[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 74 - Transformar a Realidade
Capítulo 74 – Transformar a Realidade
Ninguém muda a realidade se não lutar por isso, se
não resistir aos obstáculos que se apresentarão, se não persistir em meio às
dores que emergem quando se decide remar contra a maré, andar no sentido
contrário ao da multidão. Ninguém muda a realidade apenas desejando, sonhando
ou planejando, só muda a realidade aquele que age por mudá-la.
Os escravos dançavam. A dança da liberdade. A dança
da luta que os ajudaria na transformação que tanto almejavam. Seus corpos
suavam, mas mesmo depois de um dia árduo de trabalho, mesmo com o inverno que
soprava sobre suas peles, eles encontravam energia na esperança do porvir e não
poupavam forças a fim de se preparem para a grande batalha que anunciava sua
chegada.
A senzala era tomada pela capoeira.
O ritmo da resistência. O anúncio da salvação.
Exaurido, sentindo o sangue correr e o coração
pulsar mais forte, ofegante e limpando o suor que escorria do pescoço, Artur se
sentou no toco de madeira que tantas vezes visitara, dele observava o céu,
contava as estrelas e lançava suas súplicas. Era em momentos como aquele, de
silêncio e reflexão, que renovava o espírito.
— Não acha que está frio? — Adelaide, trazendo
consigo uma manta, cobriu o filho e se sentou ao seu lado como em tantas noites
fizera.
— Quem é que se preocupa com o frio vivendo esse
inferno? — dirigindo o sorriso desanimado à mãe, o jovem escravo comentou —.
Não vejo a hora de arrebentarmos esses portões e corrermos livremente rumo ao
que tanto aguardamos. Não acha que estamos mais bem preparados?
— Sabe que acho essa ideia uma loucura, que sinto
medo pelos perigos que representa, mas devo confessar que tem feito um bom
trabalho, todos se engajaram no propósito, voltaram a acreditar e parecem
verdadeiros guerreiros — acariciava o rosto do rapaz —. Apenas quero que se
cuide, não pode perder a vida, não pode se machucar mais do que aguentaria.
— Fique tranquila, seu filho cresceu, não é mais
aquele menino que se escondia em suas pernas quando aconteciam rebeliões, agora
é ele quem as incentiva — as íris castanhas, iluminadas pelo luar, refletiram o
brilho da fé, da certeza na vitória —. Ana me disse que pessoas na cidade estão
se dispondo a nos ajudar, em poucas semanas estaremos livres de todo esse
tormento, livres para redesenhar o horizonte!
— Se me dissessem que você e Ana viveriam um amor
tão forte e desafiador eu não acreditaria, até zombaria do sonhador, mas veja
só, não apenas se amam como estão dispostos a lutar do mesmo lado... O amor é
mesmo algo inexplicável...
— Talvez o amor seja a minha maior motivação por
transformar nossa realidade, quero ser livre para vivê-lo, quero que todos
tenham a liberdade de senti-lo e demonstrá-lo ao mundo... — o olhar sonhador se
dirigiu ao céu —. Não há coisa melhor...
— Torço muito por vocês, meu querido, quero que
desfrutem de toda a felicidade possível — carinhosa, trouxe a cabeça do jovem
escravo para o seu ombro, acolheu as mãos que há alguns anos atrás eram menores
do que as suas, imitou o gesto de tantas noites como aquela —. Não importa o
que aconteça, Artur, não importa o que sobrevenha a vocês, não permita que esse
amor morra, não se prive do que de melhor poderá viver, lute até o fim por esse
tesouro tão raro e inestimável...
— Jamais deixarei que meus sentimentos se esfriem,
acredito que seria impossível, mas por que diz isso? — ergueu os olhos curiosos
ao rosto da mãe, comportamento que possuía desde criança, quando em momentos
similares fazia suas perguntas criativas e elevava o olhar ansioso por
respostas ao semblante que lhe transmitia segurança.
— Somos frágeis nesse mundo tão complexo, por mais
que tenhamos cada passo cuidadosamente calculado nunca sabemos com exatidão
onde é que estamos pisando, reviravoltas acontecem, diversidades nos assustam —
como de costume, Adelaide abaixou os olhos à face intrigada, acariciou os
cachos que não desapareceram com o tempo, ofertou seus conhecidos gestos
maternais —. O importante é que não percamos o nosso foco e sempre o
persigamos. Não importa o que aconteça, lute por você, por sua felicidade, lute
por tudo aquilo que o fará feliz... — a escrava não conseguia entender, mas
sentia em seu coração que aquelas palavras eram necessárias, que o filho amado
precisava daquele conselho e ela não poderia negá-lo.
¤
O vento matutino convidava as copas das árvores a
dançarem incansáveis e incentivava que os jovens apaixonados, sentados na beira
do riacho, mantivessem-se aninhados um ao outro, aquecendo-se, compartilhando
do agradável calor que mutuamente era ofertado. As mãos se encaixavam enquanto
os rostos se tocavam e os corações se sentiam abrasados naquela tão íntima e
agradável aproximação.
