[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 83 - Traidor


Capítulo 83 – Traidor

Com todo o horror instaurado no terreiro, com tantos corações feridos e dilacerados, era possível ver o amor persistir para curar, para sarar, para aliviar todo e qualquer incômodo. Cauteloso, tomando o cuidado necessário para evitar mais dores em quem amava, Artur desamarrou as mãos presas ao tronco, acolheu o corpo desfalecido em seus braços, levou Ana à senzala, aonde foi acompanhado pelos escravos que restaram, pela mãe e pela sogra, aonde um sujeito atordoado esperava por eles.
— Onde estão os outros?! — Frederico esbravejou, finalmente descobrira que só fora capaz de evitar parte do plano, sua capacidade limitada não alcançou prever tão desagradável surpresa.
Ninguém respondeu, ninguém queria dirigir palavra ao monstro que feria a própria esposa, que desumanizava a própria filha e tratava com  maldade aqueles que nada lhe deviam.
— Eu fiz uma pergunta! — avançou contra Artur, mas Laís se colocou entre eles —. Fez parte dessa loucura? É participante dessa traição?! — questionou irritado.
— Não foi loucura nem uma traição, foi apenas o resultado de anos de injustiça, anos de uma dor insuportável que muitos precisaram aguentar, mas que já não aguentam — a baronesa respondeu —. A cada dia você se revela um desalmado, um sujeito mesquinho que não possui humanidade. Olhe para Ana! Olhe o resultado da sua insanidade! Até quando punirá as pessoas pelas suas insuficiências? Até quando fará o mal por não ser feliz? Até quando jogará a culpa da sua covardia nas costas dos outros?
Um tapa.
Laís virou o rosto avermelhado, sentia o calor da agressão.
— Já que os defende tanto, trabalhe com eles! — deu o veredito —. Trabalharão dobrado! — vociferou —. Terão que compensar a ausência daqueles imprestáveis! Meus homens estarão muito mais espertos de agora em diante, quem tentar fugir será morto e terá a cabeça arrancada! — saiu acompanhado pela grande revolta, deixando o sofrimento que sempre causou.

Amoroso, sentindo o coração sangrar pelas cenas que se repetiam incansáveis aos seus olhos, Artur passava com cuidado o óleo sobre as feridas de Ana. Seus toques eram singelos, cheios de sutileza, lágrimas pingavam sobre a pele fragilizada e se misturavam ao produto que ajudava na recuperação.
Voltando à consciência, sentindo peso nas pernas, cansaço no corpo, Ana se lembrou dos últimos acontecimentos ao experimentar a ardência nas costas, não tinha forças nem para resmungar, apenas chorava involuntariamente.
Percebendo que a esposa retornara do desmaio, o jovem rapaz acariciou o rosto suave cheio de ternura, colhia as lágrimas que por ele desfilavam, acariciava na intenção de afastar a dor.
— Meu amor... — a voz batalhava contra o choro, a garganta era sufocada pelo imenso pesar que sobre sua alma caía —. Perdoe-me... Não tive escolha, não queria que morresse, perdoe-me...
— Artur... — a mulher enfraquecida sussurrou, não tinha forças para fazer soar o som que enfeitiçava seu ouvinte —. Não quero que se martirize, que encha sua cabeça com sentimentos de culpa, nem que aja sob mágoas rancorosas... Sei que nunca seria sua intenção me machucar, sei que só fez isso para me livrar de uma mente doente, inescrupulosa, irracional... Posso estar marcada, mas não me revolto, estou marcada simplesmente porque amei, amo e amarei...
Os pensamentos de Artur eram tomados por intenções de vingança, por desejos motivados pelo rancor altivo que cultivava por Frederico, não respondeu à declaração da amada, sabia que ela não seria capaz de compreendê-lo, mas em silêncio prometia cobrar do barão cada vergão que sobre aquelas costas ardiam.
Adelaide e Laís, acompanhando o casal vitimado por amar, compartilhavam da dor e se preocupavam com o que Artur arquitetava no íntimo de seu coração, sentiam medo do futuro, um futuro que parecia luminoso, mas que se revelava uma grande ilusão.

