[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 69 - Desfazer os Equívocos
Capítulo 69 – Desfazer os Equívocos
Ironicamente, em todos os seus sentidos, o amor traz
consigo certo grau de dor, algum incômodo por mais sutil que seja. Seja a dor
do receio por vivê-lo, seja a dor da preocupação por a ele já estar entregue ou
a dor da incerteza quando a sua duração. Ao mesmo tempo em que afaga, ele
açoita, ao mesmo tempo em que cura, o amor cutuca as feridas. A uns seu
sofrimento é maior, a outros é quase imperceptível, mas todos, em algum
momento, sofreram por amar.
Vagueando pelas estradas da província de São Pedro,
dirigindo-se à propriedade de um parceiro econômico para que novos acordos
fossem firmados, pai e filho conversavam, davam espaço para que o diálogo cheio
de compreensão entre eles desenrolasse. Pedro sentia-se aliviado, o mundo
poderia sufocá-lo, espremê-lo, ao menos teria onde encontrar refúgio: nos
braços de Egídio.
— Apesar de compreendê-lo e aceitá-lo não posso
ignorar o fato de que levantamos uma guerra contra alguém poderoso, sinto medo
não por mim, já vivi o suficiente, realizei grande parte dos meus sonhos, sinto
medo por você, tão jovem, merecedor de imensas conquistas — atento à estrada,
conduzindo a carruagem, o rico comerciante desabafou —. Quando Frederico souber
a verdade... Conheço sua mente intolerante, jamais aceitaria que suas ordens
fossem contestadas, você e Ana terão caminhos difíceis a percorrer.
— Sei disso, mas sempre soube que não conseguiria me
esconder por tanto tempo, não suportaria viver ao lado de alguém que não
conseguiria amar para manter um casamento, o futuro reservaria reviravoltas
assustadoras, de qualquer forma o barão nos perseguiria, para quê adiar? — o
jovem pensador, excelente em negociar tanto quando em fazer arte com as
palavras, confessou o que por dias afligiu seu coração, o medo sobre os dias
vindouros.
— Onde eu estava com a cabeça? — Egídio sorriu
constrangido —. Ceguei-me com preocupações desnecessárias e quis empurrá-lo a
um destino que não lhe pertencia. Sinto-me envergonhado e impotente, não
consigo enxergar formas que resolvam esse problema.
— Não quero que se importune com isso, o que eu mais
queria já conquistei, posso contar com o seu apoio, do resto eu cuido, lutarei
o quanto puder.
— Sua mãe conhecia a verdade — lembrando-se da
esposa com carinho, o comerciante fez a revelação —. Em uma de nossas
conversas, pouco antes de adoecer, ela mencionou o quanto você nos orgulhava e
que não poderíamos permitir que uma sociedade fingida manchasse esse orgulho.
Inicialmente não entendi o que ela disse, depois não quis entender e quando
você se abriu não quis aceitar. Mas você é o meu filho, alguém que só me trouxe
alegrias, alguém que só encontrou uma maneira diferente para viver. Isso não
muda nada. Continuará sendo motivo para muitas alegrias, continuará sendo esse
homem de nobres virtudes que desde sempre orgulhou a própria família. Quero que
seja feliz, meu filho, e que me perdoe por ter dado razão a pensamentos
mesquinhos e hipócritas, importei-me mais com discursos farsantes do que com a
sua felicidade.
Emocionado, tendo a certeza de que sua mãe não o
condenaria nem abandonaria, Pedro não pôde evitar a discreta lágrima que saltou
de seus olhos, o coração alcançou paz e a alma se sentia acolhida por aquela
que, mesmo após a partida, fazia seu amor se sobrepor a quaisquer limitações.
— Não me peça perdão, nunca o culpei por nada, sei
que tem notoriedade entre as pessoas e que é cobrado para transmitir uma
perfeição injusta, inexistente. Meu sentimento é de gratidão. Está se dispondo
a combater contra ondas furiosas, jamais poderia culpá-lo...
— Mas pode saciar minha curiosidade — o comerciante
falou divertido —. Quem é o felizardo que terá a sorte de ter alguém tão puro
ao lado?
Pedro, confuso quanto ao que ainda existia entre ele
e Bruno, refletiu sobre o quê responder, talvez precisasse recomeçar ou
esquecer o que um dia teve início.
