[WebLivro] Marcados Pelo Amor - Capítulo 73 - O Romper das Ilusões
Capítulo 73 – O Romper das Ilusões
Viver ilusões é um grande mal, uma experiência que
pode ser traumática no mesmo tanto que dramática àquele que, em um belo
momento, desperta para a realidade dos fatos, para a verdade que paira sobre
sua cabeça, mas que parecia encoberta, distante e até inexistente. Viver
ilusões pode nos transformar amargamente.
A verdade apareceria de qualquer maneira, cedo ou
tarde ela teria que se manifestar, mas Rute escolheu revelá-la tendo tempo para
alcançar a compreensão de sua filha, para correr atrás de seu perdão se assim
fosse necessário, para viver com ela a vida que não pôde. Porém, encarando os
olhos indignados que a fitavam exigindo respostas, a mulher mascarada sentiu o
incômodo aperto no coração, entendeu que não seria fácil esclarecer suas
razões, convencer a partir de sua história.
— Fui ameaçada — revelando o amor não correspondido
que vivera, a descoberta da gravidez inesperada e a reação do pai perante um
fato irreversível, Rute prosseguiu em sua defesa —. Seu avô disse que se
manchasse sua reputação eu perderia você de um jeito ou de outro, se
confessasse que era minha filha e a notícia chegasse a Portugal
envergonhando-o, ele mesmo daria um jeito de me punir pelos meus pecados.
Exigiu que eu abortasse, o que mais seria capaz de fazer em nome da própria
honra? Eu não pude arriscar, precisei me submeter às suas ordens, precisei
cometer o maior dos meus erros... — as lágrimas sutis rolaram por seu rosto,
idealizou o momento da revelação como sendo cheio de abraços e sorrisos, mas no
fundo sempre esperou pelo que realmente aconteceria, sempre aguardou pelo
enredo de embates, questionamentos e condenação.
Sara, ouvindo a verdadeira história, conhecendo um
passado turbulento que reverberava sobre o futuro, sentiu-se confusa no mesmo
tanto que indignada, sentiu-se enganada, iludida, desrespeitada quanto ao
direito que todos possuem de conhecer a verdade sobre a própria existência e de
vivê-la.
— Como pôde mentir tantas vezes? — a garota lançou
sua pergunta —. Sempre que perguntei sobre o meu passado contava aquelas
histórias convincentes. Como foi capaz de fazer isso sabendo que a mãe pela
qual eu tanto queria saber estava bem na minha frente?
— Você não imagina a dor que sentia todas as vezes
que precisava mentir, não imagina quantas vezes desejei contar a verdade me
despindo de medos antigos, mas não tive coragem, nunca consegui me livrar dos
receios que ameaças antigas ainda provocam em mim. Sofri por amar alguém que
não me amou, padeci quando finalmente entendi que ele não queria o meu coração,
mas sorri quando soube que de todas aquelas dores emergiria um fruto — em meio
ao choro controlado brotou o sorriso nostálgico, o mesmo de quando abraçara a
filha pela primeira vez prometendo protegê-la enquanto vivesse —. Não
suportaria perdê-la, era tudo o que tinha, a única boa coisa do meu passado...
— Eu não consigo entender o que estou sentindo... —
aturdida, sem alcançar entendimentos para tudo aquilo, Sara contou com o ombro
do namorado, refugiou-se nele para derramar o choro que a amargura da ilusão
motivava —. É demais saber que sua vida não passa de fantasia — condoído,
conseguindo compreender as duas pessoas, Felipe abraçou a namorada, era tudo o
que poderia fazer: oferecer conforto.
Afligida pelo choro sentimental daquela que
concedera a vida, Rute se aproximou, tentou tocá-la, intencionava abraçá-la e
talvez ser aceita, mas foi afastada. Sara empurrou-a instintivamente, recusou o
seu toque, a sua aproximação, os seus gestos maternais.
— Preciso que me entenda e me perdoe! — suplicando,
derramando lágrimas mais intensas, a mulher discursou —. Mesmo não confessando
a verdade, mesmo escondendo a resposta que era seu direito ouvir, eu a amei
como mãe, cuidei de você, fez o possível para que não vivesse incomodada pela
falta de uma família e cumpri a promessa que fiz tão logo dei à luz, ouvi seu
choro e a acolhi em meu peito, prometi que a protegeria. Então me perdoe e me
deixe ser a mãe que merece!
— Eu vou embora! — afastando-se de Felipe, fitando a
mulher desesperada por compreensão, Sara verbalizou sua decisão —. Preciso
pensar, preciso entender o que significa tudo isso, preciso entender quem eu
sou de verdade.
— Isso é loucura! — Rute protestou —. Como vai se
manter fora daqui? Como vai sobreviver?
