[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 75 - Consumação
Capítulo 75 – Consumação
Uma vida é feita de dias ruins, mas também é
privilegiada pelos dias de contentamento. Em uma vida somos passíveis de sofrer
dolorosas amarguras, mas também somos presenteados pelos momentos de doçura que
nos devolvem a esperança e a fé. A vida é assim, uma complexa passagem de instantes
que nos permitem evoluir, crescer, adquirir sabedoria e transcender.
Aproveitando a viagem de Frederico para terras
distantes, usando de discrição para evitar o estranhamento dos capangas,
contando com a companhia de apenas um parceiro e com a ajuda de Bruno que
depois do barão era o maior detentor de poderes na fazenda, o padre Miguel
adentrou a propriedade que não pensara visitar tão cedo, mas era motivado por
uma boa causa, seu incentivo era nobre, resumia-se à invencibilidade do amor.
Laís, Artur, Pedro e Adelaide aguardavam ansiosos na
sala do casarão pela chegada do religioso, deram graças quando junto de seu
acompanhante e guiado por Bruno o bom homem pisou sobre o mesmo chão que eles,
era um dia de festa, era um dia de regozijo aos de bom espírito.
— Heitor mandou os mais sinceros e otimistas
desejos, que o mesmo amor que está agraciando sua filha possa agraciá-los
também — o padre, sempre com leveza no falar, acolheu as mãos da baronesa,
entregou o sentimental recado, enviado por um alguém que não se esquecia da
sonhadora mulher —. E esse sorriso? — virando-se ao escravo, o religioso tocou
seus ombros —. Que não faltem motivos para que ele esteja estampado em sua face
constantemente — trouxe o rapaz para um abraço fraterno, abraço de pai, abraço
do céu —. Tenho certeza de que fará Ana muito feliz!
— Esse é o meu propósito — mais uma vez se sentindo
humano, percebendo na acolhida do religioso um respeito que não recebera por parte
de outros sacerdotes, Artur respondeu —. Meu maior propósito!
— Estamos todos aqui? — perguntou olhando ao redor.
— Sim. Esses são os de confiança, nossos amigos mais
sinceros! — a baronesa era grata por ter com quem contar.
— Que comece a cerimônia!
Precisaram ser simples, humildes e discretos. Não
puderam se dar ao prazer de um evento lotado, luxuoso, no qual centenas de
olhares estariam voltados para eles, no qual faltaria espaço para os muitos
presentes, no qual se cansariam das muitas bajulações elogiando-os, no qual o
amor que consumariam naquele ato tão sagrado seria aplaudido e emocionaria a
multidão. Mas não estavam preocupados com a simplicidade do momento, com a
injustiça de precisarem se esconder, quando o amor é genuíno riquezas não
importam, importa apenas que seja vivido.
Levada por Egídio, Ana adentrou a sala onde a
esperavam, em seus passos lentos exibia o vestido florido, a flor posicionada
entre os cabelos e o sorriso alegre exposto no rosto. Merecia uma cerimônia
como todas as outras, mas esse fato passou despercebido, seu admirador a
aguardava, era tudo o que precisava.
Artur, sem as vestimentas surradas que todos os dias
usava, emprestara um terno de Bruno, parecia um verdadeiro senhor de terras
invejáveis, na verdade era senhor de um coração valioso, de intenções
exemplares. Sorridente, alegre como nunca esteve, acabou emocionado quando sua
eterna amada atravessou as portas e se revelou à luz. Queria conceder a ela uma
grande festa, um jantar a sua altura, tudo o que merecia, mas por hora
contentou-se em ofertar o inestimável, aquilo que nada é capaz de comprar: seu
mais verdadeiro amor.
Laís, acompanhando o tranquilo desfile de Ana, não
guardou as lágrimas contentes para si, regozijava-se em seu ser por ver a filha
realizando um desejo que também era o seu, por ter ajudado a filha a superar os
tantos obstáculos e ter a chance de viver seu querido futuro.
Ao lado da baronesa, servindo de testemunha, Pedro
não deixou de se alegrar pela conquista da amiga que a vida lhe dera, a amiga
que o ajudara a se libertar de tantos medos e submissões para que enfim pudesse
viver sua própria verdade. Naquele momento tão agradável prometeu a si mesmo
reconquistar a quem amava.
Ao lado do filho, o bondoso rapaz que sempre lhe
trouxera orgulho, Adelaide também se emocionou, acompanhava a conquista tão
idealizada, compartilhava de um momento tão especial. Contemplar a felicidade
no rosto de Artur garantia uma confiança: ele seria feliz pelo restante dos
dias, era tudo o que precisava saber para que tivesse paz.
Ao lado da escrava, Bruno exibia o prazer por
participar daquela hora transformadora no s0rriso que tomava seu semblante,
aquele casal, ao seu olhar, merecia toda a felicidade do mundo, eram pessoas
maravilhosas, a vida não poderia permitir que as injustiças persistissem por
tanto tempo. Lembrou-se que quem amava estava bem perto de si, a poucos passos
de distância, mas a insegurança fazia da pouca distância um grande e profundo
abismo.
