[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 86 - Indesejável Verdade - Parte 1



Capítulo 86 – Indesejável Verdade (Parte 1)

Estar longe de quem verdadeiramente se ama é o bastante para que a alma desassossegue e o coração se angustie bravamente, ainda mais quando se tem noção de que a pessoa amada não está distante por própria vontade, mas por ter sido obrigada, por ter a vida correndo grande perigo.
Depois de tantos anos aprisionada a uma vida repleta de receios, condenada por um passado que demorou superar, Rute se permitira a um novo amor, a uma nova chance de amar e ser amada, mas, olhando-se no espelho, imaginando o amante às suas costas abraçando-a com a ternura de cada encontro, a mulher se permitiu ao choro, às lágrimas de saudade, um sentimento intenso que preocupava seu ser. Como estava Victor? A quais dores era submetido? Por que demorou tanto a surgir em seu caminho?
O Protetor, agredindo a terra com a enxada que lhe deram por instrumento de trabalho, recordou-se do quanto era sublime estar ao lado de Rute, do quanto apreciava a sua doce companhia, do quanto se orgulhava por tê-la ajudado a se libertar das próprias amarras e do quanto admirava a força que a mulher amada possuía. Sentia sua falta. Como ela estava? Descrente sobre a vida? Desesperada por imaginar que os dias melhores lhe prometidos chegaram ao precoce fim? Por que não a encontrara antes?
Rute, limpando os próprios olhos, procurando distrair a mente dos tantos pensamentos pessimistas, desenhou um desconsolado sorriso na face, acontecesse o que tivesse que acontecer, era grata pelos últimos dias que vivera, dias que lhe devolveram a crença em si mesma e na boa transformação que o futuro pode representar desde que nos permitamos a isso.
Victor, sentindo o suor escorrendo pelo rosto, percebendo que os dias de inverno ficaram para trás e a primavera anunciava a próxima chegada do verão, deixou de semear pensamentos negativos, como as estações mudam as fases da vida também se alteram, precisava cultivar a certeza de que seus olhos voltariam a admirar o rosto sereno e seus braços voltariam a envolver aquela que jamais largariam.

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Artur, enquanto cumpria com suas funções debaixo do sol ardente recebendo a ajuda de Bruno, tentava encontrar formas de salvação, maneiras que libertassem os que ficaram para trás, caminhos que levassem todos ao que mais almejavam, ao direito de ser livre, o direito de ser humano.
— Não precisa se preocupar — o soldado escravizado reconheceu a apreensão no semblante do amigo —. Eles voltarão. Devem estar reunindo forças e virão para nos libertar!
— Eu não sei se podemos confiar nisso — Artur interrompeu o trabalho e encarou o companheiro —. Não duvido da lealdade deles, não questiono que são homens corajosos e de coração disposto, mas quando vieram poderá ser tarde demais, não acha? Frederico deve estar planejando coisas terríveis e nós precisamos estar preparados!
— Comecem sua preparação tomando cuidado para que não sejam ouvidos às escondidas — surgindo do mato, Sebastião se manifestou com a face perversa, mordiscando o capim que se agitava no canto da boca —. Acham mesmo que depois de toda essa maldita e louca conspiração nós não estamos preparados para surpreendê-los terrivelmente? Podem ter vencido uma pequena e simples batalha, confesso que negligenciamos precaução e subestimamos a capacidade de vermes como vocês, mas a guerra é nossa, de nossas mãos ninguém a tira!
— Eu deveria tê-lo matado! — sendo dominado por toda a raiva que o capanga despertava em seu ser, relembrando os tristes e revoltantes fatos que o levaram a enfrentar o homem ordinário, Artur confrontou-o com a verdade, seu olhar severo confirmava a fúria das palavras —. Deixei-me levar pela humanidade que possuo e não fiz o que precisava ser feito!
— Humanidade? — Sebastião riu irônico —. Agora é essa a palavra que devemos usar para covardia? Você não foi humano, não passa de um animal nojento, você foi um covarde ao dar ouvidos a bons discursos, palavras vazias que não levam a nenhum lugar!
— Entre nós só há um covarde miserável: você! Se ensoberbeceu tanto, busca por tantas grandezas, quer ser visto com um sujeito poderoso e imbatível, mas não passa de um capacho, o tapete que Frederico usa para limpar os pés!
— Tome cuidado com o que fala! — engrossou a voz.
— Além do mais, rebaixando o meu povo ao pó da terra, revelou-se um grande hipócrita quando buscou realizar seus prazeres malditos em uma negra! — avançou alguns lentos passos confrontando o capanga com o olhar inflexível —. Como é isso, Sebastião? Como é saber que foi dentre os que você diz rejeitar que seus desejos se afloraram?
— Você é um desgraçado! — Sebastião ergueu a mão, dirigiu-a a face do escravo, mas este conteve-o pelo pulso pressionando-o fortemente.
— Sou eu o desgraçado? — ignorando os pedidos de Bruno para que se acalmasse, o rapaz aumentou a força contra o braço do inimigo —. Você humilhou a minha mãe, destrata a mulher que eu amo, inferniza o meu povo e ainda diz que sou eu o desgraçado? — ágil, agarrou o pescoço de Sebastião sendo resistente às agressões que recebia e se ensurdecendo pelas súplicas de Bruno —. Daquela vez fiquei próximo o bastante de matá-lo, mas agora não sei se estou com a mesma misericórdia — sentiu satisfação ao encarar os olhos desesperados do opositor que, sem ar, sentia o pavor de estar face a face com a morte —. Suma da minha frente — soltou o capataz ao ouvir cavalos se aproximando —. Pense bem antes de se colocar no meu caminho, não estou disposto a poupá-lo, não mais!
Para o espanto de Bruno, Artur se revelava um destemido revolucionário. Para a ira de Sebastião, Artur se mostrava um rebelde inconsequente que precisava ser parado.

