[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 72 - Insegurança
Capítulo 72 – Insegurança
Aproximadamente 2 anos antes...
A província de
São Pedro era dona de um invejável litoral, a talentosa natureza ofertava aos
homens uma de suas melhores obras, um cenário paradisíaco que somente ela
conseguia proporcionar, a paisagem que era vendida ao exterior sem eufemismos e
atraía a muitos que queriam prosperar.
Na orla da
praia, aqueles que possuíam a rara e tão cobiçada liberdade, passavam horas
apreciando a imagem que enchia seus olhos, embalados pelo contato tão sereno e
suave com a natureza sonhavam o futuro, se possuíam problemas esqueciam-se
deles, encontravam paz no contato com o mar.
Paz que o jovem
Pedro sempre encontrou.
Desde que a mãe
partira, sentindo a saudade aumentar a cada dia, Pedro não deixara o hábito que
cultivava com a doce mulher, continuava frequentando a praia sempre cheia,
observando do navio que era de sua família a chegada de europeus e africanos,
conseguia distinguir o contentamento dos primeiros e o desespero dos segundos.
Assistia à exportação das mercadorias que deixavam São Pedro e sumiam pelo
horizonte. Insistindo naquela rotina se sentia mais perto da mãe, alguém que
jamais deixaria seus intentos, por quem nunca deixaria de sentir amor.
Desamparado pela
estimada companheira, Pedro passou a convidar o amigo de infância a acompanhá-lo
naqueles instantes de solidão, quando refletia sobre tantas coisas, inspirava-se
para os seus textos e alcançava paz para uma alma aflita não apenas pela dor da
perda, mas também por acobertar um segredo que o impedia de ser quem era.
— Pensando nela?
— Bruno aprendera a conhecer o velho amigo, conhecia até mesmo o seu silêncio,
respeitava o momento, mas naquele dia, sentado junto a Pedro na proa do navio,
ofereceu-se a ouvir possíveis desabafos.
— Sim — saindo
dos devaneios, retornando à realidade por vezes dura demais à fragilidade
humana, Pedro piscou os olhos, vestiu-se de um sorriso desanimado, fingiu que
não sentia saudades, que não sofria por aquela separação tão precoce, era em
muito angustiante.
— Eu entendo que
seja difícil e que tenha momentos nos quais deseje chorar, é natural, perder a
quem amamos é uma dor que só se cura quando seguimos em frente procurando por
outras maneiras de amar, sorrir e viver — sábio, Bruno aconselhou o que sentia.
— É complicado
continuar — com os olhos avermelhados, cheios de lágrimas que a intensa
amargura da saudade é capaz de causar, o rapaz enlutado precisou forçar a voz
embargada, sua garganta parecia densa, sufocada, carregada por tantas lamúrias
—. Estávamos sempre juntos, compartilhávamos tantos bons momentos, mas agora
tudo não passa de simples recordações, lembranças que nunca mais se
repetirão... — a lágrima escorreu —. Precisava dela ao meu lado, agora mais do
que em qualquer outra hora, precisava de sua voz anunciando que ficaria tudo
bem, que seríamos muitos felizes, que a vida seria vivida da melhor maneira —
precisou levar as mãos aos olhos, tentou conter o choro que não mais pôde
segurar —. Mas tudo que tenho é silêncio, um estrondoso e angustiante silêncio.
Capaz de se
compadecer por aquele que tinha como amigo, mais do que amigo, um alguém que
não queria perder, por quem sentia grande carinho e apreço, Bruno colocou a mão
sobre o joelho do outro em uma demonstração de apoio e compreensão.
— Ela se foi,
seu lugar será insubstituível, mas outras pessoas chegarão e como você confiava
em sua mãe poderá confiar nelas também, precisa se permitir a isso para que
supere tantas dores...
Levando o olhar
ofuscado àquele com quem possuía uma história de diversões e alegrias, Pedro
sentiu o involuntário agitar de seu coração encarando as íris que se misturavam
ao céu azulado, sentimento que outras vezes despertara em seu ser e que por
isso o deixava cada vez mais confuso quanto a quem era e ao que desejava.
Acatou as palavras que ouvira, conseguira falar sobre a mãe, conseguiria também
falar sobre o próprio coração.
— Eu não sei ao
certo como dizer isso, não consigo nem mesmo imaginar qual será a sua reação,
mas se é para confiar naqueles que estão ao meu lado ninguém melhor do que
aquele que há tempos conheço para ouvir o que preciso confessar, alguém que
talvez me ajude... — não conseguiu manter a conexão dos olhares, precisou
voltar-se ao horizonte que apresentava aos seus espectadores o descansar do sol
—. Eu gosto de você — apertou os dedos apreensivo, era por aquilo que mais do
que nunca precisava da mãe ao seu lado, ela saberia como acolhê-lo, como
ouvi-lo e aceitá-lo —, mas não é como um simples amigo... — declarou-se.
