[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 81 - Despedidas


Capítulo 81 – Despedidas

— Os escravos, ajuntem-se aqui! — prepotente, sendo tomado pela raiva de mais uma vez enfrentar a audácia de seus serviçais, Frederico determinou apontando para seu lado esquerdo, vendo os negros cabisbaixos obedecerem à ordenança sem a menor das hesitações —. Quanto aos convidados, lamento profundamente que nossa noite tenha que acabar dessa maneira, mas é necessário que partam, para a sua segurança — a porta principal se abriu, homens e mulheres esvaziavam o ambiente antes tomado por música e dança, agora dominado por silêncio e apreensão —. Ana, minha filha, agradeço pela sua participação, por ter feito esses vermes acreditarem que tinham alguém forte ao lado deles, mas agora já pode soltar esse imundo e buscar proteção.
Os únicos que não saíram do lugar foram Ana e Artur, os dois jovens amantes que precisaram se casar em oculto para que fossem ligados pela eternidade, os dois jovens amantes que pelos próximos instantes provariam o quão sincero era o que sentiam.
— Não, não fale bobagens, não aja como um tolo, não vou voltar atrás em meus passos em virtude das suas ameaças, não me aproximei deles para depois traí-los, não me envolvi com Artur para então descartá-lo, eu não tenho medo da sua maldição! — valente, sendo assistida pelo severo homem que tinha por pai, sendo admirada por aqueles que constantemente se calavam ante a humilhação, Ana confrontou o barão demonstrando a coragem que possuía.
— Vai mesmo escolher o pior caminho de todos? Vai mesmo se igualar a essa gente correndo tantos riscos? Sei da sua traição, conheço o plano que tinham para essa noite, deve saber que não serei gentil ao punir meus inimigos! — os olhos de Frederico confirmavam a aspereza das palavras, a crueldade de seu espírito.

— O pior aconteceu! — encontrando seus aliados no lado de fora da casa trancafiada, Egídio anunciou ofegante —. Frederico sabe de tudo, até mesmo que Ana e Artur se casaram, precisamos desaparecer daqui!
— Droga! — Victor, usando a máscara que tantos cobiçavam arrancar, praguejou contra o fracasso de um plano que precisava dar certo —. Ainda resta alguém na senzala, vão sem mim, só sairei daqui quando a liberdade alcançar a todos!
— É perigoso demais! — Egídio alertou —. A casa está tomada por guardas, seríamos destroçados!
— Partam! Salvem suas vidas e suas liberdades! Eu os encontrarei!

Pedro, desde que voltara da casa grande, procurava desesperado por Bruno na região onde o vira pela última vez. Prestes a desistir da busca, acreditando que haviam levado o rapaz para outro lugar, ouviu alguém resmungando, esforçou as vistas, com a ajuda do luar encontrou Bruno amordaçado, com as mãos e pés imobilizados, coberto por algumas folhas.
— Mas que droga! — percebendo que eram pegos, que seus adversários se usavam de esperteza para impedi-los de irem até o fim, Pedro libertou o prisioneiro, esqueceu-se dos desentendidos, da distância que há dias os separava, abraçou-o como se fosse a primeira vez desde muito tempo, de fato era, um abraço motivado pela saudade e pelo iminente medo de perder alguém que se ama.
Bruno, por sua vez, liberto da sensação que a proximidade da morte causava em seu ser, não hesitou na demonstração de carinho, despertou para a finitude da vida, para o quanto somos frágeis e o quanto nos enganamos escolhendo perder tempo a viver o que se deseja.
— Você precisa partir! — o soldado anunciou —. Precisa partir junto ao seu pai para outro lugar, longe de São Pedro, longe da ira de Frederico.
— O que está falando? — Pedro protestou —. Você também precisa partir, salvar a própria vida, veja o que quase cometeram!
— Não estava preparado para o ataque, mas prometo que da próxima vez estarei! — sorriu esperto —. Nesses últimos meses ganhei amigos incríveis e me fortaleci na crença de que os escravos merecem dignidade. Ficarei, lutarei e, junto a eles, vencerei! Mas preciso que esteja seguro, que proteja sua família, preciso que viva para que o futuro, o futuro que tanto sonhamos, finalmente aconteça! — aquelas palavras romperam o distanciamento, afastaram as dúvidas e trouxeram grande certeza, a de que o futuro é possível àqueles que acreditam.
— Eu acredito em você! — Pedro tornou a abraçar aquele que estimava —. Sei que tornaremos a nos encontrar... — esperança é chave de qualquer conquista.

