[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 88 - Homenagens


Capítulo 88 – Homenagens

O homem que verdadeiramente amava sua mãe e que inegavelmente por ela era amado era o seu pai, era o seu sangue que corria em suas veias, não o de Frederico, o causador de todos aqueles males, o responsável por muito choro derramado e por tanto sangue espalhado.
— Por que não me contou antes? — a jovem mulher, contente pela descoberta, sentindo alívio por saber que um sujeito tão agradável era quem possuía o direito de chamá-la de filha, quis conhecer as razões que levaram tão importante segredo ser encoberto por tantos anos.
— Eu precisei esconder essa verdade por amar Heitor e por amá-la também. Vocês são igualmente impulsivos, se soubessem a verdade pouco se importariam para ignorar as ordens de Frederico, mas seríamos punidos, jamais conseguiríamos escapar, precisei proteger a nossa família para que no momento certo a verdade surgisse. No entanto, precisei abrir as cortinas por uma razão que nunca imaginei, vá até Artur, despreocupe-o, ele precisa do seu apoio nessa hora de imensa aflição.
Abraçando a mãe, agradecendo aos céus pela revelação, Ana se colocou ao lado do amado, cochichou em seu ouvido a verdade, ofereceu seu ombro para que nele o jovem rapaz encontrasse proteção e forças naquele momento de amargura.

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Como um qualquer, como se não valesse coisa alguma, das mesma forma como agiu com tantos seres humanos inocentes, Frederico foi lançado na masmorra, trancafiado naquele lugar de tortura, onde gritos apavorados soaram horripilantes, onde lágrimas que suplicavam por misericórdia foram atendidas com mais açoites. Seus gritos de ordem já não valiam de nada. O barão precisou entender que o verdadeiro conspirador esteve todo o tempo ao seu lado esperando pela hora certa de atacar, confessou que fora ingênuo ao depositar tanta confiança em alguém que às suas costas aliciou um exército contra ele, homens que se deixaram levar pelo igualmente astuto Sebastião e passaram a servi-lo.
Seus gritos deixaram de ser de ordem.
Seus gritos agora eram de frustração e arrependimento.
Voltando ao passado, quando se vestiu de coragem para amar alguém que lhe disseram ser proibido, Frederico se arrependeu por não ter permanecido em tal valentia, teria sido um homem diferente, teria escrito uma história digna, reconheceu que não seria o vilão, mas o herói, reconheceu que os negros nunca foram seus inimigos, nunca foram os responsáveis pela sua dor, aqueles que chamava de seu povo eram seus verdadeiros opositores, homens com uma perversidade tóxica, a mesma com a qual se deixara contaminar, através da qual se transformara em um monstro.
E quanto ao que acabara de descobrir? Frederico sempre percebeu algo diferente em Artur, via a si próprio no rapaz revolucionário, disposto a lutar por ideais libertários, disposto a derrubar os líderes de uma sociedade injusta, disposto a transformar uma realidade que não achava certa. Talvez por essa razão, por ser enxergar nele, que o tratou como um subalterno quando deveria tê-lo tratado como filho, que tentou para-lo já que no passado foi covarde e não insistiu na mesma valentia. Arrependia-se por não ter persistido e optado pelo caminho aparentemente mais fácil, realmente mais traiçoeiro, que o levava ao abismo do fracasso, do esquecimento, da solidão.
Acreditou que era muito, descobriu que não passava de um sujeito iludido.