— É um amigo antigo — respondeu acanhado —. Mas nos
afastamos tão logo fui prometido à Ana. Eu mesmo decidi pelo nosso afastamento,
queria deixá-lo livre, pensei que também teria liberdade, mas me enganei, não
consegui superar o insuperável. Já não sei se seria aceito, assumo que o
magoei, mas foi querendo nos proteger.
— Tudo o que é verdadeiro sofre abalos, às vezes
necessita de reparos, mas nunca desaba — o mais experiente aconselhou —. Não se
preocupe, o que é verdadeiro resiste a tudo e rompe todas as barreiras.
Passando em frente às terras de Frederico, pai e
filho concordaram em fazer uma visita ao barão antes de prosseguirem viagem, queriam
manter o inimigo despreocupado, não imaginavam que o horror dominava aquele
lugar.
¤
Da testa do sujeito possesso, corria suor, seus braços
não se cansavam, seus ouvidos pouco se importavam com as lamúrias de Laís ou
com os clamores de Ana para que cessasse o gesto monstruoso, passara das
cinquenta chicotadas, não se perturbava com a ideia de matar a esposa no
tronco, ao menos lavaria sua honra.
A baronesa, no entanto, consumida pela ardência nas
costas, enfraquecida pelo sangue que perdia, enfraquecida pelo sangue que
deixava seu corpo, parava de gemer, o som era menor, apenas o corpo respondia
balançando a cada açoite. Sentia a vida se esvair. Partiria em paz acreditando
no reencontro com Heitor.
— O que significa isso?! — uma voz áspera, imponente
e conhecida fez o barão cessar as agressões —. O que está acontecendo nesse
lugar?! — exigia respostas, Egídio bradava em suas indagações —. Alguém pode me
explicar?!
Condoído pelo semblante caído de Ana, Pedro se
aproximou da moça ofertando seu ombro amigo, gesto aprovado por Artur que,
impedido de fazê-lo, agradeceu por ter alguém que o prestasse. Naquele momento,
observando os olhares apreensivos ao redor, seus olhos encontraram aqueles que
a meses não contemplava, que há dias era impedido de ver, mas que naquela hora
devolveu o agito ao coração quando se cruzaram. Bruno sentiu o espírito
estremecer, sentia saudade daquele que não conseguia tirar dos pensamentos,
experimentou outra vez a ansiedade de todas as vezes que se encontravam, junto
ao misto de emoções surgiu o medo, a incerteza do que realmente existia, o
estopim para que desviasse o olhar e rompesse a conexão. Pedro voltou-se à Ana,
Bruno teria seu respeito a partir de qualquer decisão que tomasse.
— O que significa isso? — o barão repetiu em tom
indignado —. Essa devassa me humilhou! Entregou-se a outro homem como uma
prostituta! Merece a morte! — vociferou.
Egídio amou a esposa com devoção e sinceridade, nem
em seus últimos dias, quando a enfermidade levou embora a beleza e o vigor
joviais, deixou diminuir o encanto que nascera entre eles, apesar de terem sido
vitimados pela fadada tradição de casamentos arranjados, tiveram a sorte de se
conquistarem e se amarem. Ele nunca ergueria a mão contra a mulher, como nem
mesmo a voz ergueu, sempre a respeitou como ela merecia, como todas as esposas
mereciam.
— A culpa pode ser sua! — surpreendendo, Egídio
acusou —. Amou Laís como ela merecia e almejava? Foi capaz de respeitá-la e
ouvi-la como sua esposa? Foi suficientemente bom para que ela não cedesse aos
desígnios da alma? — percebia a ira encolerizar o ouvinte, mas precisava
atacá-lo, não se omitiria perante a injustiça, nunca encostou um dedo na esposa
para feri-la, era inadmissível aos seus princípios —. Se age feito um covarde
que desrespeita o ser humano e sua dignidade, eu sinto muito, mas não posso
acordar com você — tomou coragem —. Cancele todos os nossos negócios, inclusive
o casamento, ele não acontecerá mais! — viu a oportunidade para desfazer um
erro e soube aproveitá-la, restava saber quais seriam as consequências.
Continua...
##
No próximo capítulo:
— Acha mesmo
que pode me vencer? — o barão jogaria sua última carta —. Eu sou o homem mais
rico dessa região, governo sem ser chamado de político, seria ingenuidade sua
acreditar que não tenho poder sobre a justiça. Eles não lhe dariam ouvidos, ao
contrário, seriam pagos para que dessem um sumiço em você ou no seu filho
querido, o que resta daquele amor inútil que diz ter vivido.
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