— E esse frio que não termina? — Artur reclamava do
inverno, não era sua estação preferida, a única vantagem era que depois de um
tempo ajudava na execução das muitas tarefas.
— Não posso reclamar, adoraria que durasse para
sempre para que ficássemos assim eternamente... — apaixonada, sempre
valorizando os mínimos gestos, Ana demonstrou o quanto apreciava sentir seu
grande amor tão perto de si —. Na verdade tenho uma ressalva a fazer, ele não
tem tanta graça quanto teria se em todas as noites frias eu pudesse contar com
a sua companhia ao meu lado, com o seu abraço apertado, com a sua presença
capaz de afastar o vazio do inverno...
— Chegará o dia no qual teremos essa oportunidade e
aí eu desejarei que a noite nunca acabe para que possamos ficar juntinhos o
máximo possível — constantemente romântico, incansável em suas demonstrações
afetivas, o jovem rapaz beijou o rosto da tão amada namorada, um beijo sutil ao
mesmo tempo em que profundo —. Mal posso esperar pelas manhãs que acordarei e
minha primeira visão será a de uma donzela encantadora.
— Caro cavalheiro, não se entusiasme tanto, durante
a noite meus cabelos criam vida e despertam assustadoramente animados, talvez
seus olhos se assustem com tamanha animação...
— Minha dama, não queira usar de modéstias, não
precisa fazê-lo, não importa como seus cabelos despertem, nem se seu rosto
estará repleto de marcas robustas, meu coração não se importa com essas
simplicidades, importa-se apenas em bater junto ao seu...
Não aguentaram. Falando como integrantes da realeza
e se inspirando na forma como tantos poetas brincam com as palavras, o jovem
casal se divertiu, gargalhou, sentiam-se felizes e em paz quando estavam
juntos, livres para sorrir.
— Você me ama? — tão de repente, inesperadamente,
Ana repetiu a pergunta que outras vezes fizera intrigando o rendido admirador.
— Como meu bem mais precioso — acariciando o rosto
sereno, Artur deu a sincera e genuína resposta.
— Não o terei mais como namorado, nem você me
chamará apenas de namorada, seremos marido e mulher, seremos eternamente
unidos, o nosso casamento acontecerá amanhã! — animada pelo anúncio, a jovem
mulher sorria largamente.
— Isso é verdade? — espantado, o jovem escravo
precisou ter certeza do que ouvira.
— Sim! — respondeu entusiasmada.
Emocionado, vendo a realização de um sonho, a
concretização de tantas idealizações, Artur abraçou a futura esposa, não
conteve o choro de alegria, daria a explicação:
— Se você conseguisse mensurar a felicidade aqui
dentro — colocou a mão da amada em seu peito, o coração pulsava com energia,
era o resultado do contentamento —. Sempre duvidei que seríamos capazes de
viver nossos planos, mas o amor sempre dá um jeito de acontecer, por mais que
tentem sufocá-lo ele resiste e transforma a realidade... Essas lágrimas não
poderiam ser por outro motivo senão pelo que está me proporcionando — os olhos
reluziam, o semblante parecia com o de um menino que faz grandes conquistas —.
Por sua causa me sinto humano!
Tocada por tais palavras, vivendo o que também
ansiou por muito tempo, Ana trouxe o amado para si em um abraço repleto de
sentimento, um abraço intensificado pela paixão que alimentou tantos intentos e
pelo amor que agora os tornava possíveis.
— Eu te amo muito — a moça falou com o coração.
Artur a beijou.
Romanticamente apaixonado.
Mas nossos inimigos estão sempre à espreita e se nós
buscamos pela transformação eles também a cobiçam na intenção de se tornarem
donos da nova realidade.
Sebastião estava mais perto do que imaginavam.
Sentindo que seus dias de desaparecido foram o
bastante, o capanga retornou à fazenda usando de discrição, ninguém o percebia,
mas a tantos vigiava. Sabia que o casal rendido ao amor se encontrava todas as
manhãs à beira do riacho, na intenção de ouvir o que tramavam se escondeu na
copa de uma robusta árvore, ouviu as declarações apaixonadas, revirou os olhos
quando palavras melosas foram expressadas, mas abriu um sorriso perverso quando
descobriu sobre o casamento.
“Isso, rendam-se à loucura, acreditem que estão
seguros para cometerem insanidades, embriagarem-se com sua rebeldia e se
anestesiem com seus sentimentos inúteis. Concedam forças aos que os odeiam!”.
Foi o seu doentio pensamento.
##
No próximo capítulo:
A prova de que
o amor é em muito imenso à nossa compreensão é o fato desses dois jovens não
terem sucumbido aos perigos e, desafiando a morte, estarem oficializando o que
sentem. Que esse amor poderoso nos alcance e encoraje!
De segunda a sexta, aqui no blog!
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pela companhia, um forte abraço e até logo!

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