[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 68 - Marcada Simplesmente por Amar
Capítulo 68 – Marcada Simplesmente por Amar
As ruas estavam desertas e silenciadas, a noite
gelada obrigava as pessoas a procurarem por calor no interior de suas casas,
juntamente a suas famílias, poucos eram os corajosos que enfrentavam o frio e desbravavam
a escuridão.
O Protetor, voltando da floresta, sentindo-se
orgulhoso por ter ajudado alguns escravos a chegarem ao quilombo, andava pelas
ruas de São Pedro ansioso por chegar em casa e se envolver nos cobertores, era
esse o seu intento, mas o destino colocou em seu caminho um homem que
agonizava, que mal tinha forças para resmungar, mas que no coração esbravejava
suplicando que a vida não lhe deixasse.
Victor, assustado pela cena que imaginara ter
acontecido em virtude do sujeito machucado, abaixou-se perante a vítima, fez
algumas perguntas, todas sem resposta, o único que poderia dar morria conforme
o tempo passava.
Sem pensar muito, reconhecendo a gravidade do caso,
o português jogou Heitor sobre as suas costas, começou a caminhada atento para
que olhos maldosos, que pouco se importavam com o frio, não os flagrasse,
esforçava-se por manter o ferido em segurança, seu desejo por chegar em casa
era ainda maior.
Recebendo o auxílio de Felipe, Victor ajeitou o
homem desconhecido em sua própria cama, cobriu-o a fim de protegê-lo da
friagem, colocando a mão em sua testa constatou o estado febril, pegou alguns
medicamentos que tinha guardado, fez com que o homem aparentemente inconsciente
os engolisse. Era tudo o que poderia fazer. Restava-lhe apenas torcer pela
melhora do hospedeiro.
Logo pela manhã, quando o sol rompia ao amanhecer,
Victor se colocou ao lado de Heitor, durante a madrugada percebeu que a febre
se fora e que o desconhecido adormecera, agora limpava os hematomas do rosto,
julgava que o enfermo se metera numa briga e fracassara inegavelmente.
Os olhos preguiçosos se abriram vagarosos.
As vistas embaçadas pouco a pouco se acostumaram com
a claridade.
Com a volta da consciência, o amante de Laís
percebeu o corpo dolorido, pesado, notou também que não estava em casa, não
reconhecia o lugar ao qual fora levado, muito menos o sujeito que o encarava
surpreso. Tentou se sentar, mas além da forte dor na cabeça sentiu uma tontura
descomunal, precisou voltar à posição original sendo levemente empurrado por
aquele que jamais vira.
— Quem é você? — soou a voz arrastada, nem mesmo a
mandíbula escapava da sensação dolorosa que tomava o restante do corpo.
— Victor. Não precisa se preocupar, está em boa
companhia — o português se adiantou em esclarecer ao sujeito confuso como fora
parar ali, ajudou-o a se lembrar da surra que levara, ajudou-o a relembrar que
era perseguido porque amava —. Mas não posso conter minha curiosidade, o que de
tão grave você fez para que quase o matassem?
— Apenas amei... — sua feição denunciou a fisgada, a
mão levada à cabeça revelou o local do incômodo.
— Isso não é motivo para que fique de frente com a morte
— Victor insistiu, queria explicações maiores, precisava saber quem era o
desconhecido que colocara dentro de casa.
— Não quando o alvo do seu amor é a esposa do
barão... — pouco se importou em revelar a verdade, àquela altura seus piores
inimigos conheciam-na, para quê continuar escondendo?
O Protetor se espantou com a revelação, estava
diante de um amor proibido, um amor ousado, um amor que surpreendentemente
possuía chances de acabar em fatalidades, em um trágico fim.
— Aquele homem é um ordinário vagabundo, um covarde
dissimulado! — queria que as palavras soassem com a mesma intensidade da raiva
que consumia seu espírito, mas a carne debilitada não permitia que as emoções
aflorassem —. Ao invés de pessoalmente me enfrentar, mandou um grupo de sujeitos
igualmente covardes que matariam uns aos outros na ânsia mesquinha por serem
notados pelo monstro abominável que Frederico representa! — mantendo os olhos
fechados, ignorando a possibilidade de estar no meio de rivais impiedosos,
Heitor esvaziou o peito no desabafo rancoroso contra o indivíduo que em muitos
despertava o ódio.
