[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 85 - O Improvável
Capítulo 85 – O
Improvável
Das mais improváveis alianças é possível alimentar
as mais poderosas forças que são usadas no combate contra o inimigo, quando
opositores se unem a guerra é ameaçada pelo seu fim, a paz pode retornar
através das mais impensáveis ligações.
— Fico feliz que tenham revisto seus pensamentos e
atitudes, que finalmente tenham compreendido o quão insanos podemos ser ao
tratar nossos iguais com leviandade, contento-me por ver desabrochar a
humanidade que sempre esteve em seus corações, mas que foi sufocada por
pedregulhos robustos, discursos maldosos — Pedro, que jamais se ausentaria da
província, que não se intimidaria pelas ameaças de forças perversas, discursava
diante de homens convertidos, aqueles que naquela noite agitada encontraram os
fugitivos na estrada e foram convencidos a mudar de postura perante palavras
tão certeiras e verdadeiras —. Mas não basta apenas mudar de pensamento e se
envergonhar pelos atos passados, é necessário desenvolver novos gestos, é
preciso expressar as novas ideias, devemos lutar pelos ideais nos quais
passamos a acreditar quando nossa consciência foi libertada das amarras de
tradições injustas e preconceitos ignorantes! É hora de lutarmos pela nossa
igualdade, por liberdade aos nossos irmãos, pela nossa própria liberdade, que
deixemos de ser marionetes em mãos de sujeitos ardilosos, gananciosos e
depravados!
Realizado o discurso que anunciava batalhas
importantes pelos próximos dias, Pedro foi aplaudido pelos homens arrependidos
de suas antigas ações, esclarecidos quanto à complexidade e a beleza da vida
que, para ser vivida, não depende do sucesso de poucos em detrimento do
sacrifício de muitos.
Egídio, que acompanhava o filho naquela reunião,
orgulhou-se pelo rapaz que criara, via muito de sua esposa nele, a mesma valentia
e o mesmo desejo por mudar o mundo, fazer dele um lugar agradável a todas as
pessoas.
Heitor, que se juntara ao grupo, elogiou o jovem
pelas palavras que davam início à revolução, que abriam portas para a
transformação.
— Meus amigos, como em todas as batalhas, precisamos
montar estratégias, pensar em todos os infortúnios que possam nos confrontar,
numa guerra jamais podemos contar com a sorte — colocou-se diante de todos —.
Nosso primeiro passo nesse movimento que trará ares frescos será destruir a
tirania de Frederico, libertar aqueles que ainda padecem em suas mãos,
atacando-o e derrotando-o nossos próximos passos serão mais fortes, traremos
dignidade à São Pedro e, quem sabe, ao pais! — alimentou o desejo por uma
mudança que teria potencial para proporções assustadoras —. Peço a atenção de
todos, tenho um plano em mente.
A liberdade seria alcançada.
Com ou sem derramamento de sangue.
A liberdade seria alcançada.
¤
Logo pela manhã, quando os escravos já estavam em
seus rotineiros e árduos afazeres, Frederico voltou à masmorra acompanhado por
Sebastião. Encontrando Bruno adormecido ao lado da solitária, chutou suas
pernas para que despertasse e libertou o Protetor do cômodo terrivelmente
desconfortável.
— Espero que tenham usado essa noite para pensar em
seus atos enlouquecidos e aprender que não se deve levantar contra aqueles que
são mais fortes do que vocês — o barão disse —. Solte-os, trabalharão com os
outros escravos, precisam me compensar pelas perdas e infelicidade que tive
nessa última investida, a que me marcará por algum tempo, mas que os ferirá
muito mais!
— Mas senhor — o capanga protestou, pensou que os
prisioneiros experimentariam dores maiores, principalmente Bruno, seu maior
desafeto —. Não acha que eles devam ser castigados para que nem ao menos pensem
em repetir seus comportamentos? E quanto a esse traidor? Ele riu em suas
costas!
— Está querendo me ensinar como devo tratar os meus
inimigos? — calou Sebastião que não ousou responder —. Obedeça o que falei, é
para isso que está aqui!
Contrariado, o capanga se vestiu de subserviência
embora seus intentos se voltassem à destruição do poderoso homem. Ele o
invejava, queria suas posses, sua importância, suportando as humilhações por um
pouco mais de tempo logo alcançaria seu avarento desejo.
¤
Por volta do meio-dia, sendo incomodado pelas
lembranças do passado que foram trazidas à tona pelo sonho da última noite,
Frederico chegou à cidade montado em seu cavalo, sendo cumprimentado por
aqueles que o conheciam e por aqueles que apenas o respeitavam como uma
importante autoridade. Acomodou o animal em frente à igreja, fez o sinal da
cruz antes de entrar no prédio sagrado, fechou as portas às suas costas tão
logo pisara no templo religioso.
Rezando diante do crucifixo que enfeitava o altar, o
padre Miguel cessou suas súplicas ao ouvir as portas se fechando, virou-se para
trás e não conteve o espanto quando seus olhos contemplaram a mais indesejável
e desagradável das faces.