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Atormentado por um passado que não soube superar e pelas consequências que gritavam aos seus ouvidos o quanto ele era frustrado e fracassado, Frederico se virava de um lado para o outro na cama, mas não conseguia adormecer pensando na única mulher que amara, na oportunidade que teve para ser feliz ou ao menos permitir que outros fossem felizes honrando, assim, o que um dia foi capaz de sentir.
Mas não queria conviver com culpas, não queria se arrepender das escolhas que fizera a partir do momento no qual perdera o seu grande amor perante os próprios olhos, não queria se considerar um egoísta derrotado por, ao invés de ignorar os discursos cruéis, tê-los cumprido e seguido assiduamente.
Exigiu que trouxessem Adelaide à sua presença.
Querendo se libertar das confusões que atormentavam sua mente, agiria com a maldade que sempre o fez se sentir forte, capaz de ter a quem quisesse em suas mãos, capaz de fazer sofrer como um dia sofreu.

Rendidos à noite de descanso, os escravos se intrigaram quando homens adentraram a senzala sem qualquer cerimônia, exigindo que Adelaide se apresentasse e fosse com eles até o barão. A mulher prontamente atendeu, queria evitar problemas, sentia que sua relutância custaria caro.
— O senhor deseja alguma coisa? — adentrando o quarto do poderoso homem, a escrava o encontrou lendo um livro acompanhado pelo lampião que repousava sobre o criado-mudo.
— Você chegou — sorrindo gentilmente, gesto capaz de despertar medo e desconfiança, Frederico fechou o livro, repousou-o ao lado do lampião e deu alguns tapinhas no lado da cama que Laís por tantos anos ocupara sem que tivesse vontade —. Sente-se. O que desejo é que tenhamos uma conversa.
Receosa, imaginando o que a levara aquele lugar, a mulher caminhou hesitante em direção ao barão, suplicou que nada acontecesse, que não precisasse suportar humilhações.
— Não tenha medo — incomodado pela lentidão de Adelaide, o homem imprevisível puxou-a para a cama —. A pior emoção que podemos experimentar é o medo. Ele nos apavora, aumenta a proporção das coisas, faz com que a dor pareça o começo da morte — levou o dedo repulsivo à face da escrava —. Mas quando passamos a encarar as coisas destemidamente percebemos que tudo passa, que a dor é momentânea, que o desconforto é passageiro e que não precisávamos relutar tanto contra aquilo que é sim suportável — levou os lábios desagradáveis ao pescoço da mulher —. Não relute — sussurrou —. Verá o quanto será rápido!
Farta de ser um mero objeto em mãos de homens perversos como aquele, Adelaide tentou se mover a fim de se afastar, mas as mãos fortes e impiedosas do barão a forçaram a parar.
— Relaxe... — rasgou os vestidos da mulher —. Sabe que de nada adiantará relutar, então para quê dificultar as coisas? — tentou beijar os lábios da vítima que detinha —. Você precisa me ouvir, para o seu bem...
— Chega! — vestindo-se de espantosa coragem, a escrava agrediu o rosto de Frederico —. Estou farta dessas humilhações! Estou cansada da sua maldade!
— Vou ignorar sua insanidade — tornou a se aproximar da mulher, mas recebeu outro tapa.
— Deixe-me em paz! — tentou se levantar.
— Sua ordinária! — bradando, o barão não poupou forças ao agredir a face de Adelaide e imobilizá-la entre os lençóis —. Eu tentei ser cordial, mas se você prefere ir pelo caminho mais árduo, eu atenderei sua vontade!
— Deixe-a em paz! — Artur derrubou a porta surpreendendo com sua aparição —. Você não ouviu o que ela disse? — como se não pensasse nas próprias ações, agarrou o barão lançando-o para fora da cama —. Se está surdo serei gentil o bastante para abrir os seus ouvidos! — dominando Frederico sobre o chão, começou a agredi-lo no rosto sem se importar com as mãos que se avermelhavam ou com os gritos da mãe para que recobrasse a consciência.
Descontrolado, sedento por justiça, assustando o inimigo com sua força, Artur ergueu-o do chão, levou-o até à varanda do quarto, revelou sua intenção.
— Considera-se tão imbatível, tão poderoso, como se fosse um deus! — forçou a homem que odiava a olhar para baixo —. Vamos ver se é mesmo tão invencível! Voe se for capaz! — vociferou.
Suplicando para que o filho não cometesse nenhuma loucura, Adelaide se viu sem opções, antes que o barão fosse lançado a metros de distância do chão, revelou a verdade:
— Artur, não cometa esse pecado, ele é o seu pai! — falou com dor, com pesar, com grande lamento.


Continua...


##
No próximo capítulo:

— Diga que é mentira — suplicou com os olhos lacrimejados —. Sei que não é isso o que quer para mim, que eu me transforme em um justiceiro sanguinário, apenas diga que inventou essa desculpa para que eu parasse... — avançou desesperado aos braços da mãe —. Você precisa falar que é mentira!

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