— Tenho dinheiro guardado, dinheiro que recebi
trabalhando como criada para a minha própria mãe — naquela fala objetiva a
garota deu expressão à mágoa que ganhava proporção.
— Você não poderia suspeitar da verdade, precisei
que fosse assim, para protegê-la! — a mulher tentou se explicar —. Mas Deus
sabe que nunca a tive por uma criada qualquer, alguém posto apenas para me
servir, em oculto sempre te amei como minha filha!
— Como eu disse, não consigo entender suas razões,
não consigo suportar que de uma hora para outra a minha vida se mostre uma
grande farsa. Eu vou embora. De tudo só entendi que sempre signifiquei ameaças,
não precisará mais conviver com elas!
¤
Sentada na varanda do casarão, observando o céu
azulado e sendo tocada pelo vento frio que a qualquer um arrepiaria, Laís
parecia distante em seu olhar, como se navegasse por pensamentos diversos, como
se sua mente estivesse entregue a uma imensidão de vagas ideias.
Pensava em Heitor.
Já não chorava como antes, já não ficava pelos
cantos exibindo a face combatida, desde que fora ameaçada pelo marido de que
experimentaria outra vez a tortura do tronco, a baronesa mudou o exterior, mas
o interior, o privado do seu coração, onde ninguém tinha acesso, estava
destruído por um amor que, acreditava ela, fora brutalmente interrompido.
— Mãe? — sentando-se ao lado da mulher sofredora,
Ana tirou-a dos devaneios.
— Minha filha... — Laís levou a mão aos olhos,
voltou à realidade.
— Pensando em Heitor?
— Em quem mais seria, não é mesmo?
— O que ele significava?
— Tudo de bom — desenhou na face o desconsolado
sorriso —. Era o homem que meu coração escolheu para amar, o homem que agitava
minha alma através de seus nobres versejares, o homem que atraía para si os
meus mais intensos desejos, o homem que nunca deixarei de amar... — as lágrimas
se juntaram espontaneamente, caíram sem que a baronesa pudesse contê-las —.
Agora entendo que quando o sentimento é verdadeiro nem a morte pode detê-lo.
— Não se refira a ele como se já não estivesse entre
nós, não precisa fazer isso...
— Tem razão — interrompeu a fala da moça, nem ao
menos percebeu a verdade daquelas palavras —. Para sempre o terei em meu coração...
— Não apenas isso, por algum tempo ainda o terá ao
seu lado. Os homens do meu pai o espancaram covardemente e o deixaram para
morrer, mas anjos existem, nem sempre eles precisam descer do céu, muitos vivem
entre nós. Alguém o encontrou, o mesmo homem que protegeu Felipe ajudou Heitor
e o salvou da morte. Ele está vivo. O homem que ama está vivo! — falou com
entusiasmo, com alegria, com júbilo por contemplar na face tão entristecida um
regozijo renovador.
As lágrimas caíram livremente.
Laís não quis contestar a informação, Ana não
brincaria com algo tão sério, restou-lhe apenas abraçar a filha sentindo o
coração transbordar de felicidade, a esperança retornar ao espírito e as dores
do tronco sendo compensadas pelas surpresas agradáveis da vida que nunca se fez
previsível.
— Ele escreveu uma carta — enxugando o próprio
choro, Ana estendeu o papel dobrado —. Não precisa mais sofrer!
Querida Laís, a
mulher que amo, pela qual sofrerei até a morte sem nunca me cansar nem me
render.
Acalma seu
coração, tentaram me matar, mas foram incapazes, tentaram destruir o nosso
amor, mas não conseguiram. Somos fortes demais para a fragilidade de almas
vazias, vazias de amor.
As ameaças têm
se intensificado, os perigos aumentaram de tamanho e já não podemos pisar em
falso, talvez não tenhamos novas chances. Fiquei sabendo da sua for, da
covardia de um sujeito desumano, indecente e desprezível, mas eu prometo que
sararei suas feridas e que a defenderei para que jamais sofra com a perversão
do homem que abomino. Preocupado conosco e por zelar pelo nosso amor, considero
melhor não nos vermos pelos próximos dias, nossos inimigos precisam acreditar
que foram vencedores, precisam se embriagar com a vitória para que,
adormecidos, tenham suas gargantas rasgadas.
Mataremos nossa
sede de amor quando decidir que chegou o momento da fuga.
Aguardarei
ansioso pela sua mensagem.
Nunca deixarei
de amá-la.
Heitor.
O desejo por liberdade acresceu nos corações.
Liberdade que começava a soar sua chegada.
##
No próximo capítulo:
— Talvez o
amor seja a minha maior motivação por transformar nossa realidade, quero ser
livre para vivê-lo, quero que todos tenham a liberdade de senti-lo e
demonstrá-lo ao mundo... — o olhar sonhador se dirigiu ao céu —. Não há coisa
melhor...
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