[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 80 - O Baile de Máscaras - Parte 2


Capítulo 80 – O Baile de Máscaras (Parte 2)

É quando verdadeiramente se ama que a simples presença de um agita o coração do outro, que o simples soar da voz de um acalma a alma do outro, que o simples toque de um garante a felicidade do outro. Quando verdadeiramente se ama não é necessário muita coisa, basta apenas existir.
Eram felizes porque existiam.
Ana e Artur, um existia para o outro.
Quando os olhares inconfundíveis se cruzaram entre as máscaras, os lábios tomaram as curvas da felicidade, o amor se manifestou no íntimo do casal apaixonado, atraiu-os sem que percebessem, tão logo retornaram à consciência se viram dentre os outros casais que dançavam despreocupados.
— Se soubesse o quanto está linda... — Artur, sempre encantado pela esposa, não deixou de elogiá-la, gesto que jamais cansaria de fazer, através do qual a reconquistava todos os dias.
— Não seja tão cortês, já não precisa disso, tem a mim pelo restante dos seus dias! — sorridente, sentindo-se realizada por estar tão próxima daquele que amava no meio de parte de uma sociedade extremamente preconceituosa, Ana levou a mão ao pescoço do rapaz, levou as dele à sua cintura, passou a guiá-lo nos passos tranquilos —. Para um inexperiente está se saindo bem.
— Em outras festas que seu pai promoveu participei como um mero observador, sempre admirei os casais aparentemente apaixonados sincronizados em seus passos, agora tenho a honra de colocar em prática o que julgo ter aprendido.

Bruno, vigiando o exterior da casa grande, atento aos outros guardas para ter certeza de que eles não perceberiam o movimento do Protetor, teve a atenção atraída quando aos seus ouvidos seu nome soou. Virou-se para trás imediatamente, seus olhos curiosos encontraram os severos de um sujeito disfarçado.
— No que posso ajudar? — o rapaz perguntou.
— No que posso ajudar? — o homem repetiu em tom indignado —. Não acredito que não esteja me reconhecendo — agarrou o braço do soldado chamando a atenção dos outros guardas —. Depois de tanto tempo que passamos juntos — tirou a máscara revelando quem era, acalmando os homens que interromperam seus passos e voltaram aos seus lugares sabendo que o plano era executado —. Refresquei sua memória, mocinha? — era Sebastião, acompanhado por sua sede de vingança.

Pedro, assim que Artur se aproximou, mostrou-o a Ana e se retirou do meio de tantos casais. Querendo encontrar um alguém importante, desejando acertar as coisas e corrigir o passado, o rapaz procurou por Bruno no lado de fora da fazenda. O movimento era menor. Os guardas se atentavam à construção luxuosa. A poucos metros do agito Pedro enxergou aquele que buscava, percebeu que seu acompanhante não era um amigo gentil, soube interpretar o semblante do soldado, soube reconhecer o perigo.
Voltando à multidão, esforçando-se por reconhecer Heitor, Pedro agradeceu ao encontrá-lo, puxou-o para si interrompendo a dança, precisava de sua ajuda.
— Um dos nossos foi pego — anunciou.
— Quem? — o comerciante se preocupou.
— Bruno. Foi abordado por um homem esquisito, tenho a impressão de tê-lo visto antes.
Sem hesitar, Heitor pediu que Laís o esperasse, a baronesa assentiu, mas desistiu de atender ao pedido, estava farta de sempre precisar se afastar daquele que amava, a partir daquele dia correria ao seu lado o risco que fosse.

Deixando o caminho aberto, afastando possíveis obstáculos, o Protetor adentrou a senzala onde parte dos escravos aguardavam pelo sinal, informou que deveriam ser rápidos e espertos, os portões da liberdade finalmente se abriram.
Ligeiros, homens e mulheres, fartos da servidão, tomavam seus lampiões, cuspiam sobre o chão em um ato simbólico, queriam dizer que deixariam para trás toda a repulsa que sentiam por uma realidade tão injusta.
Mas alguém não se moveu do lugar.
— Mãe? — Felipe a encarou confuso.
— Eu não posso ir — a mulher respondeu —. Pelo menos por enquanto.
— Precisa ir com eles, sozinha será muito perigoso.
— Eu não posso ir, filho — insistiu —. Os deuses me deram um aviso, talvez o final não seja como esperamos.

