[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 87 - Indesejável Verdade - Parte 2


Capítulo 87 – Indesejável Verdade (Parte 2)

Todos dizemos o quanto amamos a verdade, o quanto queremos que sejam verdadeiros conosco, que nunca nos escondam os reais fatos que nos cercam, no entanto, nem sempre estamos preparados para encarar a verdade, pois nem sempre ela é agradável de se enfrentar. Uma coisa é certa, cedo ou tarde ela se revela.
Adelaide não queria que o filho se transformasse em um assassino como Frederico, vendo-o daquela maneira descontrolada, sem reflexão sobre os próprios gestos, sem raciocinar sobre o que representa tirar a vida de alguém por pior que seja, não teve escolha se não revelar a verdade que por todos aqueles anos escondeu, a verdade que impediria o rapaz de cometer uma tragédia.
Artur, ouvindo tal declaração, sendo açoitado por uma verdade inimaginável, ficou paralisado, encarando o vazio, tentando entender se aquela noite era real ou se não passava de um pesadelo terrível. Soltou o barão e se virou à mulher que chorava.
— Diga que é mentira — suplicou com os olhos lacrimejados —. Sei que não é isso o que quer para mim, que eu me transforme em um justiceiro sanguinário, apenas diga que inventou essa desculpa para que eu parasse... — avançou desesperado aos braços da mãe —. Você precisa falar que é mentira!
Condoída pela cruel verdade, Adelaide abraçou o filho como se desejasse protegê-lo daquela noite, daquele momento tão indesejável, daquela hora que sempre procurou evitar.
— Só pode estar de brincadeira — fragilizado pelas agressões que sofrera, rendido à cadeira de balanço que ornamentava a varanda, Frederico se manifestou incrédulo —. Já salvou o seu filho de se transformar em um assassino que seria visto como um herói, agora desminta essa barbaridade!
— Não posso desmentir, não mais, essa é a verdade — a escrava persistiu —. Joaquim, tão logo chegara nesse lugar infernal, foi castrado junto aos outros rapazes considerados fracos e por isso indignos de gerarem descendentes, alguns morreram, outros tiveram a sorte de sobreviver, dentre eles o homem que amei com todas as minhas forças até o seu último dia! — Artur se afastou, passou a encará-la com atenção, com frustração, decepcionado por ter sido enganado ao longo de anos —. Antes de Frederico se casar com Laís ele me trouxe para esse quarto e cometeu o ato mais humilhante que uma mulher pode suportar. A gravidez se tornou notória. Joaquim exigiu esclarecimentos e eu não pude omitir a verdade, foi o estopim para que ele se revoltasse, reunisse os seus homens e motivasse a rebelião que culminou em sua morte.
— Isso não pode ser verdade — aturdido, querendo se convencer de que tudo não passava de uma grande ilusão, Artur levou as mãos aos cabelos, sentia-se enganado, revoltado —. Não pode!
— Essa marca que você tem no peito é de nascença, é a mesma que Frederico possui — Adelaide revelou mesmo que contra a vontade, mesmo preocupada em sofrer com a rejeição do filho, mesmo querendo que aquela não fosse a verdadeira história —. Ele é o seu pai...
Descrente, Artur correu em direção ao barão, rasgou sua camisa, qualquer dúvida foi dissipada, a verdade finalmente surgira, carregada de sofrimento. O rapaz se lembrou de Ana, o desespero foi acrescido.
— Como pôde permitir que eu me envolvesse com Ana sabendo que somos irmãos?! — exigiu uma resposta.
Mas Adelaide não pôde falar.
Disparos aleatórios silenciaram suas palavras.
Sebastião, sendo avisado do que acontecia no quarto de Frederico, arquitetou um plano estratégico: dispararia às cegas atingindo a quem fosse tendo como alvo principal o barão de São Pedro, se obtivesse êxito alegaria que agiu querendo proteger o homem respeitado, ninguém o culparia e finalmente teria nas mãos todo o império que invejava.
Mas fracassou.
Alguns tiros acertaram apenas os móveis e objetos, Frederico estava a uma distância segura e Artur teve tempo de se abaixar, mas não teve tempo para salvar Adelaide que foi atingida nas costas e sentiu a dor da finitude percorrer o seu corpo.
— Mãe! — o rapaz esbravejou acolhendo a mulher em seus braços, sendo molhado pelo sangue que dele espargia —. Não! Não! Não! — repetia batendo na face da mulher desfalecida —. Fala comigo! — suplicava como uma criança angustiada.
Mas Adelaide não pôde se manifestar.
Assustado, ainda que com dificuldade, Frederico se levantou da cadeira, caminhou vagaroso em direção à escrava, sentiu o coração se apertar com a cena lamentável que assistia: um filho desesperado via a mãe morrer em seus próprios braços, voltou ao passado, quando também assistira a partida de alguém que amou. Levou os olhos à porta que se abrira, viu Sebastião adentrar o quarto mirando em Artur, gesticulou para que abaixasse o armamento.
— Filho... — combatendo a dor, a escrava encontrou forças para sussurrar —. Filho... — levou a mão gélida e trêmula ao rosto molhado por lágrimas intermináveis, queria falar algo, mas faltava capacidade, não conseguia.
— Não fale nada... — abatido, sentindo o próprio corpo se enfraquecer, tendo a sensação de que o peito era esmagado por rochas robustas, Artur colocou o dedo sobre os lábios de Adelaide, abraçou-a com força, era a despedida que jamais desejou, para a qual nunca se preparou.
A mão da mulher tombou.
A vida se esvaíra de seu corpo.
Sua alma alcançaria descanso.

