselhara sobre o amor, Bruno questionou.
— Ainda hoje voltará a conversar, quando a dor puder ser suportada, mas até que se recupere totalmente levará tempo. Os vergões sumirão, mas suas marcas durarão para sempre — Adelaide suspirou abatida —. Marcas que nos lembram do quanto somos rebaixados pelos nossos semelhantes...

Angustiada por ver a mãe em tão deplorável condição, ouvindo as palavras de Adelaide e do sofrimento que elas traziam consigo, Ana libertou as lágrimas desesperadas, não conseguia digerir os fatos, queria que tudo não passasse de um malquisto pesadelo.
Artur, tendo a capacidade de sentir a amargura que era experimentada pela namorada, abraçou-a cedendo o seu apoio, o seu abrigo, o seu consolo. Permitiu que ela chorasse em seu peito, que pranteasse em seus braços, que encontrasse nele a possibilidade de desabafo.
— Eu não aguento mais... — Ana se apertava em Artur, pressionava-o contra si querendo encontrar nele o alívio que muito necessitava —. Eu não aguento mais tanta maldade... — as palavras travavam batalha contra as lágrimas.

— Vai ficar tudo bem — sentindo o coração despedaçar por perceber o sofrimento daquela que amava, Artur não pôde evitar que as próprias emoções se manifestassem: o coração pulsou mais forte e o choro tomou seu rosto —. Eu prometo que vai... — estava farto de esperar, lutaria por ele, por sua família, pelo seu povo, mas, principalmente, pela mulher de sua vida, a pessoa que o fez se sentir humano, a pessoa que o motivava ao combate.


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No próximo capítulo:

— Não me chame de dona Rute, não mais... — encarando as íris azuis herdadas de seu pai, o homem que se levantara contra o fruto de um amor não correspondido, a mascarada se vestiu de valentia, desfaria todas as mentiras, revelaria a merecida verdade —. Eu menti, sua mãe não a abandonou, ao contrário, esteve sempre ao seu lado, por todos esses anos, porque ela sou eu! — revelou a verdade, revelou-se, espantou.

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