¤

Pelas escadas soou o som das botinas de Frederico acompanhado pelo seu antigo companheiro. Seus passos eram pesados e vagarosos, diziam que sua presença seria terrivelmente malquista.
— Perdoem-me pela hospitalidade, mas não posso oferecer nada além disso — os lampiões iluminaram o lugar, revelaram as marcas de sangue sobre o chão e os instrumentos de tortura que a muitos apavoraram —. Confesso que a cada dia me surpreendo com a tolice humana, com a burra audácia humana, tento explicações e não as encontro, então me convenço de que não há explicações para a loucura! — com os punhos fechados, agrediu a barriga nua de Bruno, fê-lo se contorcer —. O que leva pessoas tão hábeis, com tantas qualidades maravilhosas e invejáveis, escolherem caminhos tão espinhosos? O que se ganha protegendo a quem merece morrer? — foi a vez de Victor sofrer a mesma agressão —. O que fazemos com os loucos? Matamos? Escravizamos? Tentamos curar? — posicionou-se diante os prisioneiros ajoelhados —. O que vocês escolhem?
— O único insano é você! — Victor respondeu ferozmente —. Não percebe o quanto é desagradável e indesejável? Não se deu conta de que ao morrer ninguém lamentará a sua partida porque todos esperam ansiosos pelo dia da sua morte? Sua existência é insignificante, é você quem precisa de uma cura!
— Eu preciso ser venerado! — chutou o opositor em suas pernas, tratava um semelhante com completa indiferença —. Esses negros estão aí para servir! Minha filha está aí para obedecer a minha ordem! Minha esposa está ao meu lado para acatar e promover minhas palavras! É tão difícil fazer isso? É tão difícil respeitar quem só quer ser respeitado?
— Você é um egoísta, ninguém precisa viver por você, deveria entender que seu gesto é como de um moleque insatisfeito!
— Você não sabe calar a boca?! — agrediu o Protetor —. Por que não faz como a mocinha aqui? — puxou os cabelos de Bruno fazendo-o se curvar perante si —. Essa traidora desgraçada cheia de desejos sórdidos e promíscuos. É de Pedro que gosta? — ergueu a face do rapaz com violência —. Sua nojenta imunda! — bateu na face do soldado, deixou a região avermelhada —. Onde estava com a cabeça quando decidiu me trair? Onde estava com a cabeça quando, sabendo que não passa de um endemoninhado, veio nos blasfemar com sua existência?! — ergueu Bruno pelos fios lisos —. Sabe o que eu tenho vontade de fazer? — posicionou o revólver contra a região íntima do moço —. Seus desejos repulsivos seriam curados a partir de só um disparo! — jogou o rapaz contra o chão —. Você é uma vergonha! — passou a chutá-lo —. Peça misericórdia! — vociferou.
— Misericórdia... — apavorado, sentindo a morte sussurrar seu nome, derramando as lágrimas de aflição, Bruno suplicou.
— Mais alto, desgraçada! — Frederico não cessava as agressões, Sebastião se divertia com a cena horrenda.
— Misericórdia! — clamou outra vez.
— Eu falei mais alto! — fez o rapaz desmaiar —. É um fraco repulsivo — o barão enxugou o suor da testa —. Quanto a você — dirigiu-se ao Protetor —. Um homem como você, tão galanteador e destemido, teria as mulheres que desejasse, faria o acordo que bem quisesse, não pode continuar nesse equívoco de proteger os miseráveis, precisa usar sua capacidade para coisas mais lucrativas e eu estou disposto a lhe conceder uma chance. Onde está aquele músico inútil?
Victor, irado pela humilhação que vira o companheiro suportar, arrependido por não ter matado Frederico quanto teve a oportunidade, encheu-se de coragem para confrontá-lo.
— Não quero muitas mulheres, desejo apenas por uma e já temos a nossa própria história. Não quero acordos que me façam poderoso, quero apenas honrar a memória de meus pais livrando seres humanos indefesos de sujeitos miseráveis e vagabundos como você — havia se soltado das correntes enquanto Frederico se distraía com Bruno, agarrou o barão pelo pescoço, jogou-o contra o chão e subiu sobre ele, usava as próprias pernas para imobilizar as dele, com uma das mãos sufocava-o descontroladamente enquanto a outra criava hematomas em seu rosto —. Vá para o inferno!
Paciente, assistindo de braços cruzados ao ataque que Frederico sofria, Sebastião desenhou no rosto um sorriso traidor, queria a cabeça do barão, mas julgou que a hora ainda não era chegada.
— Já chega! — destravou o gatilho aos ouvidos do Protetor —. Coloque-se no seu lugar, hoje está em desvantagem.
Victor recuou. Precisou recuar.
Engasgado, procurando fôlego, Frederico se reergueu, encarou o inimigo com ódio nos olhos, com hostilidade no coração.
— Coloque-o na solitária — falou rouco —. Garanta que terá uma noite inesquecível.

— Sim, senhor — o capanga murmurou —. Barão de São Pedro — pior do que os nossos inimigos são aqueles que estão no mesmo lado que nós, compartilhando dos mesmos pensamentos, mas que não passam de traidores ansiosos por nos sugarem para o seu próprio benefício.



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No próximo capítulo:

A dor. A dor é possível de descrever em palavras ou até mesmo de mensurar em números, a dor pode ser verbalizada e ter sua intensidade denunciada. A partir de tais expressões somos capazes de imaginar o seu tamanho, somos capazes de julgá-la como fraca, moderada ou grave apenas observando, mas só temos certeza, só podemos falar com propriedade quais são os horrores que ela causa, quando a experimentamos sobre a nossa pele.

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