Acompanhando a jovem moça, vendo o contentamento no
olhar daqueles que assistiam sua entrada, Egídio se emocionou, lembrou-se do
próprio casamento, recordou-se do quanto fora maravilhoso viver um grande amor,
disse a si mesmo que todos mereciam a mesma sorte, cada um do seu jeito
precisava viver o amor.
As mãos se tocaram.
Os sorrisos foram trocados.
E os joelhos se dobraram diante o padre Miguel.
— Estamos aqui, nessa boa ocasião, para celebrarmos
a união entre dois amantes, duas pessoas que confrontaram os padrões, que se
revoltaram contra as tradições e se vestiram de valentia para que possam viver
a mesma vida, para que de dois formem um só, para que até o último suspiro
tenham a estimada companhia um do outro — enquanto discursava, o religioso
observava os presentes, sentia em cada coração a esperança que a vitória do
jovem casal a todos concedia —. Foram valentes, fortes e ousados em nome do
amor, esse sentimento que nos descontrola, que nos faz tomar decisões
impensáveis, que nos faria morrer por quem amamos. É inútil tentar vencê-lo. É
inútil tentar diminuí-lo ou ofuscá-lo em razão de medos ou receios, quanto mais
tentamos nos livrar dele mais nos machucamos porque não compreendemos que o
amor é a razão de nossas vidas, quando o amor não existe mais acabam-se os
propósitos, extingue-se o sentido da vida, não há mais pelo quê viver. Chega
uma hora que desistimos de lutar contra ele e, então, feridos e exauridos,
rendemo-nos aos seus cuidados mesmo com todas as ameaças que podem existir, que
podem nos cercar, uma vez a ele entregues nunca mais perdemos a vontade de
vivê-lo e então lutamos! — suas palavras causavam reflexões, entendimentos,
explicava o amor de uma maneira diferente a tudo que sempre ouviram —. A prova
de que o amor é em muito imenso à nossa compreensão é o fato desses dois jovens
não terem sucumbido aos perigos e, desafiando a morte, estarem oficializando o
que sentem. Que esse amor poderoso nos alcance e encoraje! — olhou com
serenidade àquela que vira crescer —. É de coração aberto que aceita Artur como
seu esposo?
Ouvindo a pergunta que idealizara em tantas noites
de insônia, com a qual sonhara em tantos momentos de sono, Ana chorou tocada
por tantas emoções, envolvida por todos os afetos.
— Sim.
— É de espírito sincero que aceita Ana como sua
esposa?
Tudo parecia com os muitos sonhos que tivera, com as
tantas cenas que imaginara em sua mente quando não tinha ao seu lado a mulher
amada, parecia ilusão, mas era a melhor realidade que Artur vivia.
— Sim.
— Não há mais o que esperar, não há mais com o quê
se preocupar, estão aprisionados pelo amor, são nesse momento marcados pelo
amor em suas almas, lutem com afinco por vivê-lo todos os dias — o padre ergueu
as mãos —. Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo eu vos declaro marido
e mulher — estava feito, ninguém poderia desfazer.
Os apaixonados se encararam emocionados, seus olhos
lacrimejavam pela alegria imensa que enchia seus corações, não conseguiram
verbalizar o que sentiam, mas ao se renderem à irresistível atração de seus
lábios no beijo romântico exibiram o quão vitoriosos se sentiam.
Foram aplaudidos.
Aplaudidos por aqueles que acreditavam no amor.
Com tudo consumado, cada um precisou seguir o seu
caminho, inclusive Pedro e Bruno que, embora sedentos por uma conversa,
desejosos por conseguirem seguir em frente, não puderam trocar nenhuma palavra,
o abismo entre eles era difícil de transitar.
Todos seguiram os seus caminhos sem se darem conta
de que, à espreita, foram observados pelo astuto e sórdido Sebastião que
ironizava a coragem daqueles que acreditavam no amor e por ele se arriscavam.
Chegava o momento da sua vingança.
##
No próximo capítulo:
— Chegará o
dia que não precisaremos mais nos afastar — sempre tão gentil, sentado na
confortável cama encarando as íris douradas, o jovem cavalheiro envolveu as
mãos delicadas, beijou-as sereno, tornou a encarar os olhos que refletiam o
singelo brilho do luar que iluminava o quarto —. Mas enquanto esse dia não
chega fique com isso — estendeu a camisa que usava, onde estava o seu cheiro —,
sentir-se-á mais próxima a mim! — beijou a donzela romanticamente, um beijo que
precisou ser interrompido antes que se rendessem uma vez mais à paixão que
fervia —. Eu te amo.
De segunda a sexta, aqui no blog!
Livros
gratuitos:
Encontre
o blog pelas redes sociais:
Obrigado
pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários
Enviar um comentário
Não deixe de expressar sua opinião, ela é muito importante!