— Não te deixarei sozinha, cansei de deixá-la para trás, cansei de precisar suportar uma distância dolorosa, um silêncio que estronda aos meus ouvidos os perigos que pode estar correndo! — Heitor, ouvindo as palavras de Laís para que fosse embora antes que Frederico colocasse as mãos nele, protestou imediatamente, não queria aceitar o fracasso do plano, não queria aceitar que precisariam esperar ainda mais a chegada da própria liberdade.
— Não seja teimoso, não queira causar ao meu coração preocupações maiores, eu não posso deixar minha filha sozinha, mas também não posso permitir que você perca a chance de conhecê-la e viver com ela o futuro que resta — a baronesa, acariciando a face do eterno amante, justificou seu pensamento, tentou convencer o sujeito inflexível.
— Acha justo que eu seja obrigado a deixar minha família para trás? Depois de tantos anos descubro que tenho uma filha, não pode me negar o direito de lutar por ela!
— Você precisa sobreviver! Frederico não erraria dessa vez, matá-lo-ia perante os meus olhos, seria insuportável o sofrimento. Vá embora! Proteja-se! Viva para mim e viva para a nossa filha!
Heitor não encontrou argumentos que o favorecessem, precisou concordar que correria riscos maiores, mais do que nunca tinha coisas importantes a perder, precisava se defender mesmo que se privando de lutar. Beijou a mulher amada com sede por aquele beijo, beijou-a em um gesto angustiado de despedida, talvez aquela fosse a última demonstração de afeto, talvez aquele fosse o derradeiro dos encontros.
— Se demorar para me reencontrar eu voltarei — prometeu —. Voltarei sedento por justiça!

Adentrando a senzala, visivelmente aturdido pelos últimos acontecimentos, o Protetor viu mãe e filho elevando preces, súplicas desesperadas por misericórdia. Precisou interrompê-los. Precisava salvá-los.
— Vocês precisam ir! Frederico sabe de toda a verdade, prendeu alguns na casa grande, por certo não poupará crueldade aos que permanecerem. Partam!
— Eu não vou! — Adelaide relutou, sentia que suas visões eram cumpridas, que o derramamento de sangue aconteceria —. Eu não posso ir!
— Mãe... — Felipe tentou convencê-la.
— Vá, meu filho, vá sem olhar para trás, vá sem duvidar do grato destino que o espera, vá levando no coração o amor através do qual sempre te amei! — a escrava, segurando as mãos do adolescente, olhava no íntimo de seus olhos como se conversasse com sua alma —. Não sinta medo, nem quando tudo parecer perdido, sempre há uma esperança àqueles que por ela procuram! Eu não posso ir, preciso ficar, cumprir minha missão, mas se me levar aqui dentro — pousou a mão sobre o peito do filho —, para sempre estarei ao seu lado.
— Mãe... — derramando lágrimas, Felipe abraçou a boa mulher, acolheu-a em seus braços na intenção de nunca soltá-la, aquelas palavras eram mais do que um encorajamento, significavam indesejável despedida.
— Eu te amo, meu querido — sentindo o coração arder, Adelaide acariciou os cabelos do filho —. Nunca se esqueça do quanto eu te amo... — não conseguiu evitar, suas emoções transbordaram, explicitaram-se.
— Felipe — gentil, Victor tocou o ombro do jovem garoto, afastou-o da mãe aos poucos, sendo tocado por aquele momento de um amor puro e incondicional, prometeu a si mesmo que seria ao adolescente a família que dele roubaram —. Você precisa ir, estar em proteção, precisa anunciar à Rute e à Sara que em breve nos reuniremos!
— Você não vem?
— Preciso lutar por aqueles que precisamos proteger, mas eu prometo que voltaremos a nos ver — foi abraçado por Felipe, um abraço repleto de sentimentos que não pôde ser passageiro, precisou de retribuição —. Fique com elas, não saia de casa até eu voltar...
O Protetor levou o protegido até o cavalo.
Ajudou-o a montar.

Despediu-se prometendo que o futuro apenas começava.


##
No próximo capítulo:

— Enquanto eu viver, enquanto eu estiver ao lado de Ana, nenhum miserável tocará nela para agredi-la, para causar sua dor, nem que esse miserável seja o seu pai!
— Faz ideia do erro que está cometendo?
— Amei essa mulher em silêncio por todos esses anos, contemplei sua tristeza em muitos momentos, vê-la presa às suas asperezas apenas me irou, mas sempre tive que me conter, sempre precisei me esconder, porém estou farto da sua arrogância, estou cansado de ver gente fragilizada sofrendo nas suas garras repulsivas! Essa é a última vez que você tentou machucar a mulher que eu amo! — como um homem obstinado, pronto a defender o que é seu, Artur intercedeu pela esposa.

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