Apreensivos desde que Adelaide fora levada e Artur saiu à espreita em busca da mãe, os que ficaram na senzala aguardavam ansiosos pelo retorno de ambos, o que aconteceu, mas não como almejavam.
Carregando a mãe nos braços, derramando o choro de tristeza, assombro e raiva, Artur se ajoelhou sobre o solo empoeirado, repousou o corpo de Adelaide sobre o chão, debruçou-se sobre ele chorando a dor impiedosa que todos experimentam quando perdem alguém que tanto amam.
Compartilhando do sofrimento, Ana se aproximou do esposo, abraçou-o com ternura demonstrando o seu apoio.
— Eu sinto muito...
Erguendo-se, o rapaz olhou para a esposa como se precisasse se despedir dela também.
— Frederico também é meu pai...

Ordenando que Artur levasse Adelaide dali, o barão determinou que Sebastião o aguardasse no escritório, ajeitou-se e foi atrás do homem que tinha por braço-direito.
— Enlouqueceu?! — confrontou-o —. E se aqueles disparos me acertassem?
— Eu sabia o que estava fazendo.
— Se sua intenção era matar a todos, muito bem, você realmente sabia! — socou a mesa expondo reprovação pela atitude do capanga —. Veja só o que fez! A lambança que está entre os meus lençóis!
— Por que tanta revolta?! Uma escrava morreu, uma insignificante e substituível escrava morreu, não você! Ou será que está amolecendo o coração? Está se deixando levar por ideais rebeldes? Se estiver me avise, eu não permitirei que essa fazenda deixe de produzir o que é capaz!
— Saia daqui! — exigiu —. Saia da minha fazenda e não volte mais!
— Você não pode fazer isso — o capanga debochou.
— Será mesmo?
Os homens que serviam ao barão entraram no escritório, contiveram Sebastião pelo braço, ameaçaram arrastá-lo ao corredor.
— A encenação acabou — o capanga anunciou —. Tranquem-no na masmorra — os homens o soltaram e, para o confuso espanto de Frederico, dirigiram-se a ele —. É visível que não se encontra em seu melhor estado — ignorou as ordens furiosas do barão —. Sim, Frederico, a intenção era matá-lo, mas acabo de me atentar ao fato de que se não foi dessa vez poderá ser em outra oportunidade — sentou-se na poltrona que Frederico usava —. A partir de hoje a província de São Pedro deve a mim todo o respeito!

Ana, ouvindo a revelação incômoda de Artur, levou os olhos à Laís, que, conhecedora da história, gesticulou para que a filha a acompanhasse. No exterior da senzala, a baronesa confirmou as palavras do rapaz, mas foi além, era a hora de revelar a sua verdade.
— Sim, Artur é filho de Frederico, Adelaide confiou a mim o seu segredo, mas reconheço a apreensão em seu rosto, sei o que está pensando, adianto para que se conforte que vocês não são irmãos. Nunca pensei que a verdade precisasse surgir, mas assim como a omitimos para sobreviver, também a revelamos para continuarmos vivos. Frederico não é o seu pai, você é filha de Heitor, o homem que amo...


Continua...


##
No próximo capítulo:

Voltando ao passado, quando se vestiu de coragem para amar alguém que lhe disseram ser proibido, Frederico se arrependeu por não ter permanecido em tal valentia, teria sido um homem diferente, teria escrito uma história digna, reconheceu que não seria o vilão, mas o herói, reconheceu que os negros nunca foram seus inimigos, nunca foram os responsáveis pela sua dor, aqueles que chamava de seu povo eram seus verdadeiros opositores, homens com uma perversidade tóxica, a mesma com a qual se deixara contaminar, através da qual se transformara em um monstro.

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