O casal rendido aos encantos do amor pouco se importava com o mundo ao redor, até mesmo se esquecera do quanto as pessoas podem ser astutas e cruéis, o importante era desfrutar daquele momento tão mágico que significava a realização de um sonho: no meio de tanta gente que os condenaria, homem e mulher demonstravam o amor que sentiam.
— Amanhã, tão logo o sol nasça, já não seremos os mesmos prisioneiros, já não estaremos sufocados por tantas opressões, estaremos livres para que o futuro nos surpreenda! — Artur, crente no sucesso do plano que era executado, já se sentia um homem liberto, livre para fazer da mulher amada a mais feliz de todo o mundo.
— Valeu a pena acreditar com paciência, valeu a pena cultivar esperança todos os dias, poucas são as horas que nos separam da liberdade! — Ana, compartilhando da mesma crença, não imaginava as reviravoltas que sucederiam, não esperava pelas desagradáveis surpresas que aquela noite ofertaria —. O amor que sinto por você me fez ter fé de que viveríamos nossos projetos, se precisasse viver tudo outra vez eu não hesitaria.
— Sinto-me privilegiado por ser amado por alguém tão nobre e especial. Você não precisa fazer isso, arriscar-se tanto, poderia muito bem deixar que eu resolvesse sozinho os meus próprios problemas, ao invés disso concedeu todo seu auxílio — acariciou a face delicada —. Para sempre vou amá-la intensamente na tentativa de retribuir o amor que recebo...
— Você já retribui — tocou a face do esposo —, existindo... — beijou-o sem receios, beijou-o sem relutâncias, beijou-o com todo o romantismo que sempre viveram.
Por entre os dedos a taça se desfez em pedacinhos.
— Algum problema? — Egídio, fazendo companhia ao barão na intenção de vigiá-lo, mostrou-se surpreso.
— Nada demais, meu amigo — Frederico, observando a todos, principalmente os inimigos, flagrou o beijo que despertou seu nojo, que irou seu espírito —. A menos que você tenha visto algo.
— O que quer dizer?
— Ana acabou de beijar um rapaz — encarou aquele que por um tempo acreditou ser um aliado, mas que agora sabia o quanto era traidor —. E ele não é seu filho — esperou alguma resposta —. Você não está surpreso? — sorriu maliciosamente —. Acha mesmo que podem me enganar?

— Melhore essa cara, parece que está vendo um fantasma! — o capanga debochou —. Eu não morri, Bruno, para a sua infelicidade e a daquele energúmeno ao qual se aliou estou mais vivo do que nunca, ansioso por fazer justiça!
— Justiça? — o soldado ironizou —. Acha mesmo que é digno de exigir justiça com todas as perversões que têm cometido? Você é um homem podre, alguém sujo, indigno de justiça!
— Sabe com quem está falando? — intensificou a força que usava para conter o opositor —. Com alguém que pode permitir a sua fuga, que pode lhe conceder a chance de partir, ir para um lugar distante, mas que também pode entregá-lo para uma tortura inesquecível, lentamente dolorosa, que lhe concederá uma morte agonizante — levou o canivete ao pescoço vulnerável —. E seu sofrimento pode começar agora!
Amedrontado, Bruno olhou ao redor, seus olhos procuravam desesperados por alguma solução, paralisaram quando viram Pedro. Atento, Sebastião notou o momentâneo alívio de sua presa, dirigindo a percepção aonde o rapaz encarava viu alguém correr de volta para a festa.
— Nossa conversa continua mais tarde — guardou o canivete —. Quando ninguém nos interromperá! — ao tirar a mão do bolso exibiu a pistola que carregava, chocou-a contra a cabeça de Bruno e o largou desmaiado atrás das árvores, escondido pela escuridão.