— Acredito que seremos bons amigos, temos um
adversário em comum e pelo que percebo o nosso objetivo é o mesmo, destruí-lo!
— com paciência, ajeitou Heitor para que se sentasse —. Teremos muito a
conversar, mas antes precisa se alimentar, se recuperar, aproveitar a segunda
chance que a vida está lhe doando...
¤
Talvez não tenhamos tanto medo de morrer quanto
temos de perder para sempre as pessoas que amamos, chegamos a questionar a
vida, procurar incansáveis por explicações e, desesperados, confessamos que
daríamos nossa própria vida para que o tal não partisse ou então confessamos
que para nós a vida já não tem sentido e o nosso desejo é estar com aquele que
precisou ir embora. Não queremos nos despedir de quem amamos. O amor não foi
feito para ser rompido e de fato isso não acontece, no entanto, sem o objeto
desse sentimento ao nosso lado, o amor parece se transformar em tortura,
queremos demonstrá-lo, mas já não é possível, queremos vivê-lo, porém
reconhecemos a inviabilidade do desesperado anseio.
Ao longo da noite, ouvindo a pesada e repulsiva
respiração do homem desprezível que ao seu lado adormecia, Laís derramava
lágrimas de angústia e solidão sobre o travesseiro que se encharcava. Relutava
consigo mesmo para que o choro cessasse, mas o coração arrebentado ardia em
chamas cruéis, a lástima não era possível de esconder, nada curaria tamanha
dor.
Desde tão nova, quando começara a compreender sobre
os assuntos do coração, Laís prometera a si mesmo que se entregaria ao único
que despertasse afetos em seu ser, recusar-se-ia às determinações da sociedade
ultrapassada que a cercava, faria o amor vencer. Descobrira em Heitor o objeto
de seu amor, ainda moça rendera a ele o seu coração, encheu-se de valentia
quando percebeu que seu romance era ameaçado, mas voltou atrás nos passos
audaciosos quando lhe prometeram que o rapaz ao qual se apaixonara seria o
maior prejudicado. Fingiu romper o relacionamento que jamais conseguiria
desfazer. Mesmo prometida a outro homem, assegurou a Heitor que nunca deixaria
de amá-lo. Cumpriu suas palavras. Uma ação que matara o seu amor. A culpa era
sua e por isso o choro apavorado não se esgotava, nem mesmo quando Frederico
acordou.
— Chorando logo cedo? — o barão bufou irritado —.
Não desperdice suas lágrimas com um verme como Heitor — levantou-se.
— Eu o amava! — sentada na cabeceira da cama,
exibindo o pranto que não largaria sua alma tão brevemente, a baronesa
confessou a grande verdade que por anos precisou esconder a fim de proteger um
alguém especial, mas de que adiantou? De que adiantaria continuar escondendo?
—. Ele foi o único homem que amei — levou o olhar irado àquele que desprezava
—. O único homem que me teve como mulher! E isso você não pode mudar,
Frederico, a história que eu vivi com ele bem debaixo do seu nariz você não
pode apagar! — esbravejou dominada pela ira que descontrolou sua língua.
— Sua safada miserável! — sentindo o coração
disparar pelas palavras que feriam seu orgulho, Frederico saltou sobre a cama,
puxou a mulher com força brutal, lançou-a contra o chão sem qualquer pudor —.
Posso não conseguir mudar o passado, mas existe o futuro, minha querida, e o
seu eu já destruí! — chutou a baronesa com covardia, pouco se importou com os gritos
de dor e horror —. Aposto que imaginaram o futuro, fizeram planos para que
estivessem juntos, mas acabou! — levantou Laís pelos cabelos —. Está me
ouvindo? — as fagulhas que saltitavam de sua boca caíam sobre o rosto da esposa
—. O futuro não existe mais! — esbravejou chamando a atenção dos que estavam em
casa, atraindo Ana para o quarto onde a violência imperava.
— Isso não muda o maior dos fatos, ele me teve em
seus braços como você nunca terá! — cuspiu, cuspiu sobre a face do barão —. Eu
odeio você! — a voz soou amargurada, estridente, com fulgor.