— O que faz aqui? — colocou-se em pé encarando o
barão.
— Não posso frequentar a casa de meu pai? — a cínica
voz de Frederico ecoou pelo lugar que perdera a característica pacífica quando
sua presença ali se fez notável —. Também fui batizado, fui criado aqui dentro,
tenho o direito de me prostrar perante a santidade, não acha?
— Teria todo o direito se fosse puro de mão e limpo
de coração. No entanto, suas mãos carregam açoites que acabam com vidas e seu
coração é dominado por desejos nefastos e desumanos. Não é digno de estar
perante a santidade! — destemido, o religioso confrontou o sujeito que o
observava em um silêncio intrigante.
— Você é um péssimo padre, negando o pão a quem mais
precisa? — sentou-se em um dos bancos da igreja, manteve o gélido e traiçoeiro
olhar sobre o padre —. Como diz mesmo aquela passagem? Ah! Sim! Setenta vezes
sete ao seu irmão perdoe. Sugiro que reconsidere o cargo que ocupa, não acho
que esteja em condições de exercê-lo, na verdade nunca pensei que esteve. Mas o
que eu poderia fazer? Levantar-me contra um mortal que idiotas acreditam ser o
mensageiro dos céus? — sorriu debochado —. Eu não seria tão louco. Mas agora
posso acabar com a sua imagem santificada, com a sua hipocrisia nojenta, acha
que sociedade seria capaz de aceitar um padre que casa uma branca e um negro?
Você não me perdoou, padre, você me apunhalou!
Ouvindo tais palavras, compreendendo o que levara um
homem tão vazio de Deus ir ao lugar de adoração e súplica, o padre Miguel não
se mostrou abalado, mas em seu coração a angústia se manifestou, não pela sua
carne, pela vida que estava cada vez mais próxima do fim, mas por aqueles que
foram descobertos, que ainda tinham um futuro pela frente desde que não fossem
inibidos dele.
— Sua hipocrisia me diverte. Usa as passagens
sagradas com o propósito de justificar a sua maldade e atacar um homem que
apenas busca cumprir o que está escrito: amar ao seu próximo! Ana e Artur se
amam, sentimento que você teve a chance de viver, lembro-me perfeitamente de
quando conversou com o antigo padre desabafando que seu grande amor fora
destruído. Ele o aconselhou para que seguisse em frente à busca de novas
possibilidades, mas preferiu dar ouvidos ao que disse seu pai, preferiu
acreditar na monstruosidade de discursos que o fizeram crer na inferioridade de
um povo no qual encontrou alguém que por um tempo foi o motivo da sua
felicidade. Você culpou as pessoas erradas pelo que lhe ocorrera e ainda as
culpa, mas a culpa é sua, teve a chance de ser livre, mas se acorrentou nas mentiras
de um homem que nem existe mais!
— O que você queria que eu fizesse?! — incomodado
pela verdade expressa, o barão se levantou, avançou contra o religioso,
conteve-o o pelo braço —. Apanhei, fui torturado, passei dias e noites sem
contemplar a luz do sol e o brilho das estrelas, passei fome! Eu precisava
sobreviver! — pela primeira vez, depois de tantos anos, o rosto de Frederico
foi molhado por uma lágrima pesada.
— E decidiu fazer o mesmo com inocentes? Ainda
escolhe privar as pessoas de viverem aquilo que você se privou de viver e sabe
o quanto é doloroso?
— Eu não me privei! Impediram a mim! Mataram a
mulher que eu amei! Como pode dizer que a culpa é minha?
— Existiam outros amores à sua espera, mas você
preferiu andar pelas sombras... Redima-se consigo mesmo libertando os cativos,
concedendo o direito de amar àqueles que você tanto aprisiona e faz sofrer...
Enxugando os próprios olhos, desconhecendo a si
mesmo, Frederico não disse mais nada, deu às costas ao bom homem, seguiu o seu
caminho cheio de confusão, de pensamentos alvoroçados que o assustavam,
assustava-se por começar a se arrepender.
##
No próximo capítulo:
— Sou eu o
desgraçado? — ignorando os pedidos de Bruno para que se acalmasse, o rapaz
aumentou a força contra o braço do inimigo —. Você humilhou a minha mãe,
destrata a mulher que eu amo, inferniza o meu povo e ainda diz que sou eu o
desgraçado? — ágil, agarrou o pescoço de Sebastião sendo resistente às
agressões que recebia e se ensurdecendo pelas súplicas de Bruno —. Daquela vez
fiquei próximo o bastante de matá-lo, mas agora não sei se estou com a mesma
misericórdia — sentiu satisfação ao encarar os olhos desesperados do opositor
que, sem ar, sentia o pavor de estar face a face com a morte —. Suma da minha
frente — soltou o capataz ao ouvir cavalos se aproximando —. Pense bem antes de
se colocar no meu caminho, não estou disposto a poupá-lo, não mais!
De segunda a sexta, aqui no blog!
Livros
gratuitos:
Encontre
o blog pelas redes sociais:
Obrigado
pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários
Enviar um comentário
Não deixe de expressar sua opinião, ela é muito importante!