Atravessando os portões sem olhar para trás, os escravos adentraram a estrada que os conduziria ao quilombo, lugar de paz, onde regozijariam pela conquista da liberdade. Mas seus inimigos não eram tão previsíveis quanto esperavam, a carta que declarara guerra preocupou Frederico que, com a ajuda de Sebastião, recrutou soldados para que ficassem escondidos nas copas das altas árvores, à espreita, esperando pelo momento certo de surpreender.
Saltaram.
Eram dezenas contra dezenas.
Porém, cansados do sofrimento, cansados de serem escravizados sem nada deverem, cansados de saciar as vontades de homens gananciosos e cruéis, os negros não se intimidaram pelos armamentos a eles dirigidos. Alcançariam a liberdade. Se não fosse pelo acolhimento do quilombo seria pelo resgate da morte, mas para trás não voltariam.
Avançaram.
Os soldados, surpresos pela ousadia dos escravos, posicionaram-se para a luta, a ordem era clara, precisavam recuperar os fugitivos com vida, não poderiam morrer, a morte deles representava prejuízo ao poderoso barão.
Os negros colocaram em prática a luta treinada.
Os brancos eram massacrados por não saberem como se defender, como prever o próximo golpe, por não compreenderem como sabiam lutar de maneira tão imbatível. Possuídos por tantos discursos racistas, concluíram que não morreriam nas mãos daqueles que consideravam subalternos, a única vantagem que tinham eram os armamentos capazes de ceifar vidas através de simples disparos.
Percebendo a proximidade da chacina, vendo que seus companheiros também se armaram com as armas dos inimigos derrubados, um dos escravos se colocou diante de todos erguendo as mãos em um gesto de rendição, queria evitar o derramamento de sangue para ambos os lados, faria sua tentativa de salvar a todos.
— Vale mesmo a pena se deixar levar por discursos violentos que nos segregam e separam? Vale mesmo a pena arriscarem-se por homens poderosos que pouco se importam com as suas vidas e os colocam na trincheira para que os tornem ainda mais poderosos? O que vocês ganham nos matando? O que vocês ganham nos torturando e oprimindo todos os dias? Fazendas produtivas? Cabeças de gado? Propriedades invejáveis? Não percebem que são usados por interesses mesquinhos e egoístas? Já nós, os oprimidos, cansados da vida miserável que disseram que deveríamos suportar, não temos nada a perder lutando contra vocês para termos de volta a nossa humanidade. Se morrermos estaremos livres, a dor da morte seria muito mais como um bálsamo às nossas almas, mas e quanto a vocês? O que ganhariam matando? O que perderiam nos deixando em paz?
Ainda que hesitantes, as armas se abaixaram.
O caminho foi aberto.
E os escravos passaram rumo à liberdade.

Sem saber como reagir, quais palavras usar, como confrontar Frederico afastando suas suspeitas, Egídio apenas o encarou atônito, seus olhos falavam por ele o medo que sentia.
— Não precisa se intimidar, meu companheiro — o barão pousou a mão pesada sobre o ombro do adversário —. Seria incapaz de feri-lo, não posso me levantar contra os meus iguais, pelo menos não diretamente. Sugiro que vá embora, retire-se daqui sem alardes e leve o pecador do seu filho junto. Outra vez surpreso? — sorriu vitorioso —. Vá embora! — ordenou.
Avançando entre tantos convidados, apressado por desaparecer da presença de um sujeito invencível, Egídio acabou esbarrando em Ana, encarou-a assustado e deu o aviso:
— Se quiser sobreviver, fuja! Seu pai sabe de tudo! — apressou os passos.

Sebastião, adentrando a casa grande, atravessando por entre a multidão, encontrou Frederico, começaria o plano sorrateiro, construído sem que esperassem.
— Eles estão aqui! — alertou.

Ana e Artur se entreolharam surpresos, precisariam agir antes do previsto, precisavam salvar as próprias vidas.
— Agora! — o escravo bradou.
Os outros escravos que trabalhavam no baile deram início à rebelião, lançaram taças, bandejas e talheres sobre o chão, empurravam homens e mulheres causando alvoroço, bagunça, desesperados por se livrarem do inimigo e correrem rumo à felicidade.

No meio de tanta correria, Frederico sorriu, Sebastião dirigiu o olhar a um dos guardas, antes que alguém pudesse sair as portas se fecharam e sentinelas adentraram a casa grande armados, preparados para responder com morte a qualquer audácia.


Continua...


##
No próximo capítulo:

— Não, não fale bobagens, não aja como um tolo, não vou voltar atrás em meus passos em virtude das suas ameaças, não me aproximei deles para depois traí-los, não me envolvi com Artur para então descartá-lo, eu não tenho medo da sua maldição! — valente, sendo assistida pelo severo homem que tinha por pai, sendo admirada por aqueles que constantemente se calavam ante a humilhação, Ana confrontou o barão demonstrando a coragem que possuía.

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