Ao ouvir tão
transformadora declaração, Bruno também se voltou à vista do horizonte,
enquanto digeria as palavras que ouvira percebeu que Pedro o encarava desejoso
por alguma resposta.
— Eu sei... —
abriu um sorriso abobado —. Sei porque também sinto isso — tímido, abaixou os
olhos, viu os dedos se agitarem.
Tantos meses depois, meses de um distanciamento
desagradável e de um silêncio malquisto, aqueles que cresceram juntos e
descobriram os enigmas do coração ao mesmo tempo voltaram ao navio no qual
tantas conversas jogaram fora, tantos receios desabafaram e tantos planos
construíram acreditando num futuro possível de desfrutar.
Mas não eram mais os mesmos.
Algo diferente se colocava entre eles.
— E, então? — arisco, mantendo confortável distância
daquele que um dia confessou não querer perder, Bruno dirigiu suas palavras —.
O que de tão importante precisa falar?
— Eu entendo que esteja desconfiado, não agi com
maturidade e me escondi atrás de uma carta, mas eu estava inseguro, indeciso,
precisava proteger os escravos pelos quais lutei para que meu pai concedesse um
pouco de dignidade, mais que isso, precisava proteger você de decepções maiores
ou ameaças letais — sincero em seus dizeres, Pedro encarava o ouvinte sem
vacilar nem um instante, precisava convencê-lo, conquistá-lo outra vez —.
Pessoalmente eu não conseguiria dizer o que precisava, iria me render, tornaria
as coisas ainda piores.
— Pensei que fôssemos lutar juntos, que teríamos
cada conquista juntos, você assegurou isso, eu prometi que assim seria, mas no
primeiro obstáculo se acovardou — seus sentimentos eram grandiosos por aquele
que estimava, as palavras ásperas apenas refletiam o proporcional tamanho da
frustração, da incerteza quanto à veracidade do discurso propagado —. Como
posso acreditar em você? Dificuldades maiores se apresentarão, fugirá quantas
vezes?
— Compreendo que errei, mas como disse, sentia-me
apavorado, sem saber como agir, minhas ações tiveram apenas um propósito:
proteger todos que amo. Mas agora, agora que sei que posso lutar, que posso
contar com a aceitação do meu pai, que posso desprezar toda essa sociedade
hipócrita, sinto-me capaz de lutar, pronto a vencer, valente por viver o futuro
que tanto almejamos! — acolheu as mãos que há muito não tocava, encurtou a
distância que aos que se gostavam mais parecia um abismo.
Mas Bruno retrocedeu.
Sem declarar palavra alguma deu às costas.
— Você me disse que para seguir em frente deveria
procurar outras maneiras de amar, sorrir e viver... — interrompeu os passos do
amado ao soar das expressões —. Encontrei em você essas outras maneiras para
amar, ter motivos a sorrir e razão pela qual viver. Não tire isso de mim. Dói
perder quem amamos...
Bruno fechou os olhos ainda de costas ao falante,
seu desejo era por se render ao que sentia, tornar a sentir de perto aquele que
possuía o seu coração, mas não o fez, antes correu, apressou-se nos próprios
passos, estava confuso, aturdido, precisava de um tempo que lhe devolvesse a
paz.
¤
Reviravoltas, costumeiramente, acontecem e nos
transformam, mas e quando elas revelam que nossas vidas não eram nada do que
acreditávamos? Que vivemos uma ilusão? Grandes mentiras?
— Não fale bobagens — incrédula, Sara respondeu à
revelação —. Pode dizer que me considera como filha, eu aceitaria tê-la como
mãe, mas não me machuque dizendo que por todos esses anos estive ao lado da
pessoa que mais desejava conhecer sem ter o direito de me refugiar em seus
braços! — os olhos se encharcaram, o coração acelerava no peito apertado.
Continua...
##
No próximo capítulo:
— Tudo de bom
— desenhou na face o desconsolado sorriso —. Era o homem que meu coração
escolheu para amar, o homem que agitava minha alma através de seus nobres
versejares, o homem que atraía para si os meus mais intensos desejos, o homem
que nunca deixarei de amar... — as lágrimas se juntaram espontaneamente, caíram
sem que a baronesa pudesse contê-las —. Agora entendo que quando o sentimento é
verdadeiro nem a morte pode detê-lo.
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