— Vagabunda! — descontrolado, sentindo-se humilhado
por tamanha afronta como se estivessem perdendo o temor que queria que todos a
ele devessem, Frederico lançou a esposa contra os pés da cama, fechou o punho,
sobre o rosto que merecia carícias e afagos foi garantindo uma pancada
violenta.
— O que é isso?! — Ana, apavorada pela cena, fez sua
presença ser notada perante o casal —. Como pode ser um homem tão perverso?! —
as lágrimas rolaram contra a sua vontade, seu coração era envolto por um misto
de medo e raiva.
— Você sabia? — o sujeito desequilibrado avançou
contra a garota, apertou seus dois braços enquanto a encarava diretamente nos
olhos irradiando toda a fúria que o possuía —. Você sabia que essa devassa se
comporta como uma prostituta insaciável? — as ofensas não eram poupadas,
sentia-se traído, humilhado, sentimentos que nunca imaginou experimentar dado o
perigo que representava —. Fale a verdade!
— Tudo o que sei é que ela é uma mulher incrível,
digna de todo o amor que possam lhe conceder, não vejo razões para que a tratem
de maneira desumana — respondeu conforme o que sentia, apiedando-se pela mulher
que, vulnerável ao chão, derramava lágrimas amargas.
— Ela não passa de uma porca! — empurrou a filha
para trás —. Quer agir como aquelas negras imundas? — dirigiu-se à esposa
arrastando-a pelo braço —. Tem todo o direito — cravou os olhos sobre o olhar
apreensivo de Laís —. Mas sofrerá como elas também!
Desprezando os gritos de Ana e de Laís para que parasse,
como se não conseguisse ouvir nada além do sangue fervente que acelerava em
suas veias, Frederico levou a esposa até o terreiro. Dominado pelo ódio que o
consumia, desesperado por recuperar o medo que sempre despertou, amarrou a
baronesa no tronco rasgando seus vestidos, deixando à mostra sua vergonha,
ignorando os protestos para que recobrasse a consciência. Ergueu a chibata. Deu
início ao tormento.
Levando os olhos aos céus, não tendo a capacidade de
conter os gritos de dor, retorcendo o corpo a cada chicotada levada, derramando
lágrimas de extremo pesar e acreditando que Heitor já não pertencia ao mesmo
mundo que ela, Laís experimentava da consequência de ter amado, provava do
gesto autoritário e desumano que tantos negros sofreram em seu lugar, lamentava
a realidade que oprimia a todos, que a ninguém poupava, ninguém que não fizesse
parte de um padrão hipócrita inventado por mentes fúteis.
Os vergões vertiam em sangue.
Os escravos se horrorizavam pelo teor da crueldade
que imperava sobre o barão.
Ana chorava por contemplar o sofrimento da mãe sem
nada conseguir fazer, sem nada poder fazer.
Artur reconheceu o olhar da amada, tentou transmitir
conforto mesmo sabendo que nada aliviaria tal angústia.
Bruno se sentia enojado por assistir à humilhação de
uma pessoa tão nobre.
Adelaide mantinha os olhos fechados, não queria
enxergar a angústia da boa amiga nem o monstro no qual o barão se
transfigurava.
O sangue pingava sobre a terra.
As costas recebiam marcas profundas.
Mas Laís, em meio a tanta dor, alcançou um sutil
alívio: não sofria por ter cometido um crime, não recebia máculas por ser uma
mulher perversa e desalmada, era marcada simplesmente por ter amado.
Continua...
##
No próximo capítulo:
Ironicamente,
em todos os seus sentidos, o amor traz consigo certo grau de dor, algum
incômodo por mais sutil que seja. Seja a dor do receio por vivê-lo, seja a dor
da preocupação por a ele já estar entregue ou a dor da incerteza quando a sua
duração. Ao mesmo tempo em que afaga, ele açoita, ao mesmo tempo em que cura, o
amor cutuca as feridas. A uns seu sofrimento é maior, a outros é quase
imperceptível, mas todos, em algum momento, sofreram por amar.
De segunda a sexta, aqui no blog!
Livros
gratuitos:
Encontre
o blog pelas redes sociais:
Obrigado
pela companhia, um forte abraço e até logo!

Comentários
Enviar um comentário
Não deixe de expressar sua opinião, ela é muito importante!