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O sol nascia tentando romper o nevoeiro da manhã enquanto homens e mulheres, os poucos que não conseguiram escapar, rodeavam o corpo de Adelaide cabisbaixos, entristecidos, lamentando a partida de uma mulher querida por todos, amada, que com o seu jeito amistoso e gentil a muitos soubera conquistar.
— Foi uma grande amiga — em meio ao doloroso silêncio, Laís decidiu prestar sua homenagem àquela com a qual compartilhara tantos momentos, segredos, com a qual se permitiu ter uma história —. Quando aqui cheguei ela já era moradora dessa fazenda, com o tempo fomos nos aproximando e encontrando afinidades, fomos construindo uma amizade sólida ainda que escondidas dos olhos maldosos. Foi uma guerreira. Aguentou tantas dores e venceu muitos obstáculos, se manteve em pé, acreditando no bem, confiando no futuro. Sei que agora está em um lugar de paz, tendo suas feridas saradas, suas lágrimas colhidas e sua alma confortada como merece. Sei que estará para sempre dentro dos corações daqueles que tiveram a sorte e o prazer de amá-la!
Incentivada pelo discurso da mãe, Ana decidiu que também precisava homenagear a admirável mulher.
— Devo agradecê-la como serei eternamente grata pela sua existência nesse mundo. Lembro-me de quando ainda era uma pequena criança e, cautelosa para que não fôssemos vistas, ela me distraía com as suas brincadeiras dos momentos turbulentos que a fazenda enfrentava. Tivemos uma boa convivência, sei que se minha mãe algum dia se ausentasse eu encontraria em Adelaide um abraço sincero. Sou ainda mais grata porque ela presenteou o mundo com o homem que amo, garantiu à minha vida a experiência de amar e ser amada!
Ouvindo palavras que honravam a existência de sua mãe, Artur não pôde conter a emoção muito menos sua última declaração de amor à mulher que tanto amou.
— Como seu filho posso dizer que sempre foi a melhor mãe do mundo. Mesmo com todas as dificuldades que diariamente enfrentamos nunca deixou de me conceder carinho, de me ofertar proteção, de ensinar a mim como ser um homem de verdade. Esteve sempre ao meu lado buscando me defender, procurando me aconselhar, querendo evitar que eu fizesse escolhas erradas cujas consequências para sempre me atormentariam. Enquanto pôde me privou das dores de ser rebelde, mas quando suas mãos já não me alcançavam, quando passei a confrontar essa servidão injusta e as marcas surgiram nas minhas costas, ela se fez presente sarando minhas feridas. Sempre vou amá-la. Jamais a esquecerei. E prometo que os responsáveis pagarão! — surpreendeu —. Pagarão por cada dor que lhe obrigaram suportar, por cada lágrima que lhe fizeram derramar, pagarão por agora estarem afligindo meu coração de uma forma insuportavelmente dolorosa!
Aplausos soaram.
De apenas um homem.
— Estou arrepiado! — a repulsiva voz de Sebastião soou na entrada da senzala —. Confesso que seu discurso arrepiaria sua mãe se ela estivesse viva, mas conforme-se, garoto, ela está morta, fazer promessas desse tipo além de inútil é perigoso!
— O que faz aqui?! — a alguns metros de distância, Artur bradou —. Não disse que se cruzasse o meu caminho outra vez...
— Me mataria! — o capanga completou —. Será mesmo? Veja só, eu matei a sua mãe, posso muito bem terminar o serviço e extirpar essa raça imunda da terra!
Descontrolado, sem dar atenção aos clamores para que nada fizesse, para que não revidasse às provocações, Artur avançou contra o inimigo com a fúria de uma fera, mas precisou interromper os próprios passos quando ao som de um disparo qualquer Sebastião foi rodeado pelos seus seguidores.
— As coisas mudaram! — o astuto homem exclamou —. A partir de agora devem sua reverência a mim, devem me respeitar como respeitavam ao antigo barão, devem me temer mais do que temiam a Frederico. Eu o prendi, tomei o seu lugar, ele não estava mais em condições de trabalhar, nunca esteve, mas agora não representa ameaças a mais ninguém! Levem-no! — indicou Artur —. Quanto aos outros, livrem-se do cadáver e voltem imediatamente ao trabalho!
Deixando confusão, Sebastião partiu levando Artur à masmorra, ordenando que o jogassem, que o lançassem ao lado de Frederico.
— A família unida! — falou com zombaria —. Creio que após anos de separação, sem nem ao menos imaginarem a forte ligação que possuem, tenham muito a conversar, muito a se conhecerem, muitas contas a acertar!
— O que está fazendo? — irado, Frederico avançou contra o capanga, agarrou-o pelo colarinho e o forçou a encará-lo em seus olhos —. Sabe que está cometendo uma loucura! Deveria pensar antes de optar por esse caminho, antes de se tornar meu inimigo!

— Seu inimigo é você mesmo — foi solto pelo barão quando este percebeu o armamento posicionado em sua cabeça —. Precisará se resolver, compreender quem de fato é, assumir o quanto é volátil e manipulável. Ninguém pode dizer que não tentou, mas o passado está falando mais alto, sei disso, desde quando permitiu que Victor e Bruno partissem ilesos. Quando entender a loucura que estava prestes a cometer me avise, quem sabe eu te coloque como meu capacho? Até lá desfrute da maravilhosa companhia!


##
No próximo capítulo:

— Satisfeito? — o jovem escravo, contendo-se para não colocar as mãos naquele que considerava como o pior homem que poderia conhecer, confrontou o causador de suas muitas feridas —. Sempre tão cruel, tão audaz, tão imbatível, mas veja só o que aconteceu, qual está sendo o seu fim, traído pelos próprios companheiros! Valeu a pena toda essa maldade? Valeu a pena derramar tanto sangue e torturar tanta gente? Valeu a pena afastar pessoas que se amavam? Valeu a pena destruir a vida de minha mãe? Valeu a pena ser feito de indesejável no meio daqueles que deveriam ser sua família? Valeu a pena matar uma das pessoas que eu mais amava?! — bradou emotivo —. Você me causou tantas dores, fez a tantos sofrerem, mas não foi o bastante para que o poupassem do próprio veneno, sua vida foi inválida, sua existência é irrelevante!

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