[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 84 - Dores
Capítulo 84 – Dores
A dor. A dor é possível de descrever em palavras ou
até mesmo de mensurar em números, a dor pode ser verbalizada e ter sua
intensidade denunciada. A partir de tais expressões somos capazes de imaginar o
seu tamanho, somos capazes de julgá-la como fraca, moderada ou grave apenas observando,
mas só temos certeza, só podemos falar com propriedade quais são os horrores
que ela causa, quando a experimentamos sobre a nossa pele.
Victor, por tantas vezes, imaginou qual era o
sofrimento dos escravos que buscava proteger, livrar da injustiça, o simples
pensamento embrulhava seu estômago e afligia o humanizado coração que batia em
seu peito. No entanto, trancafiado na solitária, espremido naquele cubículo que
o impedia de mover os dedos e dificultava a respiração, o Protetor confessou
que o sofrimento era maior do que imaginava, o tormento de se estar preso,
entregue a mãos impiedosas, desesperava sua nobre alma.
No meio da madrugada, sentindo dores ao longo do
corpo, sendo lentamente envolto pelas tristes lembranças que antecederam seu
desmaio, Bruno tornou à consciência, percebeu que estava deitado, suas mãos e
seus pés ainda eram imobilizados, o ambiente tomado pelo breu profundo lhe
impedia saber se Victor também estava lá.
— Alguém? — ainda que enfraquecido pela surra, o
soldado usou de alto tom —. Pode me ouvir? — a voz ecoava pela masmorra, lugar
de gritos apavorados, mas a resposta era um silêncio angustiante —. Tem alguém aqui?! — falou mais alto, não
queria ter que aceitar a incômoda ideia de que estivesse sozinho, não queria
passar por dores amargas sem alguém que o auxiliasse.
— Eu! — os ouvidos do Protetor se abriram —. Bruno?
— a voz soava abafada —. Que lugar é esse?!
— A masmorra — aliviado pela descoberta, o guarda se
rastejou pelo chão na direção do onde soara a conhecida voz —. Colocaram você
na solitária?
— Sim. Não há modos de sair daqui?
— É impossível. Não há escolha se não esperar para
que voltem a abram a trinca.
— Faz ideia do que farão conosco?
— Se seguirem o protocolo como seguem com os
escravos, irão nos torturar, talvez queiram saber quem nos ajudou e, se
tivermos sorte, seremos colocados para trabalhar, se não, morreremos... — falou
com receio, a certeza da morte era maior do que a esperança de um futuro a se
viver.
¤
E, então, quando provamos da dor em nosso próprio
corpo, finalmente compreendemos a sua magnitude, as lágrimas que por ela são
derramadas, os gritos apavorados que a partir dela soam. Compreendemos porque
choramos o mesmo choro, bradamos o mesmo grito, sentimos na alma a dimensão do
sofrimento. Damos razão àqueles que se exaustam pela dor e buscam por um
refrigério ainda que através de ações e decisões inconsequentes.
Ana, no meio da madrugada, após se render mais uma
vez ao profundo sono que a tomara, despertou sentindo as fisgadas nas costas, a
ardência dos vergões que ainda eram sensíveis em sua pele. Experimentou da dor
dos escravos, da angústia daqueles que defenderia com unhas e dentes enquanto
tivesse o fôlego nas narinas. Contudo, a dor que sentia infligia seu pranto, as
lágrimas molhavam o travesseiro no qual descansava sua cabeça, a dor era na
carne, mas também tocava sua alma, tentava entender como o pai fora capaz de
motivar tamanha humilhação. Estava mais claro do que nunca, aquele homem não
tinha a menor humanidade.
— Ana? — adormecido ao lado da esposa, sendo
despertado quando o choro ganhou força, Artur prontamente se sentou, levou a
mão ao rosto que se possível fosse passaria a eternidade acariciando, ao rosto
que merecia os mais dóceis e sublimes toques —. Algum problema?
— Dói... — a jovem mulher respondeu, já não era
capaz de esconder o incômodo, a aflição era insuportável.
— Eu sei... — condoído pelo desabafo, o jovem rapaz sucumbiu
às lágrimas, conhecia aquela dor, por tantas vezes teve que experimentá-la,
suportá-la e esquecê-la para continuar vivo —. Se eu tivesse o poder de
extinguir sua dor eu o faria, mas não posso... Perdoe-me, eu jamais pensei que
um dia isso fosse acontecer... — se a intenção de Frederico era que o escravo
ficasse atormentado, poderia festejar, conseguira êxito, Artur não afastava de
si as visões da terrível noite, contemplava a si mesmo contendo a chibata e
arrancando da amada as injustas lágrimas.
— Que bom que nunca pensou... — mantendo os olhos
fechados, tentando alcançar alívio para a ardência nas costas, Ana forçou o
delicado sorriso, o doce curvar dos lábios que sempre balançava o coração do
esposo —. Se tivesse pensado teria desistido de mim, entenda que por amor eu
suportaria a dor que fosse necessária, se precisar suportar outras dores por
amar eu me disporei a experimentá-las, o amor sempre assume uma forma de nos
consolar. Meu consolo é saber que tenho a você ao meu lado...
As palavras acalmaram o coração atribulado.
Mas não afastaram o desejo de vingança.
¤
Em contrapartida, diferente das dores que são
explícitas ao universo, há aquelas que sentimos em silêncio, que nos afligem
dia e noite, mas que nunca as descobrimos, nunca verbalizamos, nunca
expressamos sua ardência. Sofremos em segredo. Por orgulho, talvez, por medo,
quem sabe. Fato é que muitos carregam dores secretas, dores que sangram suas
almas, espremem seus corações, dores que não imaginamos.
