[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 78 - O Soar da Guerra
Capítulo 78 – O Soar da Guerra
Sinto que essa
será a última vez que confronto uma sociedade hipócrita com palavras que a
coloca cara a cara com a verdade e causa inquietação por despertar os seus monstros.
Sinto que o sol raiará àqueles que acreditam num amanhã melhor e, repletos de
esperança, não deixam de combater a fim de tornar real o que não passa de
sonho. Sinto que os inocentes serão libertados e os culpados amarrados. Sinto
que o chicote perderá seu valor, que a soberba afogará os poderosos em sua
própria arrogância e que impérios construídos sobre rios de sangue
desmoronarão. Sinto que a liberdade se lembrou de nós.
Como conseguem
adormecer tendo nas mãos vidas interrompida? Como são capazes de adentrar a
igreja e elevar suas preces carregando em cadeias as almas dos que
atormentaram? Eu não entendo, não compreendo e nem tento entender o tamanho da
crueldade que os domina e controla. Sei apenas que viveram uma vida medíocre e
miserável quando, ao invés de amarem, escolheram oprimir.
Não há mais o
que esperar, não há mais o que preparar, não há mais pelo quê se esconder. É
chegada a hora para que as correntes se arrebentem, os cadeados estourem e os
portões se abram. É chegada a hora do opressor ser oprimido pelos próprios
fantasmas e do oprimido alcançar a luz que tanto almejou, a luz do novo
horizonte uma bela paisagem que os engolirá para a eternidade. Sinto que a vida fará justiça,
os injustos serão cobrados e os injustiçados serão recompensados por cada
lágrima derramada, pelo sangue perdido. Se a humanidade se valesse da própria
inteligência a libertação não viria através de uma guerra sanguinária,
infelizmente não há opções, sinto que a luta será grandiosa, avassaladora,
libertária!
Logo pela manhã as pessoas se intrigavam pelas
palavras que faziam o anúncio de uma guerra prestes a estourar. Criavam
teorias, imaginações, enquanto uns consideravam meios para se proteger da
investida dos rebeldes, outros procuravam formas de lutar ao lado dos revolucionários
se assim fosse necessário. Mas, como era de se esperar, como era o propósito do
autor de tão perigosa carta, eram os poderosos os maiores preocupados.
— Isso é uma declaração clara e incontestável de
guerra! — o homem barrigudo, usando o bigode característico, sentado em frente
ao barão, fazia sua declaração —. Eles estão indo longe demais, adentrando um
terreno que não deveriam, precisamos reagir com energia!
— Devo concordar com nosso amigo, essas cartas têm
conquistado leitores que dão créditos a elas, que se deixaram convencer por
elas, que se deixaram levar pelos rebeldes e lutariam por eles! — o sujeito
careca, exibindo o olhar rígido a Frederico, contribuiu para o alarde do outro
—. Ou respondemos à altura ou seremos nós os próximos a apanhar no tronco.
— Não acham que é exatamente isso o que eles querem?
Que sintamos medo e demonstremos isso? Que através do nosso receio todas as
pessoas percebam que esses discursos desprezíveis têm importância e serventia?
— o barão respondeu aos fazendeiros lançando perguntas —. De que nos adiantaria
encher as estradas de guardas se não temos ideia de quem é o nosso inimigo? Não
podemos permitir que nos aflijam dessa maneira, não podemos nos desesperar, se
eles querem nos amedrontar precisamos mostrar que falharam!
— Infelizmente devo discordar da sua passividade — o
barrigudo protestou —. Nosso inimigo pode ser um moleque mimado como pode ser
um exército armado. Não sabemos com quem estamos lidando. Não sabemos com quais
armas seremos confrontados.
— Eles também não têm noção do quão perigoso pode
ser cruzar o nosso caminho! — Frederico se levantou da poltrona, os homens em
sua presença ergueram os olhos —. Amanhã acontecerá o grande baile, um evento
no qual nos divertiremos despreocupados, por certo estaremos no meio de nossos
inimigos trocando risadas e compartilhando bebidas. Mas será quando menos
esperarem que darei o meu recado, rebelde nenhum ousará em tirar do papel essas
palavras insanas — rasgou a carta que segurava, lançou ao ar os pedaços picados
imaginando estar a um passo dos opositores.
¤
Enquanto os opressores se revoltavam, os que eram
chamados de rebeldes por se voltarem contra o injusto sistema que regia uma
sociedade estagnada faziam planos para que vencessem a luta, para que derrotassem
o inimigo e fizessem a liberdade se erguer com sua glória.