Na juventude,
achando que seria capaz de grandes revoluções, acreditando que no futuro se
tornaria um grande, poderoso e destemido homem que transformaria a realidade,
que faria a liberdade raiar, o rapaz pouco se importou com as ordens que o
cercavam e com as ameaças que a desobediência representava. Levou a garota
escravizada para o casebre abandonado no meio de suas terras. Confessou em seus
olhos que a amava mais do que a si mesmo, que desejava ardentemente tê-la em
sua vida para sempre, um desejo que o afligia. Apaixonados, permitiram que as
peles se tocassem, que os corpos se envolvessem, que o amor que sentiam fosse
consumado naquela noite inesquecível.
— Bom dia... —
pela manhã, quando a luz do sol invadiu a casa que necessitava de uma boa
reforma, a voz grave soou sonolenta aos ouvidos da moça que era envolvida pelos
braços que tocava.
— Bom dia... —
sorridente, sentindo-se humana por amar e ter o direito de ser amada, sendo
acolhida por alguém que era influenciado para considerá-la suja e impura, a
escrava se virou ao namorado, encarou os olhos potentes, obstinados, olhos que
denunciavam a força de um guerreiro —. Somos loucos, não somos?
— Loucos? — o
rapaz sorriu galanteador —. Se amar for loucura, então sou um louco
inconsequente — aproximou-se dos lábios dos quais sentia dificuldade para
resistir —, louco por seus afagos, louco para ser livre das amarras e digno de
exibi-la ao mundo como a mulher da minha vida! — beijou a amada como se
almejasse imensamente por aquilo, despertando a paixão adormecida, fazenda com
que o amor os controlasse e os entregasse ao ato de intenso romantismo.
Desejavam-se.
Para sempre se desejariam. Se não fossem os homens perversos.
— Eu te amo... —
ofegante, extasiado por tudo o que sentia, o rapaz declarou acolhendo a jovem
em seu peito.
— Eu amo você
ainda mais... — agraciada, a escrava repousou-se sobre o corpo do namorado,
quem lhe transmitia segurança.
As portas do casebre
foram derrubadas.
Um sujeito irado
adentrou o quarto que testemunhara o tamanho do amor que ligava aquele casal.
— Quero pensar
que usou essa imunda apenas como seu objeto se satisfação — o homem
descontrolado avançou contra a escrava, antes que pudesse tocá-la, porém,
precisou encarar os olhos severos do filho que se colocou na frente da moça —.
Frederico Albuquerque, não me decepcione! — vociferou como um tirano que não
aceita qualquer oposição.
— Não encoste
nela! — o rapaz ordenou —. Não é um objeto de satisfação, é a mulher que eu
amo!
— Vagabundo
ordinário! — o barão mais temido da região bateu na face do filho —. Olha o que
eu faço com a mulher que você ama — disparou assiduamente contra a jovem, o
sangue se misturou aos lençóis —. Olha o que eu faço! — usando de brutalidade,
forçou o filho a encarar o pavor no rosto da amada, a ver o sangue derramado, a
assistir a cena que jamais deixaria de atormentá-lo.
— Não... — com
lágrimas apavoradas molhando seu rosto, Frederico não queria acreditar no que
contemplava —. Não! — repetia a si mesmo querendo despertar do pesadelo, mas
não era um devaneio, aquela era a realidade mais indesejável que deveria
enfrentar —. O que você fez?! — enfurecido, empurrou o pai arremessando-o ao
longe, foi imobilizado pelos homens que acompanhavam o barão —. O que você
fez?! — sentia insuportável dor, seu coração era esmagado.
— Sabe o que eu
fiz? — bateu no rosto do filho —. Livrei a sua honra! — outro tapa —. Livrei o
seu sangue! — outra agressão —. Livrei-nos do fardo de cometer uma insanidade!
— as agressões marcavam o rosto de Frederico, marcas por ter vivido um amor.
— Você é um
desgraçado! — o rapaz chorava amargurado, a vida parecia ter acabado.
— Você é um
pervertido miserável! — fechou a mão, esbofeteou a barriga do filho —. Por
causa desses negros imprestáveis está se dispondo ao sofrimento. Levem-no à
masmorra! — vociferou —. Preciso transformá-lo em gente antes que se transforme
em monstro!
Frederico, suando, despertou do sonho que o levou ao
passado, quando experimentou a dor dos vergões, a tortura dos métodos
desumanos, a enlouquecedora angústia da solitária que o privara da luz do dia,
que o impedira de comer e beber por dias. Tudo aquilo por ter amado uma negra,
por ter amado uma mulher, por ter amado um ser humano. Tudo que o transformou
em um sujeito descrente no amor.
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No próximo capítulo:
— O que você
queria que eu fizesse?! — incomodado pela verdade expressa, o barão se
levantou, avançou contra o religioso, conteve-o o pelo braço —. Apanhei, fui
torturado, passei dias e noites sem contemplar a luz do sol e o brilho das estrelas,
passei fome! Eu precisava sobreviver! — pela primeira vez, depois de tantos
anos, o rosto de Frederico foi molhado por uma lágrima pesada.
— E decidiu
fazer o mesmo com inocentes? Ainda escolhe privar as pessoas de viverem aquilo
que você se privou de viver e sabe o quanto é doloroso?
— Eu não me
privei! Impediram a mim! Mataram a mulher que eu amei! Como pode dizer que a
culpa é minha?
De segunda a sexta, aqui no blog!
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