— O baile será amanhã. Ninguém nos reconhecerá desde
que estejamos na festa apenas como simples convidados. Enquanto todos se
deleitarem em suas conversas os escravos se voltarão contra a servidão, longe
dos olhos de Frederico tudo ficará mais fácil para que a fuga aconteça —
Victor, transmitindo as informações que recebera de Ana em um encontro
clandestino no meio da mata, anunciava que o dia da guerra finalmente chegara.
— Não podemos nos esquecer de que estaremos em
terras traiçoeiras, ainda que tomemos muito cuidado será pouco para que
estejamos seguros — Heitor, repousando sobre a mesa dois revólveres, expôs o
que sentia —. Torço para que não seja necessário, mas se precisarmos escolher
entre a vida deles e a nossa nem preciso declarar qual será a decisão.
As armas eram ofertadas a Felipe e a Pedro, dois
jovens que sentiam o incômodo cheiro das ameaças que aquela noite tão aguardada
reservava a quem por ela passasse.
— Você não precisa nos acompanhar se não quiser —
Victor disse ao jovem adolescente.
— Não precisa se preocupar — tomou posse sobre o
armamento que jamais imaginou usar —. Quero muito ver minha família, dizer o
quanto estou feliz e vê-los contentes por alcançarem um antigo intento!
— E eu não posso me esconder para sempre atrás das
palavras — Pedro pegou o armamento que sobrou —. São as ações de um homem que
fazem sua história!
— Estamos todos preparados! — Egídio, participando
da importante reunião, manifestou o comentário —. Lutar nunca é fácil, mas
conviver para sempre com a culpa de ter se omitido frente à injustiça é muito
mais difícil. Estamos fazendo o certo mesmo com todos os riscos, nossa missão é
permanecermos vivos!
A guerra soava sua chegada.
¤
Aquele poderia ser o último dia de um trabalho
injusto e exaustivo, o último dia de tormentas cruéis e marcantes, o último dia
de um sofrimento que parecia interminável para que tão logo o sol raiasse,
amanhecesse o primeiro dia da liberdade. Percebendo que os demais guardas estavam
distantes, Artur se colocou no meio das dezenas de negros, escravizados por um
motivo intolerante, por uma razão injustificável.
— Amanhã será o grande dia, quando nos levantaremos
com força e coragem para que a vida nos presenteie com o que de melhor pode
existir: liberdade para sermos humanos! — encarava os atenciosos ouvintes com
valentia, encorajava-os a acreditarem na vitória —. Sejamos fortes e
destemidos, não hesitem em se livrar de seus adversários, estamos preparados
para atacá-los como merecem, estamos prontos para vencer! Não quero que
cheguemos a esse ponto, não precisamos nos igualar a quem nos mata sem piedade,
mas se tiverem que fazer uma escolha peçam perdão aos deuses e sobrevivam! Eles
têm escolha, poderiam mudar de mente se assim quisessem, mas preferem se
engrandecer a partir da nossa dor, nós não temos alternativas distintas,
restou-nos apenas lutar pela dignidade que nos foi ultrajada. Resistam!
Sobrevivam! Vivam o prazer da liberdade! — alvoroçou aqueles que almejavam
descanso para seus corpos e sossego para suas almas.
Atenta às palavras do filho, observando o quanto sua
liderança incentivava a esperança naqueles que lhe davam atenção, Adelaide se
orgulhou pelo rapaz que merecia um futuro glorioso. Mas o coração orgulhoso foi
tomado por doloroso aperto, a alma que regozijava se sentiu sufocada de
repente, a mãe encorajada pelo filho perdeu a valentia quando seus olhos viram
Artur amarrado ao tronco derramando lágrimas pesadas, demonstrando árduo
sofrimento através do semblante derrotado. Na visão indesejável, Adelaide viu
alguém ao lado do filho, sua cabeça estava tombada, seus olhos fechados e seu
corpo não reagia aos novos vergões que surgiam em suas costas. A mulher se
desesperou quando o rosto foi revelado, era Ana, parecia estar morta, tragada
pela dor.
Adelaide se afastou.
Escondeu-se para que não vissem o seu choro.
Começou a suplicar para que as imagens que passaram
em sua mente fossem apenas ilusões da angústia que sentia, não queria que fosse
um aviso das divindades como aconteceu quando Joaquim respirou pela última vez.
##
No próximo capítulo:
Ao longe,
tendo entre os dedos a taça de vinho, Frederico observava a esposa com o homem
desconhecido. Não faria um escândalo, afinal, em bailes como aquele as pessoas
eram livres para dançarem com quem quisessem, ele apenas queria saber quem era
o sujeito que deixava a esposa tão sorridente. Não poderia ser um antigo
fantasma, não